09 – São José era assim

São JoséEscrito por José, um Monge Trapista 

Prefácio

O ponto de partida é uma devoção pessoal por aquele cujo nome recebi no batismo. Procurei sempre conhecê-lo, o melhor possível, perscrutando as páginas do Evangelho em que ele é mencionado. Depois confrontei minhas meditações pessoais com a interpretação dos Padres e os ensinamentos da Igreja.

A pedido de várias pessoas, escrevi alguns artigos sobre São José para a Revue du Rosaire. Na ocasião do centenário de São José Padroeiro Universal da Igreja, o Revmo. Pe. Roland Gauthier, diretor do Centro de pesquisas do Oratoire Sain-Joseph de Montréal, pediu-me que retomasse esse trabalho e o concluísse. Eu o fiz, e hoje posso apresentar os resultados.

Servi-me de numerosos textos patrísticos, documentos pontifícios e informações diversas, publicadas ao longo de 20 anos, nos Cahiers de Joséphologie de Montréal. Além de minhas reflexões pessoais, incluí nessas páginas outras idéias sugeridas por amigos. Para a interpretação dos textos evangélicos, tomei como guia São Bernardo. Ele soube exprimir com acerto o que havia de melhor nos Padres do Oriente e do Ocidente.

Deus confiou em José dando-lhe a missão de cuidar de seu Filho e da mãe de seu Filho. José confiou em Deus aceitando essa missão, e realizando-a num ato sublime de fé.

Nesta época exaltante e inquietante que o mundo está atravessando, José de Nazaré surge como o homem da esperança. O célebre Dr. Chauchard disse, há pouco, para uma comunidade de monges: “Como tinha razão João XXIII, ao propor São José como o modelo de que mais necessitamos! Enfim, um homem normal, bem real e não uma utopia… Um jovem, modelo de esposo, apaixonado por uma jovem que as circunstâncias impedem de tratar segundo a norma conjugal. José, modelo de controle da sensibilidade e da afetividade a serviço do amor, no respeito e na ternura. Ele é o ideal da verdadeira virilidade em relação autêntica com a verdadeira feminilidade da Virgem Maria”.

Possam estas páginas ajudar a melhor compreensão da atualidade da missão de São José na Igreja: missão de silêncio, de confiança e de devotamento. Com José descobriremos melhor o papel confiado por Deus à Virgem Maria, numa compreensão mais rica da pessoa vivente e presente de Cristo Jesus. 

Abadia de Sept-Fons

Festa de Todos os Santos – 1973

1- NO CENTRO DA HISTÓRIA

Não será pretensão colocar São José no centro da história do mundo? De fato, o que se sabe sobre ele? Para falar na linguagem do nosso tempo, deveríamos dizer que a sua ficha de dados pessoais não traz nenhuma informação interessante. Não se sabe nem o lugar, nem a data do seu nascimento. Ele não deixou nenhum escrito e nenhuma obra de arte. Não se conhece nenhuma palavra que ele tenha dito. Os autores clássicos e os historiadores daquele tempo não fazem alusão alguma à sua pessoa. Tudo o que se sabe está contido em alguns versículos dos Evangelhos, uma dúzia ao todo.

E no entanto, é preciso afirmar que São José está no centro de nossa história humana, e que ele desenvolve ali um papel de primeiro plano. Aparentemente, o que ele fez é bem pouca coisa comparado com os grandes dominadores dos povos e com os construtores de impérios. Não resta absolutamente nada que ele tenha feito: nem um móvel, nem um objeto, nem um edifício. Mas algo melhor: do ateliê desse artesão saiu aquele que construiu o universo, aquele que, dia após dia, forjou um mundo novo, Cristo Jesus.

O importante na vida de São José, não é o que ele realizou, mas o que Deus pode fazer através dele, com ele e para ele. As conseqüências duram ainda e durarão eternamente. O Senhor confiou a José a Virgem Maria, aquela que haveria de dar ao mundo o próprio Filho de Deus. Aceitando unir sua vida à de Maria nos esponsais, José entra no grande mistério do Verbo encarnado e de sua Igreja. De seu modesto lar, numa cidade sem história, num país sob ocupação estrangeira, saiu uma chama que não cessa de iluminar e de aquecer o universo. 

2- JOSÉ   ESPOSO   DE   MARIA

Um orador, devendo fazer o panegírico de Filipe, rei da Macedônia, começa com estas palavras: “Filipe?… é o pai de Alexandre!” E toda a assembléia levanta-se para aplaudir. De fato, quase nada se sabe desse pequeno monarca, mas o seu nome entrou para a história por causa de seu filho Alexandre Magno.

O mesmo acontece com São José. Sua glória não provém de seus descendentes, nem de suas atividades, nem de suas relações, nem mesmo de suas virtudes, mas sim de seu título: esposo de Maria, da qual nasceu Jesus. À pergunta: “Quem é José?”, deve-se responder: “o esposo de Maria!” e se alguém insistir: “Quem é essa Maria?”, não há que vacilar: “é a Virgem imaculada que deu ao mundo Cristo, o Salvador, o Filho de Deus”. José é o esposo da mãe de Deus, o esposo da Rainha dos céus, da Mãe da Igreja, da Mãe de todos nós.

Nunca teremos meditado o bastante estas palavras do Evangelho: “José, o esposo de Maria, da qual nasceu Jesus que é chamado o Cristo” (Mt 1,16).

Cada palavra tem um significado profundamente humano e ao mesmo tempo uma relação com o mistério do Verbo encarnado. José não é um personagem fictício, é um homem bem real, ele leva o nome que lhe deram seus pais; ele é o último elo de uma corrente que remonta a Abraão; embora destituído da realeza, ele continua a garantir as promessas que atravessam o espaço e os tempos.

O esposo de Maria. Nada mais importa sobre José, é aquele que tem Maria como esposa. O mistério do Verbo encarnado insere-se desde o início nesta realidade humana grande e bela que é o matrimônio. Isso supõe que dois jovens, José e Maria, olharam-se, amaram-se, prometeram um ao outro fidelidade por toda a vida, a fim de realizarem aquilo que o Senhor lhes pediria. Mistério de amor, mas ainda mais de confiança. José confiou em Maria, e Maria confiou em José. Ou, melhor ainda, o próprio Deus teve confiança em suas criaturas.

Maria, da qual nasceu Jesus. Trata-se aí de uma verdadeira maternidade. Maria é verdadeira mãe, embora não tenha feito uso do matrimônio. Deus manifestou-lhe uma confiança sem limites ao dirigir-se a ela para a formação humana de seu Filho unigênito. Esta mesma confiança recai pela fé sobre José, pois Deus lhe confiou ao mesmo tempo a mãe e o filho. Ninguém jamais amou a mãe de Deus com amor de esposo; ninguém jamais teve sob o seu teto, e no seu lar, durante longos anos, o Salvador do mundo e aquela que lhe deu à luz.

Jesus, que é chamado o Cristo. Toda a missão de Cristo está enunciada nessas palavras. Jesus é realmente o Messias prometido pelos profetas. Jesus, o filho da esposa de José, é deveras o Cristo, o Messias, o Ungido do Senhor; ele é o salvador do seu povo, o vencedor de Satã, o libertador do mundo. É toda a missão do Cristo que vem confiada a José.

Muitas pessoas reclamam por não encontrar nos Evangelhos mais detalhes sobre Maria e José. Parece-lhes que, dados mais precisos sobre seus pais, suas ocupações e suas qualidades teriam preenchido frutuosas meditações. De fato, nada se sabe da sua idade, nem das circunstâncias de seu casamento, nem dos motivos que levaram um filho de Davi a instalar-se em Nazaré. É preciso responder que se Deus tivesse acreditado ser útil para nós uma abundância de detalhes, ele no-los teria dado.

Quando refletimos seriamente sobre os relatos da infância de Cristo, como no-la transmitiram São Mateus e São Lucas, devemos agradecer à Providência pela sobriedade que caracteriza os evangelistas. Qualquer escritor, historiador ou romancista teria dado realce a episódios patéticos, capazes de valorizar seus personagens. Nenhum evangelista usa de artifícios literários para apresentar Maria e José.

São Mateus diz: “José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus” (Mt 1,16). São Lucas escreve: “O anjo Gabriel foi enviado por Deus … a uma virgem desposada com um homem da Casa de Davi, chamado José, e o nome da virgem era Maria” (Lc 1,26). São João nem menciona o seu nome. São Marcos também não a apresenta, registra apenas os pensamentos do povo de Nazaré: “Não é ele o carpinteiro, o filho de Maria?” (Mc 6,3). Que diferença das heroinas do Antigo Testamento, Judite e Ester, por exemplo! Não faltam elogios à beleza delas. Judite “era mulher bela e de graciosa aparência” (Jdt 8, 7). Ester “tinha elegância e formosura” (Est 2,7). Nada disso se diz de Maria.

É particularmente sintomático que São João, mesmo tendo vivido longos anos na intimidade com Maria e, sem dúvidas, recebido dela numerosas confidências, não diga absolutamente nada sobre as circunstâncias da encarnação. Ele não fala da visita do anjo, nem faz alusão alguma ao nascimento de Cristo em Belém. Ele poderia ter-nos dito coisas tão belas! O mais extraordinário é que o nome de Maria não se encontre no quarto Evangelho.

 João resume todo o mistério de Maria nestas palavras: “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós” (Jo 1,14). São Paulo precisa: “Deus enviou seu Filho, nascido de mulher” (Gal 4,4). Toda a beleza de Maria está contida nessas poucas palavras. Ela é a mulher que permitiu ao Filho de Deus habitar entre nós dando-lhe sua carne. O Verbo, Luz incriada, invisível, eterna, fixou sua morada entre nós. E Maria foi quem recebeu e revestiu de sua carne essa Luz incriada, para torná-la visível a nossos olhos. “E nós vimos a sua glória, essa glória que ele recebeu de seu Pai como Filho único, cheio de graça e de verdade” (Jo 1,14).

Assim, para São João o que importa não é o nome de Maria, é o seu papel, sua ação, sua vocação. Ela entra em cena entre duas circunstâncias importantes: as bodas de Caná e o Calvário. Cada vez, João a designa não pelo seu nome, mas pela sua função de mãe. É a mãe que intervém nas bodas de Caná, é a mãe que está presente ao pé da cruz, é a sua mãe que Jesus se dirige. Do começo ao fim do ministério de Jesus, sua mãe está presente e atuante. Cada vez, Jesus dirige-se a ela chamando-a não de Maria, mas de “mulher”! Ela é a mulher por excelência, aquela em quem todas as outras estão presentes. Maria é “a mulher” como Jesus é “o filho do homem”; ela é a nova Eva, como Jesus é o novo Adão.

A multiplicidade de detalhes sobre a pessoa de Maria e de José, sobre suas qualidades, suas relações e os mínimos detalhes de sua existência, poderiam fazer-nos esquecer o principal, isto é, o objetivo pelo qual os Evangelhos foram escritos. O Evangelho, disse alguém, é a mais bonita das histórias verdadeiras. Isto é exato se se pretende dizer que tudo quanto está relatado nos Evangelhos é histórico. Mas é insuficiente se olharmos o Evangelho como um conjunto de eventos passados.

Ao lermos os relatos das grandes reviravoltas históricas, das maravilhosas descobertas científicas modernas ou dos belos atos de virtude de todos os tempos, nós podemos ficar interessados, verdadeiramente emocionados, sem que por isso algo venha a mudar em nossas vidas. Com o Evangelho não é assim. Não se trata simplesmente de uma boa notícia, nem mesmo da boa notícia por excelência. É o Evangelho de Jesus Cristo. Isso significa que o próprio Jesus é o Evangelho, a boa e grande novidade que há de alegrar e rejuvenescer todo o mundo. Esta boa notícia diz respeito a todos nós ao nos colocar face a face com Deus.

O Evangelho é Deus que nos interpela e nos obriga a tomarmos uma atitude para com ele e para com a sua criação. Ele nos propõe uma questão de confiança: será que acreditamos no seu grande plano de amor que São João resume nestas palavras: “Deus amou tanto o mundo que lhe deu seu Filho único, a fim de que todo homem que nele crê não morra, mas possua a vida eterna”? (Jo 3,16). Acolher o Evangelho é deixar penetrar em si a verdade viva, a fé descida dos céus e que deve abraçar todas as coisas.

Maria foi a primeira beneficiária dessa verdade viva, dessa fé descida dos céus, mas, naquele momento ela já se achava comprometida em casamento com José. Ambos estavam ligados intimamente a esse grande acontecimento. Por isso, qualquer estudo sobre Maria e José deve começar com a contemplação daquele que veio tomar um lugar no lar deles. Toda luz vem do Cristo. Maria é inseparável de seu Filho e José é inseparável de sua esposa. Separados de Cristo, José e Maria não despertam nenhum interesse para a história. Inúmeras famílias levam uma vida mais pobre, mais rude e também meritória. Muita gente sofreu mais do que eles a malevolência, o desarraigamento e o exílio.

O que constitui o interesse e o mérito da existência de Maria e José não vem daquilo que eles fizeram ou sofreram, mas sim daquilo que o Senhor realizou neles e por meio deles. Ninguém recebeu tanto quanto eles, mas também ninguém foi tão acolhedor aos dons que o Senhor lhe concedeu. Todo homem, porque criado à imagem de Deus, é capaz de acolher a presença de Deus na sua inteligência como verdade, e no seu coração como amor. Para o batizado, Deus está presente de maneira especial através da graça santificante, das virtudes infusas e dos dons do Espírito Santo. O mérito do homem consiste em aceitar essa presença, essa potência e esse amor, a fim de dar a sua cooperação.

Evidentemente, José e Maria, se beneficiaram dessa presença de Deus comum a todas as pessoas. Aliás, eles se beneficiaram de uma presença e de uma ação especial da parte do Senhor. Maria, mediante sua maternidade divina, e José através dos dons particulares em vista da sua missão junto a Jesus e Maria. Toda beleza de José e Maria não lhes vem daquilo que são, mas da luz que refletem, da mesma forma como toda a beleza da aurora vem do sol que desponta. Eles não são a luz, e sim testemunhas da existência dessa luz e da sua origem divina.

A luz, a luz pura, é o Verbo de Deus que se encarnou em Maria. Bem próxima dessa fonte radiante está a Virgem; ela é o cristal mais puro, o brilhante sem mancha que irradia toda a luminosidade recebida, sem jamais obscurecer o seu clarão. Ao lado de Maria, bem perto dela, pois é seu consorte, está José. Ele se beneficia de maneira única e jamais igualada, da presença de Cristo, vida e luz escondida no seio de sua esposa.

No curso ordinário das coisas, uma criança nunca pode escolher seus pais. Pois ela é o fruto do seu amor recíproco. Ela não pode existir antes deles, nem escolher o tempo e o lugar de seu nascimento. Aqui não acontece o mesmo, porque quem vai nascer criancinha em Belém é o Filho de Deus. É ele que a todos conduz com força e sabedoria; ele é providência e amor infinitos. Ele age livremente e quer que suas criaturas ajam com toda liberdade e espontaneidade. Foi ele quem escolheu os que ele queria que estivessem perto do seu berço.

Se em todas as obras de Deus podemos reconhecer seu poder, sua sabedoria, sua bondade e sua prudência, descobrimos tudo isso especialmente na sua obra prima que é a encarnação. Ele não confiou seu Filho a uma mulher qualquer; Ele não deixou seu Filho e a mãe de seu Filho nas mãos de um homem qualquer. Ele preparou José e Maria para a missão que deveriam desempenhar. Ao mesmo tempo que reconhecemos essa preparação divina, precisamos afirmar uma total liberdade em Maria e José. Eles estiveram plenamente livres na escolha que fizeram um do outro; seu amor foi todo espontâneo, mas Deus serviu-se do amor deles para dar seu Filho ao mundo.

3- UMA   QUESTÃO   DE   CONFIANÇA

Ao lermos o Evangelho, e especialmente os relatos da infância de Cristo, somos levados a fazer uma escolha. Esta escolha, não diz respeito tanto ao valor do relato, quanto à pessoa mesma da qual ele está falando. Afinal, o Evangelho é a mensagem de Deus que nos fala de seu Filho e por meio de seu Filho, ou não passa da floreada estória de um grande profeta? No primeiro caso, devemos aceitar o seu conteúdo integral e fazer um levantamento de suas riquezas. Precisamos levar a sério os evangelistas e as pessoas de que falam, principalmente Maria e José que se encontram no ponto de partida de todos os acontecimentos.

A questão é importante. E precisamos tratá-la com espírito livre e de coração aberto. Negar todo valor objetivo aos primeiros capítulos de São Mateus e São Lucas, significa arrasar pela base todo o cristianismo. Isso resolveria numerosos problemas, deixando-os de lado. Mas, seria leal? Suprimir o mistério da encarnação significa, definitivamente,  recusar a ressurreição de Cristo e a redenção do mundo.

Todos os Evangelhos, todos os Padres da Igreja, afirmam a concepção milagrosa do Filho de Deus em Maria por uma ação especial do Espírito Santo. As testemunhas que nos podiam dizer alguma coisa desse grande acontecimento são Maria e José. Somente eles puderam afirmar que o menino por eles educado em seu lar não era fruto de sua união, e que ele existia antes deles. Seu testemunho foi direta ou indiretamente recolhido por São Mateus e por São Lucas.

Se alguém recusar o testemunho deles, terá o direito de recusar também o testemunho dos apóstolos sobre a ressurreição de Cristo. Se a concepção de Jesus não foi por obra do Espírito Santo, então ele não ressuscitou dos mortos e não é o Filho de Deus.

De maneira discreta, mas sem vacilar nem por um momento, o Evangelho nos afirma que o Cristo não é apenas homem, embora se assemelhe aos outros em tudo. Sua vinda ao mundo ultrapassa as leis da natureza, mas sem contrariá-las. São João, desde o prólogo nos diz: “Antes de todas as coisas o Verbo já existia, e o Verbo estava junto de Deus, e o Verbo era Deus…Tudo foi feito por meio dele, e sem ele nada foi feito de tudo o que existe. Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens” (Jo 1,1). O menino que os pastores encontraram no presépio, e que os magos cobriram de presentes, é luz e vida.

Em seguida, João fala do nascimento que não depende nem da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus (1,13). Essa é uma alusão à concepção milagrosa de Jesus e ao nascimento espiritual dos cristãos. Ele não poderia ter conhecido essa concepção milagrosa, a não ser pelas confidências da Virgem Maria. No final de seu Evangelho, ele diz que escreveu “para que vocês acreditem que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e crendo nele tenham a vida em seu nome” (20,31). Na sua primeira epístola, ele insiste ainda uma vez sobre a sua qualidade de testemunha verdadeira: “Aquilo que nós vimos e ouvimos, nós lhes anunciamos, para que vocês estejam em comunhão conosco” (1Jo 1,3).

Maria, que sozinha foi testemunha e beneficiária da encarnação do Filho de Deus, precisou apresentar provas de sua concepção milagrosa. Apresentou-as a São João, como é evidente, pois sem elas ele não poderia  ter escrito o prólogo de seu Evangelho da forma como escreveu. Ela apresentou-as também a outras pessoas, isso era necessário para o amadurecimento da fé daqueles que acreditaram desde o início. O texto de São Lucas nos dá garantia disso. Desde as primeiras palavras, ele declara que fez uma pesquisa minuciosa junto a testemunhas qualificadas. Ele quis compor um relato ordenado para realçar a solidez dos ensinamentos transmitidos.

Lucas teve contato com muitos apóstolos e discípulos do Senhor, com as santas mulheres e com outras pessoas que tinham parentesco com a Virgem Maria. É provável que ele tenha obtido os relatos da infância diretamente da boca de Maria. Ele pôde encontrar-se com ela em Éfeso, junto com São João. A sobriedade do relato é uma prova de sua origem. Somente a Virgem poderia falar de si mesma com tanta discrição. Ela afirma que, quando veio o anjo para anunciar o grande desígnio de Deus, ela já estava comprometida em casamento com José. Ela responde o SIM depois de ter certeza da intervenção especial do Espírito Santo, então ela vê um certo número de sinais como prova de que Deus mesmo revelou a verdadeira natureza do menino nascido em Belém: Isabel cheia do Espírito Santo, os pastores que viram e compreenderam a mensagem dos anjos, Simeão e Ana que acolhem o Messias no templo de Jerusalém.

É preciso sublinhar a grande delicadeza de Maria: Ela não deixou transparecer nada de seus sentimentos com relação a José, nem dos sentimentos de José com relação a ela. Tratava-se de coisas muito íntimas e inexprimíveis. A mesma discrição nós encontramos nas confidências que nos vêm de José. Ele não disse uma palavra sobre os seus sentimentos profundos para com Jesus e Maria, e não deixou transparecer nada do que Maria e Jesus foram para ele. A única coisa que ele disse, e era seu dever dizê-lo, foi que ele não teve participação alguma na concepção do Filho de Deus. Só ele pôde falar de sua angústia diante da situação embaraçosa que lhe causou a gravidez de sua esposa. Ele apresentou as provas que tinha da intervenção divina, revelando a aparição do anjo e a chegada dos magos. Ademais, para explicar sua longa ausência, ele precisou falar da fuga para o Egito.

As confidências de São José nos são apresentadas por São Mateus. E por sinal são as mais completas. Ele no-las transmite sem comentários. Sua profissão de coletor de impostos em Cafarnaum já lhe tinha dado experiência em pesquisas. A finalidade com que ele escreveu seu Evangelho é demonstrar que o Cristo realiza perfeitamente as promessas feitas a Davi: ele é filho de Davi através de José, ele nasceu em Belém como os profetas haviam predito. Tornado apóstolo, ele viveu na companhia dos assim chamados “irmãos e irmãs” do Senhor, isto é, seus primos ou parentes próximos. Dentre esses, alguns sobrinhos de São José; Cléofas podia muito bem ser irmão de São José. Por outro lado, Nazaré não fica longe de Cafarnaum. Foi muito fácil para Mateus obter informações confidenciais.

Ele julgou necessário apresentar a genealogia davídica de Cristo e afirmar o seu nascimento em Belém para responder às objeções levantadas pelos judeus contra a messianidade de Jesus. João, que foi testemunha ocular, conta que Jesus gritou no templo, num dia de grande festa: “Se alguém tem sede, que venha a mim!” Então os judeus se dividiram a seu respeito. Uns diziam: “Acaso o Cristo vem da Galiléia? Não é da descendência de Davi, de Belém, da cidade de Davi que, segundo a escritura, o Cristo deve vir?” (Jo 7,41).

Quando Nicodemus tenta raciocinar com os anciãos, pedindo-lhes para não condenarem Jesus sem tê-lo ouvido, obtém como resposta: “Será que você também é Galileu? Examine as escrituras e verá que da Galiléia não sai nenhum profeta!” (Jo 7,52). Mesmo Nazaré, não tinha nada que a distinguisse como futura pátria do Messias. Prova disso seja a batuta depreciativa de Natanael, que por sinal era de Caná, bem perto de Nazaré: “Pode vir alguma coisa boa de Nazaré?” (Jo 1,46). Filipe tinha-lhe anunciado alegremente: “Nós encontramos aquele de quem Moisés e os profetas falaram: é Jesus, o filho de José de Nazaré”. Os nomes Galiléia e Nazaré irão impedir numerosos judeus de reconhecer em Jesus o verdadeiro Messias anunciado pela tradição profética.

São Marcos não menciona a entrada em cena de Maria e José no grande mistério da encarnação. Ele começa os seu Evangelho evocando a profecia de Isaías sobre o precursor do Messias: “Eis que eu envio o meu mensageiro à tua frente”, depois acrescenta: “João Batista apareceu no deserto, proclamando um batismo de penitência para a remissão dos pecados. Todos vinha até ele da Judéia e de Jerusalém para fazer-se batizar por ele no rio Jordão” (Mc 1,2-9). Nem a menor palavra para nos explicar quem é João e quem é Jesus. Ele deixa a seus leitores a tarefa de discernir eles mesmos quem é o Cristo a partir daquilo que ele disse e que ele fez.

O autor da epístola aos Hebreus começa por essas palavras: “Por muitas vezes e de muitas formas, Deus falou outrora a nossos Pais pelos profetas; nestes últimos tempos, ele nos falou pelo Filho que ele constituiu herdeiro do universo, e por quem ele criou todas as coisas. Esse Filho, esplendor da sua glória e imagem de sua substância, sustenta o universo pelo poder de sua palavra; depois de realizar a purificação dos pecados, ele foi sentar-se à direita da majestade divina no mais alto dos céus” (Heb 1,1-4). Temos aí o melhor resumo do mistério do Verbo encarnado e de sua Igreja. É dentro dessa perspectiva grandiosa que é preciso situar as pessoas que concorreram mais diretamente à realização desse grande projeto, especialmente José e Maria.

Tudo aquilo que toca o mistério de Cristo tem uma dimensão cósmica, isto é, universal dentro do tempo e do espaço. Deus criou o mundo por seu Filho e para seu Filho. Desde toda a eternidade ele decidira doar seu Filho ao mundo e preparou essa vinda com amor. Ao decidir a encarnação de seu Filho, Deus previu e quis as suas circunstâncias. Ao mesmo tempo que ao Verbo encarnado, ele viu e quis aquela que lhe daria sua carne, a Virgem Maria; ele viu e quis aquele a quem confiaria a mãe e a criança, José, filho de Davi.

Pode-se afirmar que o mistério do Verbo encarnado, mistério desejado e preparado desde toda a eternidade, é antes de mais nada uma questão de confiança. Deus confiou na humanidade ao dar-lhe seu Filho. Ele sabia muito bem o que os homens haveriam de fazer com seu Filho, mas isso não deteve o seu amor. Ele sabia que os mesmos homens que pregariam seu Filho na cruz, seriam resgatados pelo seu precioso sangue; que a morte de Cristo não seria sinal de condenação, mas de redenção; que o amor haveria de triunfar sobre o ódio, que a vida surgiria da morte. Deus sempre confia na humanidade, são os humanos que se recusam a confiar em Deus.

A grande censura que Jesus fez a seus apóstolos, e que dirige a nós também, é a falta de fé. Não se trata da fé crença, mas da fé confiança. Nós não confiamos nele, não o levamos a sério. Por outro lado, o primeiro pecado está na origem da humanidade. Adão e Eva deixaram de ter confiança em Deus. Preferiram crer no diabo a crer em Deus, e quando Deus veio para retomar o diálogo, eles combinaram esconder-se; eles não tinham mais confiança.

Muito diferente foi a atitude de José e Maria. Eles responderam à confiança que o Senhor depositou neles com uma confiança total. Deus, que havia preparado os dois, sabia a quem recorria, e ele estava certo de que poderia contar com eles, mesmo em meio às maiores dificuldades. Confiança incondicional não quer dizer confiança imprudente. Nem Maria, nem José embarcaram nessa às cegas. Eles refletiram para saber no que eles estavam empenhando sua decisão e com quem eles estavam se envolvendo. Maria e José não se submeteram simplesmente à missão que Deus lhes confiava, eles a assumiram com toda a liberdade e com pleno conhecimento de causa.

Ambos confiaram no Senhor mesmo nas circunstâncias mais adversas. É preciso ajuntar que eles confiaram um no outro. Maria teve uma total confiança em José e ele nela. Eles estavam tanto mais de acordo entre eles, quanto mais plenamente em harmonia com o Senhor. 

4- A  MISSÃO   DO   ANJO   GABRIEL

Tudo começa em Jerusalém, no templo, num dia parecido a todos os outros, sem que ninguém perceba. O povo está reunido para a oração; os sacerdotes de serviço entram no santuário para oferecer o incenso. Há um descendente de Abraão irreprovável; ele espera e deseja a vinda do Messias. Ele não tem filhos e já não espera tê-los, pois sua esposa é idosa e estéril. O anjo Gabriel se apresenta, Zacarias fica perturbado, o anjo o tranqüiliza: “Não tenha medo, Zacarias, sua súplica foi ouvida!” (Lc 1,13). A espera do Messias terminou, seu precursor logo vai chegar para preparar-lhe o caminho.

O anjo esclarece que a súplica de Zacarias foi atendida para além de suas expectativas. Ele terá um filho, e esse filho será causa de alegria não somente para sua família, mas para o mundo inteiro. Será ele a preparar o povo para a vinda do Messias; ele será grande, o Espírito Santo repousará sobre ele desde o seu nascimento; ele será um novo Elias. Diante do anúncio de um tal evento, Zacarias custa a crer. Ele nunca teria pensado que poderia ser o pai daquele que os profetas haviam anunciado como o precursor do Messias.

Zacarias não ousa crer, ele quer um sinal. Se ele exige uma prova, é menos para saber de antemão se ele terá de verdade a alegria de ser pai apesar de sua idade, do que para ter a certeza de que esse filho a ele prometido, é a prova da iminente chegada do Messias esperado. Um tal acontecimento vai sacudir o mundo, é fácil iludir-se. O anjo dá as garantias de sua missão: “Eu fui enviado para falar com você e anunciar-lhe esta boa nova”. Depois, dá-lhe o sinal pedido, um sinal desconcertante onde se percebe um fio de humor:  “Você ficará mudo até o dia em que se cumprirão esses acontecimentos” (Lc 1,5-20).

Está claro que é Deus quem toma a iniciativa. É sempre ele que começa; ele toma as dianteiras e prepara discretamente aqueles e aquelas que ele destina a colaborar com o seu grande desígnio. Zacarias e Isabel eram pessoas irreprováveis; eles queriam um filho sem suspeitar que ao desejá-lo, aspiravam à realização das promessas de Deus. O Senhor os preparara para uma missão que eles desconheciam completamente. Foi só progressivamente que eles compreenderam que a intervenção divina sobre eles fazia parte de um plano muito mais abrangente.

Alguns meses depois, o mesmo anjo Gabriel foi enviado por Deus em missão, não mais ao templo de Jerusalém, mas a um vilarejo da Galiléia. O objetivo final de sua missão era o mesmo, a vinda do Messias, mas é tudo diferente. Não se trata mais de um casal de velhos cujos desejos são atendidos e que termina sua existência na paz de um belo anoitecer, mas de um casal jovem cuja vida será sacudida pela mensagem do anjo. Em Jerusalém, Gabriel dirigiu-se ao homem, um venerável sacerdote, em Nazaré ele dirige-se primeiro à mulher, uma jovem moça. Assim,  termina o Antigo Testamento e começa o Novo sem solução de continuidade.

O texto de São Lucas é muito interessante na sua simplicidade: “O anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma aldeia da Galiléia, chamada Nazaré, a uma virgem, noiva de um homem da casa de Davi, chamado José, e o nome da virgem era Maria” (Lc 1,26). Tudo é determinado: o nome do anjo, o Senhor que lhe confia uma mensagem, a cidade para onde vai, a região onde ela se encontra, o nome da virgem, seu estado civil, o nome de seu noivo e a origem de sua família. Se o mais insignificante pardal não cai sem a permissão do Pai celeste (Mt 10,29), como pensar que possa haver palavras não queridas por Deus nessa passagem do Evangelho? Ela é importante pelo que diz respeito à Virgem Maria, e igualmente pelo que concerne a São José.

Essa cena da anunciação, tão delicadamente descrita por São Lucas, suscitou magnificas obras de arte na pintura e na escultura. A imaginação e o talento deram-se livre curso na decoração de interiores, no vestuário drapeado e nas atitudes das pessoas. Todos ao admirar sem reservas as realizações artísticas, podem-se perguntar se a perfeição do cenário não risca de desviar a atenção do acontecimento principal: a encarnação do Verbo. É Deus que tudo conduz.

Primeiramente, trata-se de um anjo, mensageiro de Deus. Somos colocados diante do problema do mundo invisível. Amiúde o Antigo Testamento trata o “anjo do Senhor” como simples personificação, ou atualização de sua presença e de sua ação. Em outras circunstâncias, e tal é o caso aqui, refere-se a um ser distinto de Deus, por ele criado e imbuído de uma missão junto aos homens. Os anjos ocupam um lugar importante na vida de São José e da Virgem Maria. O anjo da anunciação leva um nome, Gabriel, que significa “força de Deus”. É um ser real e não uma simples abstração ou o fruto poético da imaginação.

Deus pode sem dificuldades criar seres capazes de compreender e de amar, sem ligar sua existência a um planeta. Que sabemos nós sobre o além e as grandes realidades do mundo invisível? Os anjos manifestam-se, eles agem como enviados de Deus. Eles são pessoas, quer dizer, têm em si algo de incomunicável, que os torna distintos dos outros. Se Deus serve-se deles, não é por impotência de sua parte, mas por bondade e sabedoria para conosco. Ele é totalmente livre para agir como lhe agrada, e não precisa prestar contas da sua maneira de agir. Portanto, compreende-se facilmente as razões de se escolher um mensageiro para o anúncio do mistério da encarnação.

À primeira vista, parece que Deus deveria tratar a questão da encarnação de seu Filho diretamente com Maria, que havia de ser a primeira beneficiária. Um acontecimento que lhe tocaria tão de perto, não pediria a presença de um intermediário. Mas isso é esquecer a delicadeza com que Deus trata suas criaturas; ele guarda sempre a liberdade delas. Com Deus não se discute, mas alguém poderia discutir com os anjos. Zacarias em Jerusalém e Maria em Nazaré não se privaram desse direito. Zacarias, Maria e José perturbaram-se à chegada do anjo; qual teria sido a emoção deles se Deus se tivesse manifestado pessoalmente?

Uma outra razão para a presença dos anjos no mistério do Verbo encarnado é que esse mistério interessa tanto aos anjos quanto aos homens. Todo o cosmos é relacionado e renovado pela vinda do Filho de Deus em nossa carne. O “Filho do homem” é também o rei dos anjos, o Senhor do universo. Todos os seres capazes de conhecer e amar estão englobados nessa renovação da criação. Pode-se mesmo ajuntar: tudo o que vive e respira, pois tudo está rejuvenescido. Alguns teólogos pensam que o mistério da encarnação do Filho de Deus teria sido a pedra de tropeço que estaria na origem da queda dos anjos maus. Lúcifer ter-se-ia recusado a reconhecer como seu rei um ser nascido de uma simples mulher.

Para essa renovação universal do cosmos, Deus emprega, como para todas as grandes obras, meios que ao ver dos homens parecem completamente inadequados. Ele envia seu mensageiro a uma cidade desconhecida, a uma jovem moça sem passado nem futuro, e que, ainda por cima, não é livre, posto que está prometida em casamento. Ela deu sua lealdade a um homem e não pode dispor de si mesma sem prevaricação. É ela, portanto, que está para tomar uma decisão que compromete não só o seu futuro pessoal, mas ainda o do seu noivo, de sua família, de seu povo, e do mundo inteiro.

Essa virgem, à qual foi enviado por Deus o anjo Gabriel, e o noivo, a quem essa virgem está ligada, foram preparados por Deus para a missão que lhes haveria de ser confiada. Bem antes do nascimento deles, bem antes do nascimento de seus pais, o Senhor já havia disposto cada coisa, para que tudo se cumprisse segundo o seu amor. Isso se chama com uma palavra muito bonita, mas por vezes tão mal compreendida, a predestinação. É a presença no coração mesmo de Deus de uma criatura que ele destina a realizar seus desígnios de amor para o mundo. Os termos que o Evangelho usa para designar aquela a quem Deus envia seu anjo é revelador: uma virgem comprometida com um homem. Isso quer dizer que Maria e José são inseparáveis no pensamento e no coração de Deus.

Os Padres da Igreja e os teólogos debruçaram-se longamente sobre a questão das graças que Deus concedeu a Maria para prepará-la ao cumprimento de sua missão. A conclusão é que o Senhor deu a Maria todas as graças e todos os dons que seriam necessários para receber dignamente em seu seio o Filho de Deus. Da mesma maneira, tudo aquilo que decorre logicamente de sua maternidade divina vem de direito. O Senhor formou o seu corpo, o seu espírito e o seu coração de forma que ela se tornasse uma habitação adequada para o seu Filho.

Uma palavra resume essa predestinação de Maria: ela é a Imaculada! Tal título diz muito pouco, pois não visa senão o negativo, a ausência de manchas, uma vez que a beleza de Maria vem de uma plenitude. Portanto, esse título, Imaculada, se refletirmos bem, é extremamente rico de significado. Muita gente, ao pensar na Imaculada Conceição, detém-se na idéia de pecado. Então retiram da Virgem Maria tudo aquilo que poderia ser pecado ou fonte de pecado, com o risco de mutilar a obra-prima de Deus, retirando dela sua riqueza de sentimentos.

Imaculada Conceição quer dizer que a Virgem Maria veio ao mundo como todas as crianças. Ela foi concebida por seus pais da maneira humana, o que a torna plenamente da nossa raça. Ela é verdadeira filha de Eva, com todas as qualidades e limitações que esse termo supõe, mas ela é imaculada. Isso significa que desde o primeiro instante de sua existência ela recebeu de Deus toda a luz de que uma criatura é capaz. Nela não existe sombra, nenhum canto escuro, ela é toda luz. O pecado é uma sombra, uma opacidade, uma ausência de brilho, um obstáculo que impede a uma criatura de refletir plenamente a luz que ela recebe dos céus.

Uma imagem bem prosaica pode ajudar-nos a compreender como a Virgem imaculada permanece plenamente humana. Uma gota de orvalho que cintila em cima de uma folha de grama tem a mesma natureza da água do pântano vizinho onde pululam sapos. Isso suposto que a manhã esteja clara e o sol alto. Maria é essa pérola de orvalho que já brilha com a luz da Páscoa. Não é a luz da água que nós vemos, mas sim a do sol. Não é a beleza de Maria que nos encanta, é o esplendor do Cristo ressuscitado. Podemos servirmo-nos também de outra comparação: o carvão e o diamante. Ambos têm a mesma natureza, a mesma composição química, já que os dois são carbono. A diferença está em que o diamante é carbono totalmente puro. A água do nosso batismo nos transforma em pérolas de orvalho, e a luz da Páscoa torna diamantes a hulha humana.

São Bernardo diz que o Filho de Deus, já que podia, não se contentou de escolher uma mãe, mas a formou segundo seus próprios gostos. E acrescenta: “Ele que vinha purificar toda mácula, qui-la virgem a fim de nascer imaculado dessa imaculada.; ele a quis humilde a fim de nascer doce e humilde de coração” (Mis 2,1). É preciso pensar o mesmo a respeito de José. José foi criado e formado segundo o desejo de Jesus e Maria. Ele devia ser capaz de amar Jesus e Maria cordialmente e ser amado por eles sem restrição. Deus velou, portanto, com um desvelo ciumento, sobre a formação do corpo, do coração, do espírito e da alma de José para que respondesse perfeitamente às expectativas de Maria e de Jesus.

 5- JOSÉ   E   MARIA

 Á primeira vista, o texto da anunciação tal como o traz São Lucas, deixa São José na sombra. Portanto, ele não representa nada ali. Uma leitura mais atenta, permite descobrir muitas coisas. O texto diz: “O anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma aldeia da Galiléia, chamada Nazaré, até uma virgem noiva de um homem da casa de Davi, chamado José, e a virgem se chamava Maria” (Lc 1,26). Essa expressão noiva de um homem intrigou certos Padres da Igreja que se recusaram a ver nela uma mera tautologia. Uma jovem moça não pode ser noiva senão de um homem, é evidente, não precisa dizê-lo. O nome de homem dado aqui a José, indicaria que ele foi um homem com toda a força do termo, isto é, um homem de coração.

Escreve São Bernardo: “Alguém pode se perguntar se esse José a quem a mãe do Salvador foi prometida em casamento era um homem de bem e fiel. Sim, aquele que o Senhor constituiu sustentáculo de sua mãe e seu pai nutrício, é um servidor leal e prudente, e para dizer tudo, na terra o único colaborador perfeitamente indubitável de seu grande desígnio”. As palavras “da casa de Davi” são assim desenvolvidas: “Sim, José é verdadeiramente da casa de Davi, ele descende realmente de linhagem real, esse homem nobre pela estirpe e mais nobre ainda pelo coração! Ele é totalmente filho de Davi e não degenerou em nada de seu pai Davi. Sim, ele descende de Davi em linha direta, menos pela carne do que pela fé, pela santidade, pelo devotamento. O Senhor o encontrou segundo o seu coração, como um segundo Davi, e entregou-lhe, com toda confiança, o mais íntimo e o mais sagrado dos segredos de seu coração” (Mis 2,16).

Maria, que recebe a visita do anjo, já está comprometida em casamento. Juridicamente, ela já entrou para a casa de Davi. A mensagem que ela recebe diz respeito tanto a José quanto a ela. O termo noiva empregado pelo Evangelho não tem o sentido atual de simples prometida, mas de comprometida em casamento. Os noivados eram considerados então um compromisso definitivo, ao  menos para as moças. Se elas abandonassem seus noivos elas eram consideradas adúlteras e punidas como tais. O noivo podia recuperar sua liberdade por um ato de repúdio que equivalia a um divórcio.

Naquela época, o nome José era comum a um grande número de pessoas. A origem desse nome e seu significado são bem claros. O primeiro a chamar-se assim foi José, um dos doze filhos de Jacó. Sua mãe, a bela Raquel, o desejara ardentemente e avidamente o ganhara. Jacó havia trabalhado quatorze anos para seu tio Labão, antes de poder tê-la. Raquel foi estéril por muito tempo, mas o Senhor afinal escutara a sua prece. E ela chamou seu primeiro filho de José! Quer dizer: “Que o Senhor me dê ainda outro filho” (Gn 30,24). José, o preferido de Jacó, tornou-se objeto da ira de seus irmãos que terminam por vendê-lo a uns Ismaelitas, seus primos a caminho do Egito. O Senhor inverte a situação fazendo de José o salvador do Egito e de seus irmãos.

José é um nome de reconhecimento e de desejo. Imaginamos a ressonância que devia ter esse nome nos lábios e no coração de Maria quando ela chamava o seu noivo. Ambos desejavam a vinda de um outro, o “desejado das nações”. Ao pronunciar o nome de José, Maria entrevia toda uma página comovente de seu povo, e ao mesmo tempo um anúncio de misterioso porvir. Sobre os encontros entre Maria e José no tempo de noivado nada sabemos, pois o Evangelho nada diz. O Senhor os havia preparado para sua missão, deixando-os todavia em plena liberdade de ação. Não é senão pouco a pouco que ele manifesta seus desígnios sobre cada um deles.

Se é relativamente fácil adivinhar os sentimentos de Maria ao pronunciar o nome de José, é muito mais penoso imaginar o que pensava José do nome de Maria. Isso importa pouco, aliás, pois bem sabemos que ao noivo interessa a pessoa da noiva muito mais do que o sentido do seu nome. O sentido do nome de José é fácil de delimitar, o do nome de Maria muito menos. Esse nome, riquíssimo para nós de ressonâncias celestes, é de interpretação a mais difícil. Os sábios modernos dão bem uns cinqüenta significados diversos, todos tão plausíveis uns quanto os outros.

O nome de Maria recorda imediatamente o de Míriam, a irmã de Moisés. Contudo, não parece que no tempo de Cristo os pais teriam dado a suas filhas o nome de Maria em lembrança da irmã de Moisés. Esta não havia deixado uma boa fama por causa de suas murmurações contra seu irmão. Aliás, São Lucas não escreve Míriam, masMariam. São Mateus e São Marcos escrevem Maria e declinam esse nome como todos os outros. Devemos observar que na época de Cristo a língua aramaica tinha em parte suplantado o hebraico. É provável que dava-se ao nome de Maria o sentido que tinha em aramaico: princesa.

Entre as interpretações do nome de Maria, há uma que São Bernardo tornou célebre. São Jerônimo, ao explicar o nome de Míriam, irmã de Moisés, atribuiu-lhe o sentido de stilla maris, gota de água do mar, ou gota de amargura. Alguns manuscritos trazem stella maris, estrela do mar, o que muda completamente o sentido. São Bernardo utilizou esse segundo sentido:

“O nome de estrela do mar convém admiravelmente à mãe que permaneceu virgem… Assim como o astro emite sua luz sem alterar-se, assim a Virgem põe seu Filho no mundo sem ofender sua intimidade. O raio de luz não diminui a luminosidade do astro, também o nascimento do Filho não altera em nada a integridade da Virgem. Sim, Maria é essa estrela nobre, surgida de Jacó, cujo brilho ilumina inteiro o universo, e cujo esplendor faísca sobre as alturas, ao mesmo tempo que penetra até às profundezas” (Mis. 2,27).

Nossa existência aqui em baixo é a travessia de um mar encapelado, em meio a recifes e tempestades. Felizmente, uma estrela brilha no céu, Maria! Donde a consigna: “Respice stellam, voca Mariam! Olha a estrela, chama Maria! Que seu nome não abandone teus lábios, que ele não abandone teu coração!” (id.). Quem melhor que José pôs em prática essa consigna do abade de Claraval? O nome de Maria poderia abandonar os lábios e o coração de José? O nome Maria foi o único que José usou para sua noiva? É ele o nome principal da mãe de Deus?

Há um outro nome da Virgem, que José deve ter pronunciado com emoção, aquele que o anjo Gabriel deu-lhe em nome do Senhor quando lhe disse: “Ave, cheia de graça!” Maria não pode ter escondido de José esse título dado pelo Senhor, já que o revelou a São Lucas ou às pessoas que informaram o evangelista. Tal nome, único em toda a Bíblia, é talvez uma das causas da angústia de José quando ele precisou tomar uma decisão a respeito de sua esposa quando ela engravidou.

Tendo entrado, o anjo Gabriel diz à Virgem: “Ave, cheia de graça! (Lc 1,28), em grego Kairé kékaritoménie! palavras praticamente intraduzíveis em português. O sentido é rico demais para ser encerrado em algumas palavras. Quer se traduza Kairé por: Ave! A paz esteja contigo! ou Alegra-te! o importante é lembrar-se que é Deus mesmo que saúda sua criatura. Ademais, o anjo não chama Maria pelo seu nome, ele o substitui por um qualificativo que exprime aquilo que a Virgem é aos olhos de Deus, e o que ela será para nós: Kékaritoménie! transbordante de graça, favorecida por Deus, cheia de bênçãos. Há um nome pessoal que Deus dá àquela que escolheu. O Senhor substitui o nome dado pelos homens com um outro que completa o primeiro.

O nome kékaritoménie é um nome de plenitude. Deus cumulou Maria de suas graças e de seus favores, a fim de torná-la toda agradável a seus olhos e totalmente apta a cumprir a missão que lhe seria confiada. É fácil compreender que ao ouvir a voz que a chamava por um tal nome, Maria tenha-se perturbado, e que ela tenha-se perguntado a que poderia corresponder aquele título. Não é a presença do anjo Gabriel a causa da sua perturbação, e sim o nome com que ele a chamou. Há motivos para emudecer quando alguém se ouve chamar de “cheia de graça”.

O anjo logo a tranqüiliza, chamando-a pelo seu nome de todos os dias: “Não tenha medo, Maria!” E em seguida, explica ser ela mesma aquela que “encontrou graça junto de Deus”, ou melhor, aquela que encontrou a graça junto de Deus e que vai receber em seu seio essa graça vivente a fim de doá-la ao mundo. O anjo precisa que a criança anunciada levará o nome de “Filho do Altíssimo” e que Deus lhe dará o trono de “Davi, seu pai”. É indicada uma dupla filiação: uma divina, diretamente de Deus; outra humana, pela descendência de Davi. Não é a uma filha de Israel totalmente livre que se dirige o anjo, mas à Virgem Maria já comprometida em casamento com José. Todos os dois estão ligados pela decisão que Maria vai tomar.

As palavras do anjo mostram claramente que a questão não é uma restauração da realeza em Israel, nem de uma dinastia davídica. Trata-se de um reino eterno e sem limites. É o mundo todo que está envolvido no acontecimento que o anjo propõe à aceitação de Maria. É digno de nota que ele não faz qualquer alusão a um Messias sofredor. O anjo parece respeitar a sensibilidade feminina para não perturbar ainda mais Maria, e deixá-la livre para a escolha que ela deverá fazer. Para José, o anjo precisa que o Messias “salvará o mundo de seus pecados”.

O que preocupa Maria não é a questão do trono de Davi, mas sim a de sua virgindade. Pergunta-se ela o que deverá fazer para que se cumpra a promessa de Deus, posto que ela não faz uso do matrimônio. O anjo lhe assegura logo a respeito de sua virgindade: “O Espírito Santo virá em profusão sobre você e a potência do Altíssimo a cobrirá com sua sombra” (Lc 1,35). Um pouco antes ele havia dito: “O Senhor está com você”, isto é, o Pai, Filho e Espírito Santo. Agora, ele fala de uma vinda inesperada do Espírito. Ela já está repleta de Deus, ela tornada transbordante para o mundo por causa de sua maternidade divina. O beneficiário mais próximo dessa plenitude do Espírito Santo foi, sem dúvidas, São José.

Imagine-se a gravidade e a complexidade do problema que a Virgem Maria precisou resolver sozinha, naquele momento, diante do anjo. Ela não podia pedir conselho a ninguém. O Deus que apareceu a Moisés no Horeb, o Eterno, o Transcendente, o Imutável, o Único, podia ter um Filho? E se Deus tinha um Filho, podia fazê-lo nascer como uma criança normal? Se se tratava do tão esperado Messias, como podia ele escolher Nazaré, que nenhum profeta jamais mencionara? A solução das dificuldades encontra-se na afirmação do anjo: “Para Deus nada é impossível”.

Maria precisou refletir profundamente antes de responder, pois de sua aceitação ou de sua recusa dependia o curso da história do mundo. Não se tratava simplesmente de consentir em uma maternidade vinda do alto, mas em assumir todas as conseqüências. Quando se trata só de si mesmo, é relativamente fácil assumir responsabilidades, é mais delicado hipotecar o futuro dos outros por uma decisão pessoal.  Maria devia ter uma confiança incomum em José para entrar com ele numa aventura que iria transtornar toda sua existência.

O céu e a terra estão à espera da resposta de Maria. São Bernardo escreve: “Ó Virgem, apressai-vos em responder! ó soberana, dizei a palavra que os céus e a terra esperam! O próprio Senhor está em suspense” (Mis 4,8). Maria respondeu: “Eis aqui a serva do Senhor!” Ela se pôs totalmente e para sempre a serviço do Senhor; ao mesmo tempo que levou também José para essa sublime aventura.

6- NÃO TENHA MEDO!…  ACEITE!

Em vez de procurar descobrir a ordem cronológica dos eventos relatados por São Lucas e São Mateus, é mais instrutivo tentar compreender o que nos dizem os evangelistas sobre a vinda de Cristo e as reações que ela suscitou. O ponto de vista é diferente, as fontes de informação não são as mesmas e as expressões empregadas não concordam com nossas categorias atuais. Teólogos e exegetas podem dar livre curso a suas investigações, artistas e poetas podem soltar as rédeas da imaginação, e até a simples meditação encontra aí um abundante alimento.

Só a Virgem pode ter falado da visita do anjo Gabriel e das palavras que ele disse. São Lucas obteve esses detalhes da própria Maria ou das pessoas que lhe eram íntimas. O mesmo se diga da visitação, do nascimento de João Batista, do Magnificat e do Benedictus. Ora, na narração da anunciação José é apenas nomeado, e na da visitação passa completamente em silêncio. Todavia, esses dois eventos lhe dizem respeito antes que a qualquer outra pessoa. Uma leitura por demais apressada de São Lucas e de São Mateus arrisca a fazer-nos crer que José desconhecia os dois eventos da anunciação e da visitação.

É necessário, primeiro, observar atentamente que os fatos relatados por São Lucas nos dois primeiros capítulos de seu Evangelho são, de maneira muito precisa, marcados por uma luz vinda dos céus. O Santo Espírito está trabalhando, ele age e ilumina mesmo se ele não é nomeado. Sem essa iluminação não se compreende nada dos eventos. José desfrutou dessa presença luminosa do Espírito Santo. São Lucas não a menciona mas a supõe e pensa que seus leitores entenderão que não era preciso dizer.

A única frase que deixa entrever essa iluminação é a pergunta de Maria ao anjo Gabriel. O anjo lhe anuncia que ela conceberá e dará à luz um filho que levará o nome de Filho do Altíssimo e a quem Deus dará o trono de Davi, seu pai. Maria objeta: “Como se fará isso, se eu não tenho relações conjugais?” (Lc 1,34). Mesmo como simples noiva, ou melhor, comprometida em casamento, a Virgem Maria pertencia inteiramente a José. Seu propósito de virgindade, tão nitidamente expresso na pergunta feita ao anjo, supõe a perfeita aceitação de José. Se assim não fosse, esse voto teria sido injusto e nulo, pois estaria lesando os direitos de um terceiro. 

Para confirmar sua missão, o anjo havia dado um sinal. Ele havia revelado a Maria que sua prima Isabel, já anciã, que era chamada “a estéril”, estava esperando um filho. E para impor confiança, ele ajuntara: “Para Deus nada é impossível!” Depois do Fiatde Maria, o anjo a deixou. Nada se disse sobre os sentimentos íntimos da Virgem, nem sobre as reações de São José quando ele inteirou-se desse grande acontecimento. A hora era verdadeiramente solene, uma vez que a espera do Messias chegava ao fim e seu precursor já estava a caminho.

São Lucas nos diz que  Maria preparou-se e partiu rapidamente para uma aldeia nas montanhas de Judá. Essa aldeia, não identificada, é sem dúvidas Ain-Karim, a seis quilômetros de Jerusalém. A mais antiga tradição situa a visitação naquele lugar. À voz de Maria, o bebê de Isabel estremecera, e sua mãe, repleta do Espírito Santo gritara: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre!” Maria respondera com um cântico de ação de graças: Magnificat! “Minha alma glorifica o Senhor!”

Sem mais, o evangelista nos diz que Maria ficou cerca de três meses com Isabel e depois voltou para sua casa. Em seguida, fala do nascimento de João Batista, da alegria dos vizinhos e amigos, das discussões em torno do nome a ser dado à criança, da intervenção do pai que recupera a fala ao escrever: “João é o seu nome”, e depois, doBenedictus cantado por Zacarias sob a inspiração do Espírito Santo. Segue-se um versículo sobre o menino que crescia e morava no deserto até a sua manifestação.

Depois de apresentar-nos João Batista vivendo no deserto, São Lucas nos diz que José tomou Maria consigo e dirigiu-se a Belém para o recenseamento. Pelo que concerne os nove meses que se passaram entre o anúncio feito a Maria pelo anjo Gabriel em Nazaré e o nascimento de Jesus em Belém, não há uma só palavra sobre os sentimentos íntimos de Maria e de José em presença do mistério que tinha-se realizado em seu lar. Isso está a indicar que a Virgem, nada falou dos colóquios íntimos que ela teve com José a esse respeito, porque eram inexprimíveis e não convinha revelá-los.

Desse silêncio, decorre logicamente a convicção de que tudo se passa lealmente e em plena luz, entre Maria e José, a respeito da concepção miraculosa. Não significa que não houve sofrimento para os dois. É preciso admitir para Maria e para José uma verdadeira crise espiritual. O Senhor, sem avisar, vem morar na casa deles e inverte todos os planos que eles tinham alegremente arquitetado juntos. Deus é sempre desorientador nas suas intervenções. Ele havia dado a José a mais ideal dentre as esposas, deixou-o entrever uma felicidade humana de excepcional qualidade, e depois, sem nada dizer, reservou só para si essa esposa incomparável.

Alguns pretendem que Maria tenha guardado um silêncio absoluto sobre a visita do anjo e partido para a Judéia sem dizer nada a José. Não se pode tirar semelhante conclusão do texto de São Lucas. Ademais, uma tal hipótese carece de psicologia. É impensável que Maria nada tenha dito a José da visita do anjo cujas conseqüências teriam sacudido sua existência. Maria com certeza foi perfeita em tudo, logo, ela foi perfeitamente mulher, com todos os dons e as qualidade que essa palavra supõe. Ela foi noiva perfeita e esposa perfeita. Ora, uma jovem mãe, desde que percebe os sinais de sua primeira maternidade, fica muito feliz de contar isso aos seus íntimos. Poder-se-ia crer que Maria tenha recusado essa alegria a si mesma e a tenha recusado a José?

Se Deus lhe tivesse imposto esse silêncio ela teria aceitado, mas o Evangelho não diz isso. E além disso, uma tal renúncia não teria servido para nada. É lógico pensar que Maria pôs José a par do que se tinha passado. Sem isso, como a Virgem teria podido justificar sua ida a Judéia e sua longa ausência? Acreditar que ela tenha partido sem dizer nada, é atribuir a Maria uma maneira de agir por demais autônoma diante de seu noivo. Crer que José não se tenha minimamente preocupado com ela durante três meses, é simplesmente absurdo. É ignorar o que seja o amor no coração de um rapaz e de uma moça.

Logo, é preciso supor que Maria falou a José da visita do anjo e do Fiat! que ela havia respondido. Mas, que palavra podia exprimir o inexprimível? Tudo era misterioso para ela e para José. Nada podia indicar em seu seio uma concepção miraculosa. De sua parte, José não tinha nenhum outro sinal dos acontecimentos, além do testemunho de Maria. Ele ignorava o papel que devia desempenhar pessoalmente. Nada nas palavras do anjo, nada nos textos proféticos do Antigo Testamento estabelecia para ele uma linha de conduta.

É fortemente provável que a Virgem Maria não tenha partido sozinha na viagem à Judéia, que levava três ou quatro dias. Nada proíbe acreditar que José a tenha acompanhado durante o trajeto e que ele tenha ouvido as palavras de Isabel: “Donde me vem esta felicidade, que a mãe do meu Senhor venha a mim?” (Lc 1,43). Ele compreende que o sinal dado pelo anjo estava realizado e que se tratava mesmo da vinda do Messias prometido por tantos profetas. Ao mesmo tempo que uma alegria inexprimível, havia no coração de José um secreto pavor diante da chegada de Deus, que tomava um lugar sempre maior dentro da sua vida.

Nas semanas que se seguiram, ele retomou o trabalho habitual, mas o pensamento da presença divina não o abandonou mais. Quando Maria retornou a Nazaré e sobretudo quando apareceram exteriormente os sinais de sua futura maternidade, a perturbação de José cresceu. Qual era o seu dever? Ele era digno de impor sua presença à mãe de Deus? O Senhor veio tomar posse desse seu domínio, que atitude devia ele tomar diante dessa invasão divina? Nem a Lei, nem os profetas podiam traçar para ele uma linha de conduta. Nenhum escriba, nenhum doutor lhe podiam dar um conselho. Ele devia, sozinho, tomar uma decisão diante do futuro que lhe parecia sem saída. Compreende-se facilmente que ele hesitasse em seguir adiante sem um sinal dos céus.

Pela encarnação, Deus veio tomar posse daquilo que José tinha de mais querido: sua esposa. E sem o avisar. Deus é livre para interferir quando e como quiser. Por outro lado, ele criou o homem livre e quer que cada um assuma a total responsabilidade por suas decisões. Ele tomou a iniciativa e convidou-se para ir à casa de São José, como se convidará, mais tarde, para ir à casa de Zaqueu, de Mateus, e de Maria. Ele sabe que não será rejeitado por ninguém! Ao convidar-se ele responde a uma espera e deixa ali mais do que recebeu.

São Mateus não fala da anunciação. Ele diz simplesmente que “a mãe de Jesus, Maria, comprometida em casamento com José, tornou-se grávida pela ação do Espírito Santo”. Em seguida, ele mostra José hesitante quanto à conduta que devia assumir. Ele não quer trair Maria e pensa em separar-se discretamente. O anjo, então, apresenta-se a ele durante o sono e lhe diz: “José, filho de Davi, não temas aceitar Maria, tua esposa, pois o que se engendrou nela, vem do Espírito Santo. Ela porá no mundo um filho, e tu lhe darás o nome de Jesus, pois é ele que salvará seu povo de seus pecados” (Mt 1,20).

Como havia feito para Zacarias, e em seguida para Maria, o anjo começa por tranqüilizar São José: “Não tenhas medo!” Ele não reprova sua hesitação, ele o encoraja à confiança em Deus e a tomar resolutamente suas responsabilidades diante da mãe e da criança. Não tenhas medo! Toma tua esposa Maria, aceita que ela dê ao mundo o Messias; toma conta desse menino e impõe-lhe o nome de Jesus; aceita ser para ele a sombra de seu Pai celeste, pois será ele que salvará seu povo, não do jugo dos Romanos, mas de seus pecados.

A hesitação de São José não vem de uma desconfiança da fidelidade de Maria, mas do mistério que se apresenta e do qual ele se julga indigno. Trata-se de uma revelação Messiânica progressiva; é uma teofania, uma manifestação de Deus. Toda aproximação de Deus é misteriosa e perturbadora, José está bem ciente disso. Ele não podia ter vivido por meses em intimidade com a Virgem sem estar apaixonado até o mais profundo do coração. Ele a ama como nenhum homem jamais amou uma mulher, e por isso, certamente não é sem escrúpulo que ele considera uma separação.

São Bernardo nos transmite o sentimento dos Padres a esse respeito. Ele explica que o motivo que tinha São José para separar-se de Maria é o mesmo de Pedro ao dizer a Jesus: “Afasta-te de mim!” e do centurião: “Eu não sou digno de que entres em minha casa”. O abade de Claraval acrescenta: “José disse consigo: ela é tão perfeita e tão grande que eu não mereço que ela me conceda por muito mais tempo a felicidade de partilhar sua intimidade. Ele percebeu, com um religioso temor, que Maria apresentava os sinais seguros de uma presença divina” (Mis. 2,14).

José pensava ser seu dever separar-se de Maria, e portanto, não temia resignar-se a pôr em prática aquilo que ele acreditava ser seu dever. Pedro tinha sido sincero quando dissera a Jesus: “Afasta-te de mim” e todavia, qual não teria sido sua pena se Jesus o tivesse levado ao pé da letra. Assim foi com José. Ele julgava indispensável a separação e, de fato, era o que ele mais temia. Teria sido a ruína de todos os seus sonhos de felicidade.

7- DE  NAZARÉ   A   BELÉM

Os textos de São Mateus e de São Lucas referem-se a Maria e a José antes do nascimento de Jesus, e levantam um certo número de pequenos problemas exegéticos que não são fáceis de resolver. Eles são interessantes de se estudar, mas, ao dar-lhes importância demais, esquece-se o evento principal, a vinda de Deus entre nós. Há, por exemplo, a questão do noivado e do casamento, a da idade dos noivos, a do lugar da anunciação, etc. Quando o Evangelho não diz nada, é sábio não querer precisar demais.

Muitos Padres da Igreja pensam que Maria já estava na casa de José, no momento da anunciação. São João Crisóstomo e outros Padres gregos estão convencidos de que o casamento de José e Maria é anterior à visita do anjo. Nesse caso, eles traduziriam a frase de São Mateus: “antes que eles tivessem coabitado” por “antes de qualquer relação conjugal”. O fato importante não é o tempo ou o cumprimento das formalidades jurídicas do matrimônio, mas o matrimônio em si. São Mateus e São Lucas insistem sobre duas grandes realidades: de um lado, um matrimônio real, e de outro, uma concepção virginal.

A palavra grega que o latim traduz por desponsata, e o português por noiva, tem o sentido de casada tanto quanto de noiva. A melhor tradução é “comprometida em casamento”. São Lucas emprega essa palavra para designar Maria no momento da visita do anjo. Ele utiliza a mesma palavra no momento em que José e Maria vão a Belém. Nesse último caso, as palavras “esposa grávida” eqüivalem àquela que traduzimos por “noiva”. Nesse momento, pouco antes do nascimento do Salvador, mui certamente todas as formalidades do casamento estavam cumpridas.

A imprecisão é a mesma no texto de Mateus. Ele escreve: “Maria, a mãe de Jesus, sendo noiva de José… José, seu marido… quis devolvê-la em segredo” (Mt 1,18-19). Se José é esposo, Maria é esposa; se José pensa em devolvê-la, é porque ele a tem em sua casa. Ademais, o anjo diz a José: “Não tenhas medo de receber Maria, tua mulher”. O verbo pode ser traduzido por receber, proteger, admitir, acolher.

No Evangelho, quando a questão é o convite para um casamento, nunca se trata de assistir a um contrato ou a uma cerimônia, mas sim para participar das núpcias, isto é, dos banquetes. Assim em Caná, Jesus foi convidado quando o banquete já durava há muito tempo, já que a provisão de vinho estava esgotada. As parábolas só mencionam preparativos para festins pantagruélicos. Apenas a parábola das dez virgens refere um cortejo.

Mais do que o cenário e as festividades que rodeiam o matrimônio, importa-nos o próprio matrimônio. Deixando de lado todos esses detalhes sobre a data, o lugar e as circunstâncias do casamento de José e de Maria, os evangelistas querem concentrar nossa atenção sobre o fato mesmo do casamento. E ainda esse matrimônio de Maria e de José não é a estréia. Ele é somente uma preparação a um outro matrimônio que dará seu verdadeiro sentido aos matrimônios cristãos.

Esse outro matrimônio, preparado pelo de Maria e de José é único em seu gênero e em seus participantes. É o matrimônio do Filho de Deus com nossa humanidade. União de amor singular e cujas conseqüências duram eternamente. Nesse matrimônio, é Maria, a esposa de José, que dá o seu consentimento em nome de toda a humanidade. José, instruído diretamente pelos céus sobre esse grande evento, tornou-se testemunha e garantia de sua realização. Por causa desse matrimônio do Filho de Deus com a natureza humana, aquele de José e de Maria assume uma dimensão totalmente diferente dos outros matrimônios comuns. A uma maternidade virginal há que corresponder uma paternidade virginal.

O matrimônio é um grande sacramento. Ele é fonte de santificação porque é figura da união de Cristo e de sua Igreja. É uma preparação a uma união de ordem mais elevada, a união com Cristo, único esposo. São Paulo escreveu aos seus convertidos de Corinto: “Experimento por vós um zelo semelhante ao de Deus; desposei-vos a um esposo único; como uma virgem pura eu vos apresentei ao Cristo” (2Cor 11,2). O matrimônio está orientado para o Cristo e para o progresso de seu reinado entre os esposos e seus filhos.

Para Maria e José, o matrimônio foi de uma ordem à parte. Não pode ser copiado; é único em seu gênero. Eles uniram suas vidas diante de Deus para ajudar-se mutuamente, amar-se um ao outro, e serem um para o outro causa de santificação. A esposa, aqui, é de uma qualidade inimitável, ela é imaculada. Ela foi repleta de graças por Deus, mais do que qualquer outra criatura jamais o foi ou será. José tem plena consciência do mérito dessa alma gêmea que lhe foi confiada? Ele pode pressentir o seu valor, sem todavia conseguir avaliar sua importância. O Papa Pio IX, na bula ineffabilis, nos diz que “ninguém, a não ser Deus, pode fazer uma justa idéia da plenitude de santidade que possuiu a Virgem Maria desde o primeiro instante de sua existência”.

Toda aquela bondade, toda aquela luminosidade, Maria a recebeu por antecipação, de seu Filho morto e ressuscitado. De Maria, ela recaia sobre José, o que permitia, entre eles, uma plena comunhão de corações e de espíritos. Todavia, aquela ambiência de luz divina, em que eles se banhavam, não os impedia de sofrer, e de fazer o outro sofrer involuntariamente. Isso se verifica especialmente entre o período que transcorre da visita que o anjo fez à Virgem, àquela que fez a José.

José não pode esconder sua perturbação. Mesmo sem ele dizer nada, Maria não pode deixar de perceber. Dia após dia, José se tornava mais silencioso e mais pensativo. Qualquer coisa que lhe dissesse Maria não lhe podia indicar uma linha de conduta. Deus não lhe havia dito nada sobre o seu papel no grande mistério que começava a realizar-se aos seus olhos, e dentro de sua casa. Ao pensar em separar-se de Maria, o que ele considerava ser o seu dever, tinha o coração esmagado. Ele não podia resignar-se a abandonar aquela que ele amava imensamente, mas a sua dor vinha-lhe particularmente pelo sofrimento que iria causar a Maria. Ele sabia que a separação abriria uma insanável ferida no coração da Virgem. Que faria ela sem ele? E ele, que iria ser de sua existência sem a companheira que era a metade de sua alma?

De sua parte, Maria sofria cruelmente, não tanto pela incerteza de seu porvir, pois ela sabia que estava nas mãos de Deus, mas pelo sofrimento de José. Ambos precisaram suplicar ao Senhor que manifestasse a sua vontade e fizesse cessar essa dolorosa incerteza. Enfim, o Senhor respondeu. Seu anjo explicou tudo a José. Quem dirá a alegria daquela manhã radiosa, quando José, depois da visita do anjo, conta a Maria que eles estariam juntos para sempre!

No seu primeiro panegírico para a festa de São José, Bossuet cita amiúde esta frase: ‘Quando Jesus entra em algum lugar, entra ali com sua cruz; leva consigo todos os seus espinhos, e os reparte com todos aqueles a quem ama”. Ele diz isso a respeito da angústia de São José e em seguida mostra como o Senhor, ao encarnar-se, transtornou a existência de Maria e de José. Isso está certo mas por demais incompleto. Quando Jesus vem, ele não traz somente sua cruz e seus espinhos, ele traz também sua presença e seu amor, com a certeza de que o mundo está salvo.

Mais do que qualquer outra pessoa, Maria e José experimentaram como o Senhor é capaz de preencher os corações para além de tudo o que se possa imaginar. Como todos os apaixonados de todos os tempos, José e Maria sonharam com a felicidade futura no momento de seu noivado. Deus ultrapassou todos os seus desejos. Que teriam eles no seu cesto de núpcias? Não sabemos. Aliás, pouco importa, pois a felicidade não se mede pelo conteúdo do cesto, ela reside na grandeza do coração. Todavia, por causa de sua vocação, José e Maria estiveram muito próximos daquele que é um fogo devorador, eles foram capazes, no mais alto grau, de amar e ser amados.

É agradável imaginar Maria e José, à tarde, na vigília, rezando juntos ou falando daquele que já fazia toda sua felicidade; ou melhor ainda, perscrutando juntos as Escrituras, para aí descobrir aquilo que os profetas haviam anunciado a respeito do menino que eles esperavam. Por certo, houve dias penosos na vida deles, pois o anjo havia dito: “É ele que salvará seu povo de seus pecados”. José e Maria se preparavam para assumir a parte deles nos sofrimentos  que o Messias devia suportar. Mas o sofrimento passa e a alegria perdura.

As perspectivas dolorosas anunciadas pelos profetas em nada diminuíam a felicidade que Maria e José tinham por estar juntos e por ter aquele que iria renovar a face da terra. José dedica-se muito a Maria: seu tempo, seu afeto, seu trabalho e todo seu devotamento. Isso é certo, mas não é menos certo que ele recebeu de Maria mais ainda do que lhe dedicou. Ela deu-lhe o seu coração, todo o seu coração, toda sua solicitude, tudo o que ela tinha. E acima de tudo, deu-lhe o Filho de Deus. Perto de Maria, José burilou o seu coração e o seu espírito; dela ele recebeu uma bondade, uma delicadeza e uma compreensão excepcionais.

Pode-se dizer que o lar de José e Maria foi um perfeito sucesso, não somente no plano sobrenatural, mas ainda do ponto de vista simplesmente humano. Deus cuidou de preparar para seu Filho, que estava para vir ao mundo, um ambiente familiar apto ao desenvolvimento perfeito de sua personalidade humana. Dentro desse lar devia nascer toda a humanidade regenerada. A Escritura nos diz que José era justo, isto é, plenamente apto para a missão que devia cumprir. Era preciso que Deus pudesse confiar totalmente nele. José devia receber em depósito, não já ouro ou jóias, mas o Verbo encarnado e aquela que iria pô-lo no mundo.

O tesouro que José recebeu é um tesouro vivo. Ele não pode ser guardado zelosamente dentro de um belo escrínio, ele deve crescer, desenvolver-se e ter uma vida plenamente humana. José deverá contribuir para o desenvolvimento harmonioso de Maria e de Jesus. José e Maria eram capazes de sentir juntos, de vibrar juntos com a lembrança das grandes promessas feitas por Deus ao povo de Israel e especialmente à casa de Davi. Diz-se dos primeiros cristãos que eles tinham um só coração e uma só alma (At 4, 32). Quão mais verdadeiro não é isso da primeira comunidade perfeita, a de José e Maria! A harmonia era indispensável ao desabrochamento do seu amor mútuo. Jesus teria sido o primeiro a sofrer com um desacordo entre José e Maria.

São Lucas, que dá indicações sobre a idade de Zacarias e Isabel, de Simeão e de Ana, não faz nenhuma alusão à idade de Maria e José. É forçoso concluir que ele não tinha nada a dizer e que tudo tenha se passado segundo os costumes do país. O que se sabe é que as fadigas e as responsabilidades que iriam ser o quinhão de Maria e José exigiam deles uma grande resistência psíquica, uma plena maturidade e uma grande jovialidade de coração.

 8- UMA  GRANDE  ALEGRIA  PARA  TODO  O  POVO

Natal é festa de luz e de alegria. É verdadeiramente, “de alegria para todo o povo” como o anjo anuncia aos pastores de Belém: alegria para o coração, alegria para o espírito, alegria para os olhos, alegria até mesmo  paganizada e deturpada de sua origem, mas alegria que testemunha um ponto de partida único, o nascimento do Salvador. O pobre estábulo de Belém engrandeceu-se a ponto de se tornar uma verdadeira arca de Noé, onde toda a criação encontra o seu lugar. As imagens foram multiplicadas para que pequenos e grandes, jovens e anciãos, ricos e pobres, santos e pecadores, humildes trabalhadores e homens de ciência, encontrem um lugar junto do Menino-Deus.

Malgrado o aspecto folclórico dos presépios, aspecto que arrisca de mascarar a importância do mistério de Belém, uma grande realidade é afirmada: todo mundo encontra o seu lugar ao lado de Maria e José, todos e cada um somos acolhidos por Maria e José. Ao abrir o seu coração para o Salvador, eles o abriram para toda a humanidade. Ao aceitar Maria como esposa, ao aceitá-la como mãe do Messias, mãe daquele que salva o mundo, José aceitou livre e alegremente que todo mundo entrasse dentro de sua casa.

O texto de São Mateus é interessante a esse respeito. No momento em que José pensa em retirar-se de uma aventura que o amedronta, o anjo vem assegurá-lo e indicar-lhe o que Deus quer dele. Ele devia aceitar Maria, sua esposa, e impor o nome de Jesus ao menino. O texto ajunta: “Ao acordar, José fez o que o anjo lhe havia ordenado e recebeu sua esposa” (Mt 1,24). Amiúde se traduz: “Recebe em tua casa tua esposa Maria … Ele recebeu sua esposa em sua casa”.

Os dois sentido: Aceita Maria recebe Maria em tua casa se complementam e são ilustrados pelo que se segue. São Mateus logo nos diz que tendo Jesus nascido em Belém, os magos chegaram do Oriente para o adorar. A casa de José está aberta aos estrangeiros, aos pagãos, a todos os povos. Essa casa não está fixa em nenhum lugar, pois o “Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça” (Mt 8,20). Após a partida dos magos, o anjo apresenta-se novamente a José: “Toma o menino e sua mãe, e parte para o Egito”! José levanta-se, toma o menino e sua mãe, e vai para o Egito. José e Maria têm uma vocação universal; eles receberam Jesus em nome de todos, é preciso que todos o possam conhecer.

Como São Mateus, São Lucas põe em plena luz o papel de São José na ocasião do nascimento do Salvador. José e Maria se calam, eles agem. Não cabe a eles fazer com que o mundo saiba quem é que nasceu em Belém. O menino é assaz poderoso para proclamar ele mesmo sua mensagem. O céu fala por ele, a alegria reina em toda parte. Em todos os acontecimentos que compõem o Natal, o Evangelho não menciona nenhuma palavra de Maria ou de José. No entanto, são eles que tomam todas as iniciativas, uma vez que o menino deixa-se reclinar na manjedoura, apresentar no templo, e levar para o Egito.

São Lucas, que fizera apenas uma breve menção de José na ocasião da visita do anjo a Maria, no-lo apresenta tomando a iniciativa de partir para Belém e agindo como verdadeiro chefe de família. O evangelista menciona o decreto do imperador de Roma para um recenseamento universal, e acrescenta que cada um vá fazer-se recensear na sua aldeia. Em lugar de dizer que José dirigiu-se para Belém, Lucas faz uma apresentação solene para indicar a importância desse lugar. Uma formalidade de recenseamento é um acontecimento de mínima importância. No caso de José, muito pelo contrário, é a constatação oficial de que todas as profecias estão perfeitamente realizadas.

O texto diz: “Também José, subiu da Galiléia, da aldeia de Nazaré, até a Judéia, a aldeia de Davi, chamada Belém, porque ele era da casa e da família de Davi, para fazer-se recensear com Maria, sua noiva-esposa, que estava grávida” (Lc 2,4). Essa longa frase, com tantos incisos e explicações sobre as pessoas, as aldeias e as províncias, contrasta espantosamente com os versículos que se seguem e que relatam fatos maravilhosos com um laconismo desconcertante.

“Enquanto eles estavam lá, aconteceu que se completaram os dias para ela dar à luz. Ela pôs no mundo seu filho primogênito, envolveu-o em faixas, e reclinou-o num presépio porque não havia lugar para eles na hospedaria.” (Lc 2,6). Nada é dito sobre a viagem. Nada sobre os sentimentos de José e de Maria quanto à espera desse nascimento. Quem dirá a admiração silenciosa de Maria diante da luz invisível revestida de sua carne, mas que ela não conhece ainda? Quem dirá o silêncio afetuoso de José por aquela que Deus escolheu e lhe confiou? Para os dois é uma vida de pura fé, pois humanamente, nada lhes prova que é um filho aquele que vai nascer.

O ponto importante que São Lucas sublinha é a fé de José. Ele está plenamente consciente do gesto que cumpre e das conseqüências que sobrevirão, ao partir e fazer-se inscrever com Maria e o menino. Nem por um momento ele duvida que o menino seja mesmo o Messias prometido, e ele quer fazer a autoridade ocupante, que se pretende dona do mundo, constatar a sua existência. Diríamos, em termos modernos, que José quer dar um estado civil ao menino. O recenseamento não exigia a presença de Maria. Nem todos os judeus foram ao lugar de seus ancestrais para o censo. Nem todo mundo tinha interesse em fazer-se recensear, nem havia inconveniente em subtrair-se.

Para José, o recenseamento não foi um ato de sujeição à autoridade estrangeira, mas um meio de fazer conhecer seus direitos e seus títulos de filho de Davi. É precisamente nos tempos de tribulação que os documentos oficiais têm um grande valor de testemunho. De fato, nunca ninguém contestou a Jesus o direito de chamar-se filho de Davi. Não sabemos se a inscrição foi feita antes ou depois do nascimento do menino. A tradição não é unânime.

Nada se diz sobre a viagem de Nazaré a Belém. Devem tê-la feito em pequenas etapas para não fatigar Maria. Se dependesse dela, a fadiga importaria pouco, pois ela carregava aquele que sustenta o mundo. O pensamento de que seu filho iria nascer em Belém devia enchê-la de alegria e fazê-la esquecer todas as fadigas da viagem. Não está dito e nada o faz supor, mas parece que José não poderia ter deixado de arrumar uma montaria para aquela que ele amava. Pode-se objetar que no Oriente são os homens que montam os asnos, enquanto as mulheres correm atrás levando os pacotes. É verdade, mas isso não é absoluto. José tinha um ilustre predecessor, Moisés, de quem está escrito: “Ele tomou sua mulher e seus filhos e os fez montar no asno” (Ex 4,20).

É preciso não exagerar a inospitalidade do povo de Belém. Havia uma multidão no caravançará por causa do recenseamento e as pessoas não sabiam quem era essa criança a ponto de nascer. Foi ignorância, mais que rejeição. É certo que José fez todo o possível para encontrar o lugar que ele julgava o melhor para a mãe e o menino, porém, devemos lembrar que, definitivamente, foi o próprio menino a escolher o lugar e a hora do seu nascimento. Em lugar de traduzir: “Não havia lugar para eles”, seria melhor dizer: “Não era o lugar deles”. Os gostos de Deus não são os nossos.

O texto tão curto de São Lucas sobre o nascimento de Jesus é de uma grande riqueza teológica. Diz assim: “Maria pôs no mundo seu filho primogênito”. É um parto no pleno sentido do termo. Ele é seu, mais do que qualquer filho é de sua mãe. Literalmente, “ela pariu o filho de si, o primogênito”. O primogênito não é o mais velho em relação aos que vêm depois, mas “aquele antes do qual não existe ninguém”. Ele é o herdeiro do pai e também aquele que por direito pertence ao Senhor. Um filho único é sempre um primogênito.

Maria envolveu ela mesma a criança em faixas, e reclinou-a em uma manjedoura. A gente fica estupefato com a discrição de São Lucas. A palavra manjedoura é a única que nos permite adivinhar em que leito nasceu Jesus. Um presépio, ou manjedoura, supõe um estábulo. Nós preferiríamos que o “rei da glória” fosse recebido em um palácio digno dele. Mas os gostos não são os nossos. Ele preferiu faixas e uma manjedoura a todos os adornos que nós lhe poderíamos oferecer. Maria, mais resignada que nós aos desejos de seu filho, deu-lhe o que ele desejava.

São Bernardo explica: “As riquezas e a glória encontravam-se nos céus, ao seu alcance, com uma abundância inexaurível, mas ao contrário, faltava a pobreza. Agora, na terra, essa mercadoria abunda e superabunda, mas os homens ignoram o seu preço. Assim, o Filho de Deus, apaixonado por essa pobreza, desceu dos céus para apropriar-se dela, querendo nos fazer descobrir o preço por estimá-la. Orna tua casa, ó Sião, mas enfeita-a de humildade e de pobreza. Maria é testemunha disso para nós, é dentro dessas faixas que ele se compraz, é com essa seda que ele quer ser enfaixado” (Vig. Nat. 1,5).

No estábulo, não há luz, nem anjos a cantar, tudo é silêncio e recolhimento. Nada se diz sobre os beijos com que Maria e José houveram de cobrir o neonato. Se todas as mamães ficam embevecidas diante de suas crianças, a ponto de se dizer que elas as adoram, o que dizer de Maria! Naquela noite sem par, a palavra adorar não era uma hipérbole para Maria e José. A noite do primeiro Natal foi toda de intimidade e de fé. Houve comunicação, com certeza, mas mais ainda, silêncios carregados de amor e de reconhecimento.

Enquanto José e Maria extasiavam-se diante da criança, os textos das Escrituras cantavam dentro de seus corações: “Um menino nasceu para nós, um filho nos foi dado; o império está sobre os seus ombros; e seu nome é: conselheiro maravilhoso, Deus forte, Pai para sempre, príncipe da paz” (Is 9,5). E ainda: “Tu és belo, a mais bela criança humana, nos teus lábios repousa a graça; sim, tu és o bendito do Senhor para sempre” (Sl 44,2). E as horas passam, deliciosas!

Agora Belém dormia, mas o céu estava em festa. Pelos campos, pastores vigiam os seus rebanhos. O anjo do Senhor se mostra e os envolve em uma luz gloriosa. Eles ficam amedrontados, mas o anjo os tranqüiliza: “Não tenhais medo! É uma grande alegria que venho anunciar a vocês e a todo o povo. Hoje, um Salvador nasceu para vocês na cidade de Davi, é o Cristo Senhor” (Lc 2,10). E assim, a alegria anunciada explode no céu. Um numeroso exército de espíritos celestiais junta-se ao anjo e canta: “Glória a Deus nos céus, paz na terra, benevolência para os homens!”

Quando os anjos voltaram para os céus, quando a bonita luz se dissipou, os pastores discutiram entre si e decidiram ir confirmar por eles mesmos aquilo que o Senhor lhes havia feito conhecer. O texto diz: “Eles partiram às pressas e encontraram Maria e José e o recém-nascido deitado em uma manjedoura”. Literalmente: “Eles descobriram Maria e José e o recém-nascido”. É verdadeiramente uma descoberta diferente para cada um. Maria é nomeada por primeiro: sem dúvidas foi ela a primeira a distinguir o rumor de passos, ou de vozes, e a dirigir-se ao encontro dos pastores. José os acolheu e, com Maria, levou-os até a criança.

Maria e José não tiveram que dar explicações, pois os pastores já tinham sido instruídos diretamente pelos anjos. Eles ouviam edificados os pastores contarem a sua alegria por constatar que tudo era conforme ao que lhes havia sido dito dessa criança. Os pastores foram os mensageiros da boa nova e contavam ao povo de Belém tudo o que eles tinham visto e entendido. “Todo mundo ficava maravilhado”, diz São Lucas, e podemos ter certeza de que os primeiros a ficar maravilhados foram Maria e José. 

9 – LUZ  PARA  ILUMINAR  AS  NAÇÕES

Os pastores falariam de sua descoberta a todos aqueles que eles encontrassem, e todos se espantariam. Eles foram, durante o dia e nos dias seguintes, fazer visitas à manjedoura. Maria e José acolheram os visitantes com toda sua amabilidade. Certamente, havia em Belém, assim como em Jerusalém, corações ávidos de Deus e que esperavam o Messias. O Espírito Santo os iluminava para conduzi-los à descoberta do Salvador. As palavras: eles encontraram, eles descobriram, retornam amiúde no Evangelho a propósito das primeiras manifestações do Salvador. Há aqueles que simplesmente viram o menino, e aqueles que o descobriram, isto é, que viveram um encontro pessoal. A presença de Maria e de José facilitava essa descoberta.

Após haver dito que os pastores voltaram para suas casas glorificando a Deus, São Lucas logo ajunta: “Quando se cumpriram os oito dias para a circuncisão do menino, foi-lhe dado o nome de Jesus, como indicara o anjo antes da sua concepção” (Lc 2,21). Admira-nos esse laconismo; nem José, nem Maria entram em cena. Que diferença com aquilo que o mesmo São Lucas diz da circuncisão de João Batista. Para João, parentes e amigos vêm nomeados; querem dar à criança o mesmo nome de seu pai, Zacarias, a mãe protesta: é preciso chamá-lo João. As pessoas não ficam convencidas, perguntam por sinais a opinião do pai. Este, pede uma tabuinha e escreve: João é seu nome! Imediatamente, solta-se a sua língua e ele agradece ao Senhor. A novidade espalha-se pelas montanhas; todos comentam. Perguntam uns aos outros: “o que você acha que virá a ser esse menino”?

Para Jesus, nenhuma entrada solene, pois a circuncisão do Salvador tem um sentido completamente diferente. O rito da circuncisão tem o sentido de purificação e de pertença ao povo escolhido. Para Jesus, longe de ser purificado, é ele que purifica, é ele que concede a seu povo a faculdade de ser o povo escolhido. Assim, São Lucas sublinha apenas a imposição do nome. Essa imposição do nome é a tomada de posse do menino por seus pais, e a manifestação oficial desse nome a todo o povo.

Maria e José receberam, cada qual separadamente, a ordem de dar ao menino o nome de Jesus. É Deus, por seu anjo, que deu essa ordem a Maria e depois a José. Ele não disse: o menino chamar-se-á Jesus, mas: “Tu lhe darás o nome de Jesus” (Lc 1,31; Mt 1,21). Impor um nome a alguém, no sentido bíblico, significa tomar posse. Essa criança pertence primeiro a Deus, assim, é Deus quem escolhe o nome para seu Filho, nome indicativo da sua missão. Vem daí que, cada um por sua vez, Maria e José deram nome à criança nascida em Belém. Ao dar um nome ao seu menino, Maria reconhece ser sua mãe; paralelamente, José, ao dar um nome à criança nascida de sua esposa, ao fazê-lo em nome de Deus, reconhece uma paternidade sobre esse menino, ele é seu pai por ordem de Deus.

O oitavo dia depois do Natal, dia em que foi realizada a circuncisão, é consagrado, no ano litúrgico, a celebrar especialmente a maternidade de Maria. A festa da circuncisão mostra que Jesus foi verdadeiramente formado dentro do ventre de uma mãe como todas as crianças, com todas as características dos filhos dos homens. São Paulo dirá: “Nascido de uma mulher” (Gl 4,4). Maria é verdadeiramente mãe, ela o é com toda a força do termo. Ela não tem simplesmente uma maternidade de empréstimo como pretendiam certos hereges; eles diziam que o Cristo nada mais fizera que passar pelo ventre de Maria sem ter sido formado por ele.

O nome Jesus significa: Deus salva. É todo um programa e a comprovação de uma sublime realidade. Jesus presente em nosso mundo é a libertação, a salvação que começa. Esse nome de Jesus dado à criança, deve ter parecido um pouco pretensioso às pessoas em Belém, e mais tarde em Nazaré, mas muito mais ele deve ter parecido promissor àqueles que sabiam. Que doçura devia ter o nome de Jesus no coração e nos lábios de José e de Maria! Eles tinham sido os primeiros a conhecer esse nome; eles o haviam recebido da boca de um anjo.

São Bernardo disse que o nome de Jesus era: “mel para a boca, música para os ouvidos, júbilo para o coração”, e que era “uma luz, um alimento, um remédio” (Cant. 15,5). Que dizer de Maria e de José quando eles pronunciavam esse nome! São Paulo, esse grande apaixonado por Cristo, escrevia aos cristãos da aldeia de Filipos, na Macedônia: “Que ao nome de Jesus todo joelho se dobre nos céus, na terra e nos abismos; que toda língua proclame que Jesus Cristo é Senhor para a glória de Deus Pai” (Fl 2,10).

Após ter falado da imposição do nome de Jesus no dia da circuncisão, São Lucas fala da viagem de Maria e de José ao templo de Jerusalém para a apresentação do menino. Essa página, é uma daquelas que melhor põem em relevo a pessoa de São José no mistério do Verbo encarnado. Todos os termos que indicam uma ação estão no plural; eles se referem a Maria e a José. A purificação da mãe e a apresentação do menino são o motivo da viagem a Jerusalém, mas, no caso, são os nomes das cerimônias.

O que mais interessa ao evangelista é o encontro com o velho Simeão e a profetiza Ana. Assim, as igrejas do Oriente celebram esse acontecimento sob o título deHypapante do Senhor, o encontro do Senhor. É, como para os pastores e mais tarde para os magos, a descoberta do Senhor com toda a alegria e as conseqüências que dela derivam. Nós chamamos a essa festa das Candeias por causa das velas, símbolos de Cristo, luz do mundo. O título de Purificação de Maria é impróprio, a Toda-Pura não podia ser purificada. O de Apresentação do Senhor não diz nada de mais, pois Jesus não se apresenta, é José e Maria que vão ao templo para apresentá-lo.

É evidente que Maria e José não estavam obrigados às exigências da Lei de Moisés concernente à purificação das mamães e ao oferecimento dos recém-nascidos. Como para a circuncisão, José e Maria aceitam as prescrições da Lei, em nome da criança, pois Jesus veio, como ele dirá mais tarde, para cumprir a Lei, e não para subtrair-se dela. É ele que purifica, é ele que resgata, pois ele é a expiação de todos.

Trinta e três dias após a circuncisão do menino, isto é, quarenta dias após o seu nascimento, a mãe devia oferecer um sacrifício: um cordeiro de um ano ou, se ela fosse pobre, dois pombinhos. O sacrifício podia ser oferecido por procuração; a presença da mãe em Jerusalém não era, portanto, obrigatória, mas os judeus piedosos gostavam de ir ao templo para as cerimônias de purificação. O texto do Evangelho diz: “para oferecer em sacrifício, segundo a Lei do Senhor, um par de rolas ou dois pombinhos”. Logo, Maria e José eram pobres e como tais reconhecidos diante de todos. Ademais, o cordeiro, o verdadeiro, aquele que tira os pecados, é o próprio Jesus.

Já que a presença da mãe não era estritamente obrigatória, a da criança e do pai, muito menos. A sagrada família poderia ter ficado em Belém. Para José e Maria, tratava-se bem mais do que de uma formalidade; era o cumprimento dos desígnios eternos de Deus sobre o mundo. Em nenhum momento de sua existência Jesus, Maria e José estiveram tão intimamente unidos em uma mesma ação oblativa. O texto traz: “Quando se cumpriram os dias para a purificação deles, segundo a Lei de Moisés, eles o levaram a Jerusalém para apresentá-lo ao Senhor” (Lc 2,22).

Fala São Lucas da purificação deles, isso engloba Jesus, Maria e José; eles estão isentos dos embaraços impostos para a proteção das jovens mamães e de seus bebês. Eles o levaram a Jerusalém: é Jesus que é levado, e é José e Maria que o levam. Ambos querem apresentá-lo: Jesus pertence a um e a outro pois ele é primeiro de Deus. Ele pertence a Deus como Verbo eterno, e também como primogênito da Virgem Maria. O Senhor tinha reservado para si todo menino primogênito de uma família.

De Belém até Jerusalém, há bem duas horas de marcha. Carregando Jesus, sem dúvidas um pouco cada um, José e Maria deviam recordar a profecia de Malaquias que se cumpria através deles naquele momento: “Logo virá ao seu templo, o Senhor que vocês procuram; o anjo da aliança, que vocês desejam” (Mal 3,1). Puderam, então, perguntar-se se o menino seria reconhecido como o anjo da aliança e como seria acolhido no templo. Não tardariam a descobri-lo.

No momento em que entraram no templo, desde a ala das mulheres, José e Maria viram um homem vir ao seu encontro todo contente. Esse homem, Simeão, os esperava. Era um homem justo e temente a Deus, à espera da consolação de Israel. Tinha-lhe sido revelado que não haveria de morrer sem ter visto o Cristo do Senhor. Movido pelo Espírito Santo, ele viera ao templo e quando viu José e Maria carregando Jesus, ele foi até eles e, tomando o menino em seus braços, pôs-se a cantar seu reconhecimento:

            “Agora, ó Mestre, deixa partir em paz teu servidor

            segundo a tua palavra,

            pois meus olhos viram a tua salvação,

            que preparaste em favor de todos os povos;

            luz para iluminar a nações

            e glória de teu povo Israel” (Lc 2,29).

 

Diante dessa acolhida que ultrapassa toda previsão, José e Maria ficam maravilhados, diz São Lucas. Ele, que falou da concepção virginal do menino no dia da anunciação, não teme dar aqui o nome de pai e de mãe a José e a Maria. É a primeira vez que o nome de pai é dado a José no Evangelho. Quer dizer que José merece esse título, não pela carne, mas na perspectiva da ação do Espírito Santo. Ele é pai de uma maneira que não se assemelha a nenhuma outra.

Simeão abençoa a ambos. Esse termo de bênção inclui felicitações proferidas por iniciativa do Espírito Santo. Como Isabel fizera para Maria, Simeão deve felicitar José e Maria por terem acreditado que o Senhor cumpriria suas promessas. Ele os cumprimenta por terem confiado em Deus. Depois disso, sempre por iniciativa do Espírito, Simeão dirige-se diretamente à mãe para determinar o papel do Messias, com todas as conseqüências que decorreriam para ela mesma.

A José o anjo havia anunciado que o Messias salvaria o povo dos pecados, para dizer que o caminho da glória seria costeada de sofrimentos. A Maria não disse nada disso. O anjo havia falado do trono de Davi, de um reino eterno e de um nome glorioso. Na seqüência dos acontecimentos, havia acentuado a nota de alegria: felicitações de Isabel, Magnificat, canto dos anjos no Natal, vinda dos pastores, etc.

Entrementes, como que em segredo, o Senhor prepara a Virgem para os sofrimentos que a esperam, a ela e a seu filho. Simeão lhe diz: “Eis aquele que foi colocado para a queda e o reerguimento de muitos em Israel, e como sinal de contradição. E tua alma será traspassada por um gládio, assim serão revelados os pensamentos de numerosos corações” (Lc2,35). Maria torna-se, assim, modelo e sustento para aqueles que, dali em diante,  estarão submetidos à contradição e terão seus corações traspassados.

Como que para adocicar as últimas palavras de Simeão, surge uma santa viúva, a profetiza Ana, que apesar de seus oitenta e quatro anos, servia ao Senhor dia e noite com jejum e oração. Ela pôs-se a louvar a Deus e a falar do menino para todo mundo. Ela se dirigia “a todos aqueles que esperavam a libertação de Jerusalém”. Infelizmente, São Lucas não refere nenhuma de suas palavras. Gostaríamos de saber o que ela disse a Maria e a José, e mais ainda, o que eles teriam dito nessa circunstância inesquecível.        

10 – NÓS  VIMOS  A  SUA  ESTRELA

Depois de ter falado da acolhida entusiasta de Simeão e Ana, São Lucas acrescenta: “Quando eles tinham cumprido tudo o que prescrevia a Lei do Senhor, eles voltaram para a Galiléia, para sua cidade de Nazaré” (Lc 2,39). Isso significa que José e Maria submeteram-se alegremente a todas as observâncias da Lei que lhes diziam respeito. Participaram, sem dúvidas, de alguma oração litúrgica.  Para oferecer os pombos, não era necessário levá-los. Podia-se encontrá-los facilmente na esplanada do templo. Os mercadores haviam até mesmo invadido o adro, por isso Jesus, mais tarde, vai expulsá-los. Pombos e rolas eram criados aos milhares no vale do Cedron. Para resgatar o menino, José versa os cinco ciclos de prata. Isso representava para ele o salário de três semanas de trabalho.

São Lucas não faz nenhuma alusão à visita dos magos. A tomar o seu texto ao pé da letra, faz supor que Maria e José tenham partido diretamente de Jerusalém para Nazaré sem voltar para Belém, o que é inverossímil. Dentro de um resumo histórico, São Lucas situa a existência da sagrada família, durante os primeiros doze anos de Jesus, entre duas viagens ao templo de Jerusalém. O intervalo é resumido por essas palavras: “O menino crescia e fortificava-se, enchia-se de sabedoria, e a graça de Deus estava com ele” (Lc 2,40). É preciso pôr em relevo essas duas viagens ao templo, omitindo tudo o mais. No lapso de trinta anos que separa o Natal da vida pública São Lucas fala somente de dois acontecimentos atinentes a Jesus: sua apresentação no templo por seus pais, e sua viagem pessoal ao templo na idade de doze anos.

Podemos nos perguntar se São Lucas chegou a conhecer o episódio dos magos e o massacre dos inocentes. Essa questão interessa aos exegetas, que a resolvem de várias maneiras. É provável que tenha conhecido esses acontecimentos, mas julgou inútil relatá-los. Ele, mais do que outros, pudera conhecer o relato de São Mateus e não julgava útil reproduzi-lo, uma vez que não havia nada de especial a acrescentar. Negar a visita dos magos porque Lucas não fala dela, e pôr em dúvida o anúncio aos pastores e o canto dos anjos no Natal por causa do silêncio de Mateus, não faz senão aumentarem as dificuldades.

A festa da Epifania encontra-se entre o Natal e a apresentação de Jesus no templo, quarenta dias após o nascimento. Isso não está a indicar que os magos chegaram a Belém somente alguns dias depois do nascimento de Jesus e antes de sua apresentação no templo. Para os evangelistas, os fatos são mais importantes do que sua cronologia. E assim é para a liturgia. É moralmente certo que a viagem de José e Maria para Jerusalém precedeu a chegada dos magos, pois essa visita dos magos havia posto Jerusalém em comoção e inflamado o ciúme de Herodes. Teria sido imprudente para José e Maria aventurar-se em Jerusalém.

É normal situar a chegada dos magos algumas semanas ou alguns meses, após a apresentação de Jesus no templo. Pode-se mesmo notar no relato de São Lucas uma discreta alusão à chegada dos magos e à fuga para o Egito. Simeão fala da salvação que Deus preparou para todos os povos, e da luz que deve iluminar os pagãos. Então ele se volta para Maria, e anuncia-lhe que esse menino será um sinal de contradição e que seu coração de mãe será traspassado por um gládio.

Não é somente no calvário que Jesus foi alvo de contradição e que o coração de sua mãe foi pisado, mas em toda a sua vida. A profecia de Simeão não esperou trinta anos para se realizar. O Cristo sofreu oposição desde o seu nascimento, e é desde o nascimento de seu filho que o coração da Virgem sangrou constantemente essa oposição. É legítimo ver na chegada dos magos e nos incidentes que vieram em conseqüência, a primeira realização das palavras de Simeão. Ele havia anunciado que o menino seria uma luz para os pagãos e um sinal de contradição. A cólera de Herodes, a fuga para o Egito e o massacre dos inocentes em Belém foram grandes dores para a Virgem.

Num dia em que estava com seu bebê nos joelhos ou nos braços, Maria viu estrangeiros chegando. Essa gente parecia fatigada por uma longa viagem, mas os seus rostos estavam radiantes de felicidade. Os recém-chegados só tinham olhos para o menino. Apenas entrando, eles se prosternaram no chão, em uma atitude de profunda veneração. Depois, erguendo-se, ofereceram presentes ao menino: ouro, incenso e mirra.

Essa cena fez as delícias dos artistas de todos os tempos. Nada tira, aliás, a simplicidade do texto evangélico: “Entrando na casa, eles encontram o menino com Maria, sua mãe, e prostrados o adoram. Depois, abrindo seus tesouros, eles lhe oferecem presentes: ouro, incenso e mirra” (Mt 2,11). Nós não sabemos quem eram esses magos, nem de onde vieram; ignoramos seus nomes e sua classe social. A lenda e a imaginação supriram o silêncio do Evangelho.

O fato importante, que a multiplicidade de detalhes arrisca de fazer esquecer, é a chegada em Belém de um grupo de pagãos à procura do Cristo. Eles puseram-se a caminho seguindo indícios misteriosos mas pouco precisos e depois de laboriosas pesquisas, descobriram aquele que desejavam encontrar. Aqueles magos, por pouco conhecidos que sejam, são os representantes de todos os povos pagãos. Sua chegada a Jerusalém põe a cidade em comoção, não pela importância de seu nome, ou sua maneira de vestir, mas pela pergunta que eles fazem a todos os que encontram: “Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer”? (Mt 2,2). E para convencer as pessoas que parecem surpresas, eles acrescentam: “Nós vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo”.

Herodes não demorou a saber da chegada dos magos, através de sua polícia secreta, sempre ativa. Isso o deixou perturbado, sem dúvidas, menos pelo anúncio do nascimento de um rei, do que pelo fato de esse nascimento ser anunciado por uma estrela. Herodes era extremamente supersticioso e o povo de Jerusalém, nem um pouco menos. Aquele astro pode ter sido um cometa e todo cometa era para os antigos um presságio de infelicidade.

Os magos devem ter ficado admirados de não receber resposta precisa à sua pergunta: “Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer?” e ao mesmo tempo de constatar que sua pergunta perturbava as pessoas. Eles não podiam imaginar as incidências políticas que tinha o nascimento de um rei no contexto em que se encontrava então a Judéia. Herodes, cognominado “o Grande” em razão da magnificência que ele tinha mostrado com a restauração do templo de Jerusalém, era então um déspota sanguinário. Suspeitava de rivais por toda parte e fazia-os desaparecer por todos os meios. Inveja, astúcia, patifaria e crueldade em sua casa alcançavam o paroxismo. A vida humana contava muito pouco. Ele havia mandado degolar sua mulher Mariana, que antes ele tinha amado apaixonadamente, dois de seus filhos e outros membros da sua família.

Herodes, ao ser-lhe anunciado o nascimento de um rei dos judeus, imediatamente pensa no Messias. Sem crer sinceramente nesse Messias anunciado pelos profetas, ele o teme e por isso toma suas precauções. Consulta os exegetas da época, padres e escribas, para saber onde o Cristo devia nascer. A resposta é clara: em Belém. Então Herodes convoca os magos em segredo e informa-se com atenção de tudo o que eles viram. Ele finge interessar-se pela criança e pede aos magos para que voltem e lhe prestem contas a fim de que também ele vá render homenagens a esse novo rei.

A atitude de Herodes mostra que  os magos não eram personagens muito importantes do ponto de vista político, senão, ele os teria recebido ostensivamente e mesmo com fausto a fim de ganhá-los para sua causa. Tê-los-ia feito acompanhar por alguns oficiais, que se teriam encarregado de fazer a criança desaparecer. Herodes cairia no ridículo em caso de erro, por isso prefere ficar nas sombras e servir-se de seus hóspedes como espiões.

A atitude maliciosa de Herodes não podia escapar aos magos que, pelo que se sente no relato de São Mateus, deviam estar embaraçados ao deixar Jerusalém. Por outro lado, qual não foi seu entusiasmo quando a estrela brilhou novamente diante dos olhos deles! Aquela estrela que eles tinham visto no Oriente, agora os precedia na rota de Belém. Ao verem a estrela, sua alegria foi inexprimível. O texto é intraduzível: “eles foram cumulados sem medida, por uma alegria imensa”. E é nessa alegria sem limites que “eles entraram na casa e encontraram o menino com Maria, sua mãe”.

Não se fala na presença de José quando os magos chegaram. Isso não quer dizer que ele estivesse necessariamente ausente. O texto sublinha simplesmente que o interesse dos visitantes é pelo menino, e que é por ele que eles fizeram uma viagem tão longa. A presença da mãe indica que o menino é realmente da raça humana, se bem que de uma natureza maravilhosa. Só o Cristo merece que alguém abandone tudo para se pôr à sua procura, seguindo a estrela. Todos aqueles que procuram verdadeiramente o Cristo, estão certos de descobri-lo cedo ou tarde nos braços de Maria, mesmo se o caminho parece longo e as asperezas desconcertantes.

Mesmo se ele não estava presente no primeiro instante da chegada dos magos, José não deve ter demorado a chegar e tomar parte na alegria comum. Não é preciso imaginar os magos entrando depressa na casa, ajoelhando-se, erguendo-se para oferecerem seus presentes e indo logo embora. Os orientais nunca são apressados.

São Mateus nos diz que os magos entraram na casa. Devemos concluir que Maria e José não estavam mais na gruta onde Jesus tinha nascido. Aquela gruta, situada nos arredores da cidade, não foi mais do que uma parada de emergência, querida pela providência para fazer transbordar a alegria do Natal.

A atitude dos magos mostra que eles estavam guiados por uma luz interior mais ainda do que pela estrela. Qual a natureza daquela estrela? Ninguém poderá dizer. Aliás, pouco importa que tenha sido um astro real, ou uma conjunção de astros, um meteoro, ou ainda uma visão interior. Deus pode servir-se de qualquer coisa para transmitir seus convites. Ele utiliza como quer leis naturais que nós não conhecemos.

A natureza dos presentes encerra um simbolismo que permite conhecer os sentimentos dos magos. Eles oferecem ouro, incenso e mirra. Se tivessem trazido somente ouro, alguém poderia ver na oferta deles apenas um gesto de auxílio e de oportunidade. O incenso e a mirra obrigam a buscar um significado mais elevado, pois não se vê que utilidade poderiam ter em um lar comum. Se a intenção dos magos fosse ajudar uma família pobre, não teriam dado ouro, mas moedas miúdas. Os Padres da Igreja sempre viram nesses presentes uma ação simbólica pela qual os magos reconheceram Jesus como rei, Deus e homem, graças a uma luz sobrenatural.

Uma palavra do texto é digna de nota. Não está escrito: eles ofereceram, mas: eles lhe ofereceram. É ao menino que eles oferecem, é o menino que recebe. É o menino a causa da alegria deles, é a ele que eles querem agradecer com os presentes. O fato de os presentes serem oferecidos ao menino, parece sugerir que Jesus não era mais o recém-nascido deitado em uma manjedoura, mas já uma criança esperta que sorri para as visitas e estende a mão para pegar o que lhe mostram. Se grande foi a alegria dos magos, com certeza a de Maria e José foi maior ainda. 

11 – PEGUE  O  MENINO  E  SUA  MÃE

O texto do Evangelho não nos deixa o tempo de saborear a beleza do mistério da Epifania, pois após dizer que os magos ofereceram seus presentes, acrescenta logo: “Avisados em uma visão noturna para não voltarem a Herodes, eles partiram para seu país tomando um outro caminho” (Mt 2,12). Segue-se o relato do massacre dos inocentes.

Mesmo que não fossem reis, nem grandes personalidades, os magos eram pessoas ricas e instruídas. Eles se interessavam por astronomia e podiam ausentar-se de suas casas por uma longa temporada sem ter de dar satisfações a ninguém. Assim, podemos estar seguros de que eles empregaram um bom tempo na sua estada junto à sagrada família. Eles estavam cansados, tinham fome e sede, tinham alcançado a meta de sua viagem, logo, eles não tinham nenhuma razão para apressar-se em partir.

De sua parte, José e Maria devem ter feito de tudo para segurar seus hóspedes o mais possível. A hospitalidade oriental não é uma palavra vazia e não é de se supor que José e Maria tenham faltado ao seu dever num ponto tão importante. Depois de oferecer seus presentes, os magos devem ter falado, eles disseram de sua imensa alegria, cantaram a beleza da criança, contaram de sua viagem e de como a estrela tinha aparecido a eles. Maria e José devem ter feito perguntas, pois essa visita era muito importante para eles.

Ouvindo os magos contarem como haviam seguido a estrela, José e Maria não puderam deixar de recordar a mensagem de Simeão no templo de Jerusalém: “Luz para iluminar os pagãos”. Dessa luz, eles haviam recebido a guarda, eles a tinham recebido em depósito, com a missão de velar sobre ela. O próprio Deus revelara o segredo, manifestando aos estrangeiros o nascimento dessa luz. Na verdade, o Senhor não faz acepção de pessoas, todo mundo é chamado a descobrir o Cristo.

A aceitação dos presentes dos magos pôs José e Maria na obrigação de retribuir com alguma coisa; era o mínimo de cortesia. As pessoas bem educadas não podem receber presentes sem crer-se obrigadas a oferecer alguma coisa, sobretudo se são pobres. Um pobre sente-se sempre humilhado quando recebe algo sem poder retribuir. José precisou oferecer algum objeto de sua fabricação, e Maria alguma especialidade de Belém. As horas devem ter passado depressa tanto para os magos, como para a sagrada família. Se Isabel e João Batista exultaram ao ouvir a voz de Maria trazendo Jesus dentro de si no dia da visitação, qual não deve ter sido a comoção dos magos diante do menino e sua mãe!

A primeira das formas de hospitalidade é a refeição em comum. É completamente normal imaginarmos José e Maria esforçando-se alegremente para regalar seus hóspedes e, de sua parte, os magos colocando em comum as provisões que lhe restavam. A Virgem Maria precisou apressar-se lentamente para segurar seus hóspedes o mais possível. Vemos muito bem Maria pegar a farinha, amassar, acender o fogo, cozer a massa enquanto conversava desmanchando-se em atenções. Esse pão cozido sobre pedras dá o sentido ao ‘bolo dos reis’ que se come na festa da Epifania em muitos lugares. É a alegria que nasce do pão partilhado. O verdadeiro pão dado ao mundo por Maria é Jesus; ele é o pão vivo descido dos céus.

Sem nenhuma dúvida os magos devem ter falado de sua visita a Herodes e da idéia que o monarca tivera de vir pessoalmente a Belém render suas homenagens ao menino. Essa perspectiva apagou um pouco a alegria comum. José e Maria tinham coração bom demais para suspeitar das intenções de Herodes, e ao mesmo tempo, eles eram clarividentes demais para não pressentir um perigo. Como se tratava do menino, eles tinham plena confiança no Senhor: ou bem ele mudaria o coração e os planos do monarca, ou bem ele manifestaria sua vontade de uma maneira ou de outra. Assim, foi sem inquietude que Maria e José tomaram sua refeição naquela tarde.

Para os magos, foi a mesma coisa. Malgrado algum pressentimento sobre as intenções de Herodes, eles estavam muito felizes de ter encontrado aquele que procuravam. Se a aparição da estrela, na saída de Jerusalém os havia cumulado de uma alegria sem limites, essa alegria, longe de desvanecer, tinha aumentado durante a estadia junto de Jesus, Maria e José. O que exatamente pensavam eles daquele menino? Ninguém sabe. Só Deus os esclarecia. Seus presentes falam por eles. Santo Irineu explica: “Eles ofereceram mirra àquele que devia morrer, ouro àquele cujo reino não terá fim, e incenso ao Deus dos judeus que se manifesta aos pagãos” (Haer. 3,10).

De fato, os magos tinham algo melhor a fazer do que analisar sua ciência teológica. Eles experimentaram o quanto o Senhor tinha sido bom para eles, o quanto eles tinham tido razão de partir para aquela aventura divina, e marchar mesmo quando a estrela não se mostrava mais. Agora que eles tinham a luz no fundo do coração, sentiam-se transformar em homens novos. O Senhor tinha entrado na vida deles, tudo tinha mudado. Eles podiam retornar e retomar o caminho, bem sabendo que encontrariam novas dificuldades. Dali para frente, eles podiam confiar no Senhor com a certeza de que, o que quer que viesse, eles jamais seriam iludidos. É o itinerário de todos aqueles que seguem a estrela e descobrem o Cristo nos braços de Maria.

Então, os magos não ficaram abalados além da medida quando, durante o sono, receberam uma advertência dos céus recomendando-lhes não retornar à casa de Herodes. Eles não tinham prometido nada a ninguém. Em lugar de voltar para Jerusalém, eles tomaram a rota para Leste. Em algumas horas alcançariam o Mar Morto, podiam contorná-lo ou atravessá-lo de barco. O Novo Testamento não fala mais deles. Uma tradição, talvez tardia, atribui a eles os nomes de Melquior, Gaspar e Baltazar. A cidade de Cologne se gloria de possuir suas relíquias desde a Idade Média.

Após a partida dos magos, um anjo aparece a São José em sonhos e lhe diz: “Levanta-te, toma o menino e sua mãe e foge para o Egito; tu morarás lá até que eu te avise. Porque Herodes vai procurar o menino para o matar” (Mt 2,13). Nessa circunstância trágica, José se revela um homem de confiança. É a ele que o anjo se dirige pois ele é responsável pela mãe e pela criança. Deus confiou nele e ele, José, confia em Deus sem restrições. O anjo que lhe diz para fugir é o mesmo que lhe havia dito alguns meses atrás: “É ele que salvará o mundo de seus pecados”. Esse menino é o Salvador e ei-lo obrigado a fugir em plena noite. 

São João Crisóstomo já explicava aos seus ouvintes que José poderia ter apontado a contradição presente nas palavras do anjo. José poderia ter dito: “Essa história não está clara, ela é meio ambígua. Pouco tempo faz, tu me dizias que ele iria salvar seu povo, e agora ele não pode nem mesmo livrar-se do perigo? Ele nos faz fugir, empreender uma longa marcha e exilar-se em terra estrangeira? É o contrário da promessa!” E o orador acrescenta logo: “José não fez nenhuma objeção porque era um homem de confiança… Ele não ficou acabrunhado, mas obedeceu de bom coração. Ele confiou ao aceitar com alegria toda sorte de tribulações” (In Mat. 8).

João Crisóstomo é um dos Padres que melhor compreenderam a personalidade de São José. Ele quis mostrar São José não somente resignado com o exílio, mas aceitando de bom coração. Tudo porque ele era um homem de confiança, um homem que se fiava totalmente em Deus e em quem Deus pôs toda confiança. Era alguém com quem Deus e os homens podiam contar. O Senhor lhe diz para partir para o Egito, ele põe-se a caminho. Ele está convencido de que Deus tirará o bem do mal.

José, que era um homem otimista e que vivia à escuta de Deus, descobre a concordância das palavras do anjo, em lugar de ver ali uma contradição. A segunda intervenção era a confirmação e o complemento da primeira. Para compreender essa concordância, basta refletir na semelhança dos termos empregados. Na primeira vez o anjo diz: “Não temas tomar Maria, tua esposa”; o texto ajunta: “Ele tomou sua esposa”. Na segunda visita o anjo diz: “Toma o menino e sua mãe”; e acrescenta: “Ele tomou o menino e sua mãe”.

O verbo principal é tomar, que aqui significa: apoderar-se de, tomar posse, assumir a responsabilidade de, levar, etc. José havia livremente ligado sua vida à de Maria no dia de seu noivado. Ele precisava de uma intervenção divina para aceitar a responsabilidade de uma esposa feita mãe por obra de Deus. O anjo lhe dissera em nome de Deus, para receber sua esposa Maria, e por ela, assumir a responsabilidade pela criança. Aí a criança está em primeiro lugar. O anjo diz: “Toma o menino e sua mãe e foge para o Egito!” José toma o menino e sua mãe. O anjo lhe dá autoridade sobre o menino e sua mãe, ou pelo menos confirma uma autoridade de que José já gozava. Dá-lhe a missão de conduzir o Messias em terras pagãs.

Essa abertura aos pagãos é muito nítida no relato de São Mateus. O evangelista era um judeu. Ora, no seu Evangelho não há nenhuma alusão, nem mesmo indireta, a alguém de sua raça que tenha ido a Belém reconhecer o Messias. Não há um só judeu ao redor do recém-nascido, fora Maria e José. Essa omissão é voluntária, a fim de sublinhar a importância da vinda dos magos a Belém e da viagem da sagrada família ao país do Egito. Só Herodes, um idumeu, é apontado como tendo levado a sério a vinda do Cristo. É a raiva que o torna clarividente.

Após a visita do anjo, José precisou medir com calma as conseqüências práticas da partida para o Egito. Era uma marcha longa e fatigante, grande parte em pleno deserto. O grande problema era o reabastecimento, principalmente de água. Mas os dois sabiam que eles podiam contar com a providência e que, para onde quer que fossem eles tinham consigo o Filho de Deus.

A providência já viera em seu auxílio na pessoa dos magos, pois eles haviam trazido um pouco de ouro, que seria útil para o longo período em que José não poderia trabalhar. E assim, eles partiram discretamente, em plena noite, sem falar com ninguém. Foi prudente para eles e para seus amigos em Belém. José e Maria poderiam ter combinado com os magos e partir com eles. Não o fizeram. A cada um, a sua vocação. Cada um deve seguir, dia após dia, o caminho preparado pela providência. O ponto de partida é o mesmo: o Cristo vindo a este mundo. O ponto de chegada é idêntico: o Cristo glorioso. As vocações não dependem umas das outras, mas tendem todas ao mesmo objetivo: o reino de Deus nos corações.

O que São João Crisóstomo diz de São José: “ele aceita de bom coração”, é preciso dizer também de Maria. Os dois sofreram as fadigas da viagem, mas sofrer quando amamos e por aquele que amamos, torna-se fácil e até desejável. Para eles, vale plenamente a palavra de Santo Agostinho: “Quando amamos, não padecemos; ou, se padecemos, o padecimento é amado”. 

12 – SANGUE   E   LÁGRIMAS

É bom debruçar-se com realismo sobre a partida para o exílio. A grande tentação, que é uma das formas de astúcia diabólica, é enfeitar a existência de José, de Maria e de Jesus. Dessa maneira, ela não mais nos diz respeito, ele está fora de nossas preocupações; o Cristo veio para ultrapassar nossas misérias sem vivê-las seriamente. Então, descartamos os relatos da infância como folclore; a fuga para o Egito não é mais que uma lenda.

Os apócrifos exerceram nesse domínio, como também em outros, um papel nefasto. Os milagres floresciam a cada passo, os animais ferozes vêm oferecer seus serviços, as palmeiras dobram-se para oferecer-lhes tâmaras, as fontes jorram à vontade!…

Se o Filho de Deus deixou os céus, sem deixar o seio do Pai, para vir viver entre nós, não foi para instalar-se aqui mais ou menos confortavelmente, mas para carregar-se das nossas dificuldades, levá-las conosco, e orientá-las para a vida que não termina. José e Maria sonharam uma felicidade tranqüila em Nazaré; o Senhor veio até o lar deles e os cumulou acima de todas as suas esperanças, com a alegria do Natal, o canto dos anjos, a vinda dos pastores e dos magos. Depois, de um só golpe, ei-los perseguidos.

É a prova brutal, inesperada, imprevisível e desconcertante. Os anjos anunciaram a paz; o Filho de Deus veio trazer o amor sobre a terra, e de repente surge o ódio. Um ódio implacável, sem nenhum motivo, um ódio que quer a morte daquele que é o amor. Maria e José não são simplesmente exilados, ou aquilo que se usa chamar pudicamente de “deslocados”, eles são perseguidos. Só aqueles que viveram, ou que vivem em nossos dias, sob o ódio, sabem o que podem ter sofrido José e Maria ao deixar Belém.

Diante daquela criança, que não é como as outras, ninguém pode ficar indiferente. Os pensamentos profundos do coração manifestam-se e traduzem-se em amor ou em ódio. As duas atitudes são caracterizadas pelos magos e por Herodes. Os magos procuraram e encontraram; seus corações foram tomados, como testemunha a sua alegria sem limites ao verem a estrela em Belém. A alegria não é mais que o crepitar da chama que arde o coração.

Herodes, rei por usurpação de um minúsculo reinado, pouco maior que um punhado de pequenas cidades brasileiras, desconfia daquele menino, nascido em um presépio, mas cujo reino não é deste mundo. Vendo que os magos não retornavam, é tomado por uma raiva insana. Sente-se menosprezado por aqueles estrangeiros que não se dignaram nem mesmo avisá-lo de sua partida. E no entanto, ele lhes havia dito para voltarem e prestarem contas a ele daquilo que  tivessem encontrado. Ele acreditava-se todo poderoso e eis que alguém lhe volta as costas sem mais. Ele perde a esperança de descobrir esse rival que acaba de nascer. Então, toma uma decisão: fará desaparecer esse rei dos judeus, já notoriamente preferido pelos estrangeiros.

No entanto em que José e Maria aproximam-se do Egito em marcha forçada, um drama desenrola-se em Belém. Herodes deu ordens de massacrar todos os meninos menores de dois anos. Fazendo desaparecer assim todos aqueles inocentes, Herodes estava seguro de pôr as mãos em Jesus. Não foi difícil para seus emissários saberem onde os magos haviam parado, pois no Oriente tudo se passa em plena rua, e todos conhecem os menores feitos e gestos de cada um, sobretudo numa pequena aldeia como Belém. Mas a casa estava vazia, e ninguém sabia, nem queria saber, onde estavam seus moradores.

Pensando que o menino poderia estar escondido dentro de uma ou outra das casas, Herodes dá ordem de fazer desaparecer todas as criancinhas de Belém e dos arredores. Todos aqueles que tinham menos de dois anos foram postos à morte sem explicações. ele tinha-se informado junto aos magos, da época em que a estrela havia aparecido pela primeira vez. Como aconteceu o massacre? Não sabemos. Sendo Herodes tão astucioso quanto cruel, e sabendo-se detestado pelos judeus, ele deve ter tomado precauções para que esse massacre passasse quase despercebido.

O nome das vítimas? Ninguém sabe. Na época, Belém devia contar cerca de dois mil habitantes. Como a mortalidade infantil era muito grande, tudo leva a crer que em Belém e nos arredores devia haver mais de trinta meninos de dois anos para baixo. Mesmo para esse número restrito, o massacre das crianças de Belém, ordenado por Herodes, é um crime hediondo. A Igreja festeja aquelas pequenas vítimas inocentes e inconscientes como verdadeiras testemunhas do Cristo. Mais tarde, Jesus dirá que um simples copo d’água dado em seu nome não ficará sem recompensa. Quem poderá dizer o que ele deve ter dado às crianças que deram, não um copo d’água, mas todo seu sangue por ele? O mesmo se diga das lágrimas dos parentes. O Senhor não se esquece de ninguém.

José e Maria ficaram sabendo da tragédia? Mais cedo ou mais tarde, mas não sabemos em que momento. Ignoramos também as suas reações. Foi mais uma prova somada às outras de sua travessia pelo deserto. Maria constatava o quanto Simeão havia visto bem; seu filho era sinal de contradição. O ódio que perseguia sua criança era a ponta do gládio que penetrava no mais profundo do seu coração. Sem a lembrança do ódio insensato que os perseguia, Maria e José não teriam sentido o exílio, pois eles tinham aquele que os acompanhava sempre e que era para eles fonte inexaurível de alegria.

Sofrer sozinho já é penoso, sobretudo em certas provações, mas quando sabemos que somos, se não a causa ao menos a ocasião do sofrimento de outros, então se torna intolerável. Para Maria e José, o pensamento de ser, embora indiretamente, a causa do massacre dos inocentes, devia partir-lhes o coração. Era a conseqüência dolorosa do Fiat de Maria no dia da anunciação, e para José, a continuidade de sua aceitação, livre e consciente, da missão de sua esposa.

Se o Senhor Jesus, durante sua estada no deserto, quis sofrer os assaltos da tentação, pode-se pensar que não tenha dispensado dela Maria e José. A tentação não é um pecado. Deus não a permite para os santos, a não ser para conformá-los melhor à sua vontade. Após longas jornadas de fadiga, com privações de toda sorte, incertezas e privações que excitam a imaginação, José e Maria puderam perceber o tentador soprar-lhes aos ouvidos: Por que foram dizer sim? Por que foram embarcar nessa aventura? Por que deixaram Nazaré? Quantos por quês pôde conceber a imaginação deles já excitada pelas miragens do deserto!

A única resposta que vinha aos seus lábios era aquela que devemos dar quando os acontecimentos de nossa vida tornam-se desconcertantes: “Deus é mais sábio do que nós! Ele é fiel e nos ama!” Eles tinham compreendido bem, no momento da partida, e tinham-se posto em marcha. As névoas, as tempestades, os espinhos do caminho, e as contrariedades imprevistas não provam que a rota escolhida não seja certa. Podemos confiar em Deus, ele nunca nos decepcionará. Cedo ou tarde ele tirará o bem do mal e devolverá o cêntuplo do que ele parecia levar. No final, a fúria de Herodes trouxe mais glória às crianças de Belém do que teria feito a sua benevolência.

O anjo havia dito a José: “Toma o menino e sua mãe”. O Evangelho acrescenta: “José levantou-se, tomou o menino e sua mãe”. Parece natural que José não se tenha contentado de encarregar-se do menino, mas que o tenha mesmo carregado uma grande parte do caminho. Podemos vê-lo muito bem colocando Jesus delicadamente dentro de um cesto e prendendo-o às costas. Ele o daria a Maria por etapas. Costuma-se ajuntar um asno à pequena caravana. Nada se diz no Evangelho. Uma montaria permite levar mais víveres e bagagens, mas suscita outros problemas de ordem prática. Para uma caravana, vai bem, mas para um pequeno grupo isolado nada vale a liberdade de andar, sobretudo quando se trata de foragidos.

Que itinerário José escolheu? Seguramente, o mais discreto e o mais rápido. Precisou passar por Hebrom, célebre pela estada de Abraão e pelas proezas de Davi. Em quatro ou cinco dias de marcha, ele pode atingir a “Torrente do Egito” que demarcava a fronteira. A partir daí eles estavam em segurança. Poderiam continuar em marcha menos apressada, se não menos penosa. Deserto é sempre deserto, com todas as suas dificuldades e perigos. É de se supor que a sagrada família tenha-se juntado a alguma caravana para assim obter água e pão.

Mas é possível também que José e Maria tenham sofrido fome, e mais ainda sede.

Jesus tinha em sua mãe todo o seu alimento; ele não precisava de mais nada. Ela era para ele a fonte da vida; ele vivia totalmente dela. Reciprocamente, ela vivia dele ao mesmo tempo que por ele. Naquele deserto, aplicavam-se literalmente a Maria e a Jesus, as palavras da Escritura: “Em ti está a fonte da vida, e pela tua luz nós vemos a luz” (Sl 35,10). Pode-se perguntar se essa fonte não foi exígua em algum momento, e se Jesus não começou nesse momento o seu jejum no deserto? Maria, devido às privações, pode em certos momentos ter-se encontrado incapaz de nutrir seu bebê. A “mãe das dores” não foi isenta do sofrimento que afligem tantas mamães.

O sofrimento de José naqueles momentos era de encontrar-se totalmente impotente para vir em auxílio de Maria e Jesus. Ele nada podia dar-lhes além de sua afeição e sua confiança. O anjo lhe dissera para refugiar-se no Egito, mas também para ficar lá até um novo aviso. Queria dizer que os viajantes estivessem seguros de chegar no Egito e de poderem viver ali com a esperança de voltar um dia ao seu país. Dessa maneira, o anjo tomo-os sob a sua proteção. Podiam confiar nele, pois falava em nome do Senhor.

Uma antiga tradição diz que a sagrada família refugiou-se  nas cercanias do Cairo, em Matarieh, perto de Heliópolis. Isso fica a mais ou menos quinhentos quilômetros. Em qualquer estação, a viagem de Jerusalém ao Cairo é penosa e uma acabrunhadora monotonia. Um franciscano que fez esse trajeto no século XVII, escreve: “É preciso resignar-se a ficar vinte e três dias montado num camelo, exposto ao sereno da noite e ao calor excessivo da areia iluminada pela veemência do sol. Durante as cem léguas que dura a viagem, não se encontra uma pedra, um curso de água, uma fonte”. Mesmo evitando exageros para não desencorajar os peregrinos, ele, inconscientemente, dá um panorama desolador.

 13 – OS   DOIS   JOSÉS

No Egito, José e Maria não ficaram dobrados sobre si mesmos, num isolamento estéril. Numerosos eram os judeus que, por um motivo ou por outro, sobretudo por interesse, instalavam-se no Egito. Esses judeus mostravam-se muito acolhedores com os recém-chegados, alojando-os durante os primeiros dias e facilitando a eles os caminhos para encontrar moradia e trabalho. José bem depressa precisou encontrar trabalho e construir para si uma casa de barro. Isso era muito fácil para um trabalhador hábil. Bastava pegar algumas varas de caniço, endurecê-las com lama que secava rapidamente ao sol. Caniço e lama não faltavam nas margens do Nilo. Podia-se também facilmente petrificar a argila e fabricar tijolos. Os ancestrais haviam fabricado uma quantidade astronômica deles.

José e Maria sem dúvidas logo fizeram amigos entre seus compatriotas e também entre as pessoas do país. Havia lá, como na Palestina, corações retos que esperavam o Messias e que desejavam sua vinda. De uma maneira ou de outra, o Senhor devia esclarecer os espíritos e acalentar os corações. Como os pastores e os magos, como Simeão e Ana, os egípcios de boa vontade descobriram, talvez em grande número, que uma luz sobrenatural emanava daquele menino. José e Maria exerceram, sem nenhuma dúvida, uma real influência sobre os homens e as mulheres que se aproximavam deles.

A estada da sagrada família no Egito tem muito mais importância do que um simples fato diverso, uma razão especial motivou a sua realização. O anjo, em nome do Senhor, não disse simplesmente para José fugir, mas determinou que ele fosse para o Egito e morasse lá. Bem depressa atribuiu-se a essa estada de Jesus com Maria e José, o admirável florescimento de vidas cristãs manifestado naquele país durante os primeiros séculos do cristianismo.

As primeiras comunidade cristãs do Egito viram na presença de Jesus em seu país, não uma simples conseqüência do furor de Herodes, mas antes, o cumprimento de uma profecia. Isaías havia escrito: “Eis Javé que vem ao Egito carregado sobre uma grande nuvem rápida. Os ídolos do Egito tremem à sua aproximação, e o coração do Egito derrete-se” (Is 19,1). Daí a lenda dos ídolos que caem no chão quando Jesus chega à terra do Egito. Para eles, a cólera de Herodes não era a causa da vinda de Jesus para o Egito, mas o pretexto de que Deus se serviu para cumprir seus desígnios sobre o país.

Essa idéia é muito bonita, ela inclui uma grande fé na providência, ao mesmo tempo que uma visão clara da história. José, ao levar o Menino-Deus para o Egito, por ordem dos céus, torna-se o primeiro missionário. Ele semeou com lágrimas junto com Maria, mas a colheita prosperou com uma exuberância inaudita. Não por nada, durante os primeiros séculos, contamos muitos nomes prestigiosos nos domínios da teologia, do ascetismo, da mística, da Sagrada Escritura e da vida monástica. Pense-se em Santo Antão, Orígines, Santo Atanásio, Clemente de Alexandria, São Cirilo e nos milhares de monges que povoaram a Tebaida.

Compreende-se porque em reconhecimento por aquela vinda do Cristo ao Egito, os cristãos do país logo tenham criado uma festa litúrgica. As igrejas coptas continuam a celebrá-la com fidelidade. Foi no Egito que o culto de São José desenvolveu-se por primeiro. As primeiras igrejas fundadas nesse país tinham a peito coligar-se, seja pela tradição, seja por lendas, à viagem de São José. As lendas são, amiúde, a poesia da história.

Sem nenhuma dúvida, José e Maria devem ter-se interessado pelos lugares onde moraram seus ancestrais. Recordaram toda a história do povo eleito desde a chegada de José, vendido por seus irmãos, até a partida do povo conduzido por Moisés, quatrocentos anos depois. José, rejeitado por seus parentes, tivera sucesso no Egito, para além de toda esperança. Ele salvara o país da fome, depois doou terras e pão àqueles haviam tentado fazê-lo morrer. José era a figura do Cristo que, rejeitado por seu povo, não se mostra aborrecido, e finalmente o salva.

A Virgem Maria, meditando as Escrituras, não falta de comparar os dois “Josés”: aquele a quem o faraó havia confiado o governo do Egito, e aquele a quem Deus havia incumbido de zelar por seu Filho. Também José, devia meditar sobre os caminhos pelos quais o Senhor havia conduzido o primeiro José ao Egito e seu próprio destino. O ponto de partida, em ambos os casos, havia sido o ódio insensato. O ódio de Herodes não tinha mais motivos do que aquele dos irmãos de José. Os filhos de Jacó haviam levado sua família ao Egito. Lá, ela se tornara o povo de onde nasceria o Messias. José, filho de um outro Jacó descendente do primeiro, conduz, também ele, sua família ao Egito: Jesus, o Messias prometido, e Maria sua mãe, mãe pela fé de um povo novo.

São Bernardo está mais para sublinhar a superioridade do esposo de Maria sobre o primeiro José. No seu comentário aos primeiros versículos do evangelho da anunciação, ele escreve: “Que homem, e de que valor, foi esse José, imagina-o junto ao título com que Deus quis honrá-lo, que ele fosse chamado e acreditado ‘pai de Deus’; título, é verdade, em dependência do plano redentor. Imagina-o paralelamente com o nome que leva, nome que significa acrescimento, como já sabes.

“Ao mesmo tempo, lembra-te daquele ilustre patriarca, já vindo ao Egito, e sabe que nosso José não herdou simplesmente o seu nome, mas que foi seu êmulo na castidade, seu imitador na integridade e em encantos. Assim, o antigo José, vendido pela inveja de seus irmãos e levado ao Egito, prefigurava o Cristo vendido por dinheiro; o segundo José, para escapar da inveja de Herodes, leva o Cristo para o Egito.

“Aquele, para permanecer fiel a seu senhor, recusa fazer-se cúmplice de sua mestra; este, reconhecendo em sua esposa a mãe do Senhor, uma virgem, vela sobre ela com solicitude, guardando também ele a castidade. Ao primeiro foi dado penetrar o mistério dos sonhos, ao segundo foi concedido conhecer os mistérios celestes e participar deles. Aquele, amontoa reservas de trigo não para si, mas para todo o povo; este, recebe dos céus o pão vivo, a fim de guardá-lo tanto para si mesmo quanto para o mundo inteiro” (Mis 2,16).

Quanto tempo durou a estada no Egito? Podemos somente fazer suposições. Aliás, a presença da sagrada família em terras egípcias é mais importante do que a duração dessa presença. O sincronismo dos relatos evangélicos com os acontecimentos políticos é difícil de estabelecer. Alguns podem pensar que o exílio tenha durado sete anos, é pouco provável. Os melhores exegetas pensam que no momento do massacre das crianças de Belém, Herodes estava nos últimos anos, se não no seu último mês de vida. Segundo essa conjectura, a estada no Egito não teria durado mais do que alguns meses, e não se teria prolongado além de dois ou três anos.

Herodes sentia-se sempre mais detestado e ficava bravo com todo mundo. Para impedir ao povo de alegrar-se com a aproximação de sua morte, ele havia dado ordem para massacrar milhares de notáveis, ordem que, felizmente, não foi executada. Cinco dias antes de morrer, fez executar seu próprio filho Antipas. Em meio a tanto sangue derramado, aquele dos inocentes de Belém não teve grande ressonância. Aliás, de que teriam servido protestos, senão para provocar novas sevícias?

Depois da morte de Herodes, o anjo apresenta-se a José numa visão noturna e lhe diz: “Levanta-te, toma o menino e sua mãe e volta para a terra de Israel, pois estão mortos aqueles que queriam matar o menino” (Mt 2,20). O texto diz ainda: “José levantou-se, tomou o menino e sua mãe e dirigiu-se para a terra de Israel”. Não é mais questão de noite e de fuga. José deve empregar seu tempo para que tudo se passe o melhor possível e para a alegria de todos. José e Maria tinham feito amigos no Egito, o menino Jesus havia ganho a simpatia de vizinhos e vizinhas. Precisaram despedir-se e levar algumas lembranças do país. É certo que a sagrada família deixou saudades.

Disse o anjo: “Estão mortos aqueles que queriam matar o menino”. É uma fórmula solene para indicar a importância do inimigo sem por isso afirmar que Jesus teve outros inimigos que morreram ao mesmo tempo que Herodes. O anjo fala também de uma maneira geral da terra de Israel, sem outras determinações. Ele deixa toda iniciativa a José. Ademais,  o Messias está sempre em casa na terra de Israel, quaisquer que sejam as divisões administrativas impostas pelos homens.

José foi escolhido por Deus para unir seu destino ao de Maria e, por ela, ao do Messias. Cabe-lhe encarregar-se do menino e sua mãe para conduzi-los lá onde o Senhor os deseja. Deus só revela seus planos progressivamente; José deve tomar as decisões que convêm, isto é, aquelas que ele julgar as melhores para realizar os desígnios de Deus. O anjo indica simplesmente a José que ele pode retornar sem medo ao país, sem precisar o lugar onde deverá fixar-se. A liberdade humana e os acontecimentos providenciais são sinais pelos quais Deus nos indica sua vontade.

Nesse retorno do Egito, José resta um modelo para todos. Deus, com efeito, traça para nós a nossa vocação, ou se preferirmos, o nosso destino, somente em grandes linhas. Deixa a nós a solicitude de organizar os detalhes segundo as circunstâncias, e também segundo os gostos, ou os desejos alheios. Nós temos inteligência e dons naturais que devem ser utilizados. É o que faz São José, mas para ele, trata-se de algo mais. Ele recebeu em depósito o Filho de Deus, logo, ele deve procurar discernir a vontade de Deus nesse contexto especial de sua existência. Nisso, ele é um modelo para todos nós quando o Senhor nos conduz por caminhos que não podemos prever.

Portanto, toma José o menino e a mãe e ruma para o país natal. Todos os acontecimentos providenciais que se desenrolaram depois da partida de Nazaré, levavam José a fixar-se em Belém, pátria de Davi. O anjo prometera que Deus daria ao menino o trono de Davi, seu pai. Parecia normal que o Messias vivesse no meio mais favorável à sua irradiação. Jerusalém era o centro político de todo o país; era, mais precisamente, o lugar privilegiado para o culto do verdadeiro Deus. Logo, é para a Judéia que José se dirige, com a idéia de voltar para Belém, de onde tinha partido.

Vindo do Egito, José chegou perto da Judéia, sem dúvidas em Gaza. Foi ali que ele se inteirou do estado de calamidade em que se encontrava o país. Arquelau reinava em lugar de seu pai Herodes. Havia herdado a sua crueldade selvagem, a sua patifaria, o seu espírito de dominação e a sua sede de prazer. Ele realizara esplêndidos funerais para seu pai em Heródium, perto de Belém, depois de ser apresentado ao povo durante as festas da Páscoa. Querendo ganhar o apoio de todos, ele tinha começado a conceder graças e favores, mas diante das reclamações, a seu ver exageradas, lançou seus guardas que mataram centenas de descontentes. Seguiram-se sedições e novas chacinas.

Compreende-se que, nessas circunstâncias, José tenha hesitado em voltar para Belém. Ele não podia expor o menino a novos perigos. Esperou, então, uma manifestação da vontade de Deus, pois sua decisão era cheia de conseqüências para ele,  para o menino e para Maria. Afinal, ele não era senão o delegado do Pai celeste junto a esse Filho que lhe foi confiado. Ele espera, em paz, que o Senhor manifeste sua vontade.

14 – A   ALEGRIA   NA   FÉ

Uma nota característica de São José que o Evangelho segundo São Mateus nos revela, é a disponibilidade total e flexível às diretrizes vindas dos céus. Para tudo o que diz respeito à sua atividade humana, às suas relações sociais, à sua profissão, aos seus dons naturais e a  todo o aspecto material de sua existência, o Evangelho não traz a menor palavra. Isso está a dizer que ele agiu em tudo e por toda parte, com uma inteira autonomia e perfeita lealdade. José soube tomar iniciativas e assumir responsabilidades. Porque era justo, ele comportou-se com retidão e integridade.

Como era de seu dever, José preparou seu porvir como se tudo dependesse de sua atividade. Ele não interferiu pessoalmente no mistério do Verbo encarnado. Ele ligou sua vida à Virgem Maria muito livremente e ambos construíram sonhos para o futuro, como todos os jovens noivos de Israel; sonhos mais bonitos ainda do que os daqueles outros jovens. Quando o Senhor veio tomar posse daquela que havia escolhido, José hesita em continuar seu caminho ao lado dela. Ele não queria, como diria mais tarde São Vicente de Paulo, “passar por cima da providência”.

Quando o anjo veio anunciar claramente a vontade de Deus, ele empenhou todo seu coração, e todas as forças para realizar plenamente aquela vontade. Segundo a forte expressão do Evangelho, ele “tomou Maria, sua esposa”. Até aquele momento, ele pensava ser para Maria “seu senhor e mestre”, desde então, ele será o servidor de “sua senhora, mãe de seu Senhor”, como diz São Bernardo. E ei-lo a serviço de uma grande causa, aquela da redenção do gênero humano. O anjo lhe diz: “Tu o chamarás Jesus, pois é ele que salvará seu povo de seus pecados”.

É na calma da noite que ele recebe a luz. Naquele momento, o espírito e o coração estão em paz; eles estão mais disponíveis, mais acolhedores, às moções do Espírito Santo. Foi sob o influxo do Espírito Santo que ele partiu para o Egito e é sob o mesmo influxo que ele voltou para a terra de Israel. Agora ele espera determinações da vontade de Deus, já que obstáculos se levantam diante de seus passos. Ele não pode agir senão em conformidade com aquilo que o Pai decidiu.

A manifestação do anjo a São José, chegando à Judéia, é a última que é citada no Evangelho, mas o conteúdo da mensagem não é indicado. O anjo respondeu às questões que José se pusera; é na Galiléia, em Nazaré, que se passará a infância do Salvador. O anjo não disse “Toma o menino e sua mãe” e não está escrito que “José tomou o menino e sua mãe”. É a viagem dentro de um ambiente de liberdade e de alegria. José e Maria vão rever Nazaré, aquela aldeia que lhes trazia tantas lembranças deliciosas e importantes.

De Gaza, eles logo se dirigiram para o norte, seguindo o litoral do Mediterrâneo. Como estavam menos apressados do que na partida, e como não eram esperados em Nazaré, eles devem ter tomado o tempo para refletir à vontade sobre as cenas bíblicas que lhes recordava cada lugar por onde passavam. Gaza ficara famosa pelas lutas de Sansão contra os Filisteus; Azoth lembrava o cativeiro da Arca da Aliança e as desaventuras do deus Dagon; as planícies de Sefelá e de Saron cantavam sua fertilidade, seus campos de trigo e seus pomares. Os viajantes passaram por Jaffa, antiga Joppé onde tinha embarcado Jonas; evitaram Cesaréia, residência dos reis idumeus e dos procuradores romanos. Era a rota das caravanas e dos exércitos.

Enfim, apareceu o promontório do Monte Carmelo, a montanha santa de onde Elias, o homem de Deus, havia percebido a nuvem ligeira chegando do mar e crescendo rapidamente até derramar águas abundantes sobre a região castigada por três anos de seca. José, no fundo do seu coração, pensava que a pequena nuvem, não maior do que um passo de homem, era o símbolo profético de sua esposa que trazia ao mundo, não uma simples chuva, mas rios de água viva. Ele deve ter murmurado a meia voz alguns versículos do Cântico dos cânticos: “Tua cabeça que se alteia como o Carmelo, e teus cabelos cor de púrpura, enlaçando o rei nas tranças” (Ct 7,6). Ou mesmo estes versículos de Isaías: “A glória do Líbano é-lhe dada, bem como o esplendor do Carmelo e de Saron” (Is 35,2). Textos que tão bem se aplicam à mãe e ao menino.

Herodes morreu no início do mês de abril, pouco antes da Páscoa dos judeus. O retorno do Egito deve ter acontecido em fins de abril ou início de maio, ou seja, no final da primavera ou início do calor forte. A brisa do mar amenizava esse calor, o perfume capitoso das flores e a beleza dos lugares, sem omitir a evocação do passado, alegravam os corações. Agora, Nazaré já não estava mais muito longe. Os viajantes atravessaram a planície do Cison, venceram algumas colinas arborizadas e desembocaram na planície de Esdrelon. Havia uma imensa plantação de trigo onde já trabalhavam os ceifeiros.

Ao aproximar-se de Nazaré, José e Maria devem ter-se perguntado que acolhida iriam receber e em que estado encontrariam a casa. O Evangelho não nos diz nada. Melhor assim, a sagrada família fica mais próxima de nós. Eles tinham amigos, e foi grande o prazer de se reencontrar; havia curiosos ávidos para inventar histórias para explicar aquela longa ausência; havia desconfiança e boatos, era inevitável. Numa aldeia quer-se e acredita-se saber de tudo. Depois, o ateliê tinha sido ocupado ou tinha ficado abandonado. Em um caso ou noutro, havia problemas a resolver-se. Se a casa tinha ficado desabitada, ela sem dúvidas tinha sido visitada por ladrões.

José e Maria precisaram guardar um silêncio absoluto sobre a maior parte dos acontecimentos que eles viveram. Não era aquele o momento de revelar ao mundo a presença do Salvador. Por outro lado, como o povo de Nazaré poderia levar a sério as palavras de José e de Maria, se não acreditou no Cristo mesmo depois de ter ele provado sua missão com numerosos milagres? Sobre os primeiros anos de Jesus em Nazaré, São Mateus não diz uma palavra, e São Lucas resume tudo nesta simples frase: “O menino crescia e tornava-se forte; enchia-se de sabedoria e a graça de Deus estava com ele” (Lc 2,40).

Todos os escritores, antigos ou modernos, aprazem-se em atribuir aos seus personagens, reais ou fictícios, lampejos de gênio desde a mais tenra infância. Ali, nada parecido. Os evangelistas são extremamente discretos. Não citam nenhuma palavra de Jesus que leve a crer numa criança prodígio ou simplesmente precoce. Isso indica que o Filho de Deus não fingiu tomar a nossa natureza humana, assumiu-a totalmente, assim como nós a temos. São Paulo dirá: “Primogênito entre uma multidão de irmãos” (Rm 8,29). Na epístola aos Hebreus, está escrito: “Ele devia fazer-se semelhante em tudo a seus irmãos, a fim de se tornar, junto de Deus, um sumo sacerdote misericordioso” (2,17).

O corpo de Jesus, como o de todas as crianças, desenvolve-se, seus membros se firmam; logo ele balbucia as primeiras palavras e ensaia seus primeiros passos. É fácil adivinhar a alegria de Maria e José durante os primeiros anos de Jesus. Tudo é luz dentro de um jovem lar quando chega o primeiro filho. Quem poderá dizer as alegrias de Maria e de José, dia após dia, diante daquela criança que os céus lhes haviam dado! Quem poderá avaliar a profundidade de suas emoções quando Jesus lhes manifestar seus primeiros gestos conscientes de ternura? E depois, quando ele pronunciar as tão esperadas palavras abbá! papai! e ammá! mamãe!

É bom meditar sobre a infância do Senhor e tomar parte na alegria de Maria e José. Porém, uma tal meditação arrisca ser estéril se não ultrapassar a moldura poética que a imaginação pode enfeitar à vontade. Não basta desfrutar alegrias estéticas, admirar a beleza da mãe e da criança, apiedar-se da pobreza da casa e do trabalho de São José. Jesus não veio a Nazaré para aumentar o decoro, mas para fazer avançar o reinado de Deus. 

É necessário despertar a nossa fé, a fim de descobrir a passagem do Senhor por esses acontecimentos. Imaginação e sensibilidade são úteis, e até necessárias, mas insuficientes para descobrir o mistério de José e de Maria. Nós, que sabemos o que aconteceu em seguida: o ensinamento de Jesus, seus milagres, sua paixão, sua ressurreição, sua Igreja com tudo aquilo que nos trazem os Evangelhos e as Epístolas, nós admitimos sem dificuldades que aquela criança, aparentemente como todas as outras, era de uma natureza transcendente. Mas para José e Maria, eles não viam senão uma criança incapaz de bastar-se a si mesma; um menino que tinha fome, que sentia frio, que gritava, que chorava, que sofria e que dependia totalmente de outrem.

Isto de sujeitar-se às necessidades da natureza e da completa dependência, era uma grande prova para a fé de Maria e de José. Dia após dia, eles deviam repetir para si mesmos que, aquele menino que vagia a seus olhos era o Filho do Altíssimo, aquele que rege o universo e por quem foram feitas todas as coisas. Por duas vezes, São Lucas nos diz que a Virgem Maria recolhia e meditava todas essas coisas em seu coração (2,19 e 51). É preciso dizer o mesmo de São José. Sem dúvida nenhuma, José conservava em seu coração tudo o que ele via e entendia a fim de refletir sobre o que o Senhor lhe ensinava através daqueles acontecimentos. Os fatos e gestos do Senhor são uma fonte inesgotável de meditação quando alguém sabe ir além das aparências e reencontrar a pessoa mesma de Jesus, Filho de Deus.

Mais tarde, Jesus irá dizer: “Abraão estremeceu de esperança ao pensar em ver o meu dia; e ele o viu, e essa foi a sua grande alegria” (Jo 8,56). E ainda: “Felizes os vossos olhos, porque eles vêem! Felizes os vossos ouvidos, porque eles ouvem! Em verdade, eu vos digo, muitos profetas e justos desejaram ver o que vedes, e não viram, entender o que  entendeis, e não entenderam” (Mt 13,17). Os ouvintes de Jesus não sabiam da sua felicidade. O povo de Nazaré, salvo exceção, ignorava o tesouro de ciência, de poder e de amor que se escondia em sua cidade. Felizes de José e Maria! Eles viram, eles entenderam, eles tocaram o Verbo da vida.

São Bernardo gostava de imaginar São José carregando Jesus aos ombros, durante a viagem de ida e retorno do Egito. Ele dizia que em Nazaré José precisou amiúde carregar Jesus no colo e sorrir para ele. Nisso ele é modelo dos corações em busca de Deus (Cant. 43,5). O abade de Claraval entrevia a felicidade de José em suas relações com Jesus na intimidade de seu lar. Depois de dizer que Deus revelara a José segredos que nenhum príncipe deste mundo jamais conheceu, ele acrescenta: “Em uma palavra, aquele que numerosos reis e profetas desejaram ver e não puderam, quiseram entender e não conseguiram, foi dado a José não somente para ver e entender, mas ainda para carregar, guiar seus passos, abraçar, cobrir de beijos, nutrir e velar sobre ele” (Mis. 2,16).   

 15 – POR  QUE  VOCÊS  ME  PROCURAVAM?

Os anos passam depressa, a alegria de Maria e de José renova-se sem cessar e cresce. O diálogo torna-se mais fácil com o menino que, pouco a pouco, assume uma parte ativa na vida da família. Ele faz pequenos serviços, acompanha sua mãe à fonte, ou ao encontro de outras crianças e outras mamães. A fonte, única para toda a cidade, torna-se facilmente um lugar de encontro e de comunicação das novidades. Lá, Jesus aprende a conhecer todos os moradores de Nazaré; ele faz perguntas e interessa-se por tudo. Cedo ele começa a freqüentar o ateliê de José e inicia-se no manejo das ferramentas.

Para José e Maria é uma tarefa delicada formar o coração e o espírito desse menino. É de pasmar uma tal responsabilidade. Jesus, como Filho de Deus sabia tudo, como filho de Maria tinha tudo a aprender. Felizmente, sabemos que as luzes do Espírito Santo nunca faltaram a Maria e a José, e que Jesus sempre esteve à altura de seus deveres. Isso está afirmado no Evangelho, lá onde está escrito que “o menino enchia-se de sabedoria e a graça de Deus estava com ele” (Lc 2,40). Logo, tudo se passou como se Jesus não fosse mais que uma criança bem dotada e que crescia para a satisfação de todos.

Deus não doa suas luzes a não ser progressivamente, e a experiência não ilumina a não ser a rota já percorrida. Deus intervém quando menos se espera e sua passagem é sempre desorientadora. José e Maria tomaram consciência tragicamente de sua condição frente a Jesus quando ele, inesperadamente, retira-se para longe deles. Jesus tinha crescido; era agora um adolescente cheio de vida que cada um reivindicava para si. Ele acompanhava José na sinagoga, sabia as orações usuais, lia a Escritura, participava das festas e trabalhava já como um jovem. Para José e Maria era a vida de família ideal: união de corações e de espíritos num  amor e numa felicidade sempre renovados.

As festas, para os judeus, tinham uma importância capital, especialmente a da Páscoa, a mais importante. Era um acontecimento religioso, uma festa familiar, uma concentração nacional, uma ocasião de grandes festejos públicos, de um banho de multidão cosmopolita, de reencontro com parentes e amigos, enfim, além de tudo, de transações comerciais fáceis e frutuosas. Desde sua mais tenra idade, as crianças ouviam contar o que se passava em Jerusalém. Inflamava-se a imaginação delas e, desde que tinham condições, tomavam parte nessas caminhadas. Quando ficavam cansadas, os parentes as carregavam nos ombros.

São Lucas nos diz que Maria e José iam todos os anos a Jerusalém para a festa da Páscoa. As mulheres não estavam obrigadas a essa viagem, vai daí que Maria fazia mais do que as outras para o serviço do Senhor. Concluímos que Jesus não esperou completar doze anos para acompanhar seus pais a Jerusalém. Estritamente, ele só estaria obrigado às prescrições da Lei a partir dos doze anos. A partir dessa idade, um menino judeu era considerado um jovem responsável por seus atos e capaz de cumprir todas as observâncias religiosas.

É evidente que o Evangelho atribui uma grande importância à peregrinação de Jesus a Jerusalém quando tinha doze anos, pois é o único evento documentado entre o retorno a Nazaré e o início da vida pública. O texto reza: “Seus pais iam todos os anos a Jerusalém para a festa da Páscoa. Quando ele tinha doze anos, eles subiram segundo o costume da festa” (Lc 2,21). Parece que José e Maria deviam ficar em Jerusalém durante todo o tempo da festa, pois está escrito “segundo o costume da festa”; isso queria dizer oito dias de festividades. Somando-se três ou quatro dias para ir e outros tantos para voltar, perfaz-se uma ausência de pelo menos uns quinze dias.

Era uma viagem de mais ou menos cento e vinte quilômetros, a serem vencidos em três ou quatro etapas. A peregrinação realizava-se em fins de março ou começo de abril, quer dizer, na mais bela das estações na Palestina. O céu era de uma pureza excepcional, o ar puro e vivo, os campos cheios de perfumes primaveris e do canto dos pássaros, por toda parte flores e colheitas que amareleciam. A caminho, cantavam, conversavam, contavam as novidades, faziam novas amizades. A alegria dilatava os corações e essa alegria renovava-se e crescia a cada ano.

Desde a mais tenra infância, os judeus eram banhados num ambiente extraordinário na ocasião da festa de Páscoa. Sem dúvidas, alguém podia comer o cordeiro pascal em família, na sua aldeia, mas nada eqüivalia à festa celebrada com todo o povo em Jerusalém. A finalidade não era rezar em Jerusalém, nem comer em Jerusalém, mas sim rezar juntos, comer juntos, cantar juntos, alegrar-se juntos. Nada melhor para forjar uma alma comum e estreitar os laços de amizade. Muitas discórdias e inimizades desapareciam assim, como por encanto.

Punham o pé na estrada com entusiasmo; cantavam os salmos em ordem crescente ou decrescente, em particular o salmo 121: “Oh, que alegria quando me disseram: vamos à casa do Senhor!” Em Jerusalém visitavam o templo, reencontravam parentes e amigos, rezavam juntos, purificavam-se, participavam de cerimônias religiosas, dos cortejos, dos cantos de multidão. Melhor do que tudo, comiam o cordeiro pascal por família ou por grupos; recordavam os fatos maravilhosos da saída do Egito e todas as intervenções de Deus por seu povo.

Quais eram os sentimentos de José e de Maria durante as festas da Páscoa judaica? Não sabemos. Para eles a saída do Egito tinha um sentido especial e enchia-lhes a lembrança de fatos antigos e recentes. E para Jesus, que significado teria o cordeiro pascal? Era ele o verdadeiro cordeiro pascal, logo, o outro não passava de figura. Seu próprio sangue devia selar o pacto da nova e eterna aliança.

Naquele ano, José e Maria deviam estar em festa mais do que de costume por causa dos doze anos de Jesus. Parentes e amigos devem ter ido felicitar o adolescente e seus pais. Um tal acontecimento provoca algumas reuniões de família a mais, com comidas delicadas e cantos de circunstância. Tudo se passa em euforia e ninguém podia suspeitar das provas que viriam a entristecer o amanhã de uma tão grande festa. Amiúde o Senhor, para revigorar a nossa fé e estimular a nossa bravura, semeia alegrias em abundância aos  nossos passos antes de colocar alguma tribulação extraordinária.

O último dia de festa era tão solene quanto o primeiro. Todos estavam cansados, saturados de orações, bêbedos de entusiasmo, orgulhosos de pertencer ao povo do Senhor. Os Hosana! Fundiam-se mais belos dentro da fumaça do incenso e o odor acre dos sacrifícios. No dia seguinte, punham-se em marcha numa balbúrdia indescritível. O grande número de pessoas, de camelos, de asnos e de animais abatidos para os sacrifícios e o abastecimento, sem contar as carcassas de bois e de cordeiros imolados os milhares, tudo concorria para aumentar a confusão nas ruas estreitas e nas escadas. Era impossível agrupar-se na partida e era preciso reencontrar-se já a caminho, ou em alguma parada.

Na manhã da partida, Jesus estava com seus pais. Durante toda a festa, ele não mostrara nenhum problema, de forma que não era preciso ocupar-se dele mais do que o necessário. Ele já tinha idade de tomar iniciativas. Além disso, parentes e amigos disputavam sua presença. De modo que José e Maria não se preocuparam por não vê-lo junto deles a caminho de casa. Caía a tarde, quando todos os peregrinos de Nazaré agruparam-se para comer e repousar, José e Maria esperavam que Jesus fosse aparecer; mas ele não veio. Um pouco surpresos, mas não ainda inquietos, eles perguntaram a todos aqueles que encontraram. Todos conheciam aquele menino maravilhoso, mas ninguém o havia visto no caminho.

Foi primeiro a surpresa, depois o temor e por fim a angústia. Por que aquela ausência? O que deviam fazer? Em momento algum, Maria e José puseram a hipótese de Jesus ter-se perdido no caminho e que, cedo ou tarde, os alcançaria em Nazaré. Um atraso de alguns dias não os teria amedrontado. O que, então, eles temiam? Um acidente? Aconteciam tantos naquela confusão, mas isso eles teriam ficado sabendo. Alguém teria avisado os parentes, ou levado o ferido até eles. Um rapto? Era sempre de temer-se durante as festas, onde tantos indesejáveis se misturavam com os peregrinos. E ainda, José e Maria lembravam-se da profecia de Simeão: o menino seria um sinal de contradição; lembravam-se de Herodes e do massacre dos inocentes; eles tinham renunciado a viver na Judéia por causa de Arquelau, e Arquelau continuava no poder. Não teria Jesus caído em suas mãos?

À inquietude que lhes vinha pela ausência de Jesus somava-se outra, igualmente dolorosa, a situação em que ele se encontraria. De repente, um vazio imenso cresceu dentro deles. Até aquele momento, eles não tinham vivido senão por aquele menino, e eis que, de um só golpe, ele desaparecia de suas vidas, quiçá para sempre. Perguntavam-se se não seria por culpa deles, se eles teriam feito o bastante por ele. Pode alguém fazer o bastante para Deus? Eles eram tão felizes com aquela criança! Agora, suas vidas não tinham mais nenhum sentido. Porque teria ele partido sem avisá-los?

Uma outra fonte de inquietude, sem dúvidas a principal, vinha das Escrituras, que eles haviam lido e relido juntos tantas vezes. Os profetas anunciaram um Messias sofredor, escarnecido, torturado, relegado entre os malfeitores. A paixão já teria começado? O pensamento de que Jesus poderia estar sofrendo aquilo que os profetas tinham anunciado, e que sofria sem eles, partia-lhes o coração. Ou então, como havia acontecido com certos profetas, teria Jesus sido elevado pelo Espírito de uma forma misteriosa sem que ninguém soubesse onde ele seria deposto, nem quando reapareceria? Todas essas suposições eram incapazes de devolver o menino a seus pais.

José e Maria sofreram, então, aquilo que os místicos experimentam em suas noites escuras, o tormento da ausência de Deus. Para eles, a noite foi sem sono, pensemos bem. Desde o raiar do dia, eles retomaram o caminho de Jerusalém perguntando a todos os passantes. A segunda noite foi ainda mais dolorosa do que a primeira. Eles não tinham nenhum clarão de esperança. Enfim, no terceiro dia, eles ficaram repletos de emoção. Podemos compreender com facilidade os seus sentimentos. Todos os andaimes de sua imaginação, vinham abaixo diante de uma realidade tão simples. Jesus estava lá, sentado pacificamente em meio aos veneráveis doutores, sem se preocupar com o drama que tinha provocado.

São Lucas escreveu: “Ao cabo de três dias, eles o encontraram no templo, sentado entre os doutores, ouvindo-os e interrogando-os. Todos aqueles que o escutavam, ficavam estupefatos com a sua inteligência e as suas respostas” (Lc 2,46). Foi então que José e Maria pararam um momento para ouvir e admirar. Aquele não era o círculo habitual de alunos ao redor de um mestre; Jesus tinha-se tornado o centro de interesse para todo um grupo de intelectuais.

José reflete e contempla; Maria, mais intuitiva e espontânea, intervém de repente, com o risco de parecer indiscreta aos olhos dos doutores. Ela é humana demais e só escuta o seu coração de mãe. Só lhe importa o seu filho; ela lhe diz: “Meu filho, por que você fez isso conosco? Veja, seu pai e eu estivemos procurando por você cheios de angústia!” (Id.). Jesus não responde a essa pergunta. Ele não tem que dar explicações. Faz ele mesmo outra pergunta; cabe a ele tomar a iniciativa: “Por que vocês me estavam procurando? Vocês bem sabem que eu me ocupo dos afazeres de meu Pai!” Diante daqueles doutores da Lei, que perscrutam as Escrituras e esperam o Messias, Jesus declara que ele tem um Pai a quem ele deve consagrar toda sua existência. Assim, ele convida discretamente seus ouvintes a procurar a sua verdadeira identidade e a concentrar sua atenção no essencial. 

16 – TESTEMUNHAS   DO   ESSENCIAL

O incidente da perda de Jesus no templo arrisca não ser mais do que um fato diferente, de importância mínima, ao lado de seus milagres, de sua paixão e de sua ressurreição. Jesus adolescente dá provas de independência, ele escapa da atenção de seus pais, provoca a admiração dos mestres em Israel e, diante das repreensões que sua mãe lhe dirige, ele volta a ser um menino obediente e sem histórias. Mas não é só isso. Se esse fato é relatado por São Lucas, é porque nos diz respeito. O evangelista nos diz que ele se documentou com cuidado, a fim de que nós pudéssemos, graças aos fatos que ele nos conta, perceber a solidez da nossa crença.

É útil para nós estudar os Evangelhos procurando harmonizá-los, a fim de descobrir, na medida do possível, a sucessão cronológica dos fatos. É mais necessário ainda, estudar cada Evangelho em particular para discernir, se não o plano, pelo menos o propósito que tinha cada evangelista ao ordenar os fatos desta ou daquela maneira. Eles escreveram para nós. São Lucas precisa que os fatos que ele nos transmite são os fundamentos da nossa fé. Quer dizer que o episódio de Jesus no templo tem um valor teológico.

Como já vimos, Lucas reuniu de ponta a ponta duas visitas de Jesus no templo. Nesses dois eventos, José ocupa um lugar importante. Da primeira vez, Jesus é apresentado no templo de Jerusalém por José e Maria. Da segunda vez, Jesus, aos doze anos, acompanha livremente seus pais. Nos dois episódios, Maria e José agem de acordo. São os dois únicos fatos que Lucas nos relata entre o nascimento em Belém e o início da vida pública, isto é, durante trinta anos. Parece que é para não dissociar essas duas visitas históricas de Jesus no templo que São Lucas omite a visita dos magos. Para ele, as palavras e os atos de Jesus aos doze anos são uma verdadeira teofania.

É preciso repetir sem cessar que Jesus não veio para destruir a Lei, ou o templo, mas para levar à perfeição tudo aquilo que existia. Ao levar Jesus ao templo de Jerusalém, Maria e José cumpriram a Lei de Moisés, isto é, eles a levaram à perfeição. Com Jesus, ela estava cumprida, acabada, ela atingira o seu objetivo, ao mesmo tempo que sua perfeição; logo, ela não tinha mais razão de ser e podia desaparecer. Ao aceitar as moedas de prata, os sacerdotes declaravam oficialmente que os primogênitos estavam isentos de um serviço pessoal para o templo e que eles estavam substituídos pelos levitas. Ora, Jesus não era um primogênito como todos os outros. Ele era o primogênito por excelência, pois o seu nascimento era eterno.

Jesus não tinha que pagar nenhum resgate, pois ele mesmo era o resgate, não somente de todos os primogênitos mas de toda a humanidade. Depois dele, ninguém mais teve que pagar; a Lei tinha alcançado seu coroamento. Jesus não foi remido, ele é que remiu os outros. Em lugar de olhar todo o resgate, os sacerdotes contentaram-se com as cinco moedas de prata e deixaram para nós todo o tesouro. Contentando-se com tão pouco, eles enriqueceram o mundo inteiro pela eternidade. São Pedro dirá: “Vocês foram alforriados… não pelo ouro ou pela prata perecíveis, mas pelo sangue precioso de Cristo, o cordeiro sem mancha” (1Pe 1,18).

José e Maria foram até Jerusalém, não para pagar as cinco moedas de prata, pois para isso a viagem não era necessária, mas sim, como precisa São Lucas, para oferecer o menino ao Senhor. Aos doze anos, Jesus ratifica aquela oferenda. Ele foi livre e voluntariamente. Ele inaugura sua missão. A sua mãe que lhe pergunta as razões de sua maneira de agir, ele responde com outra pergunta: “Por que vocês me estavam procurando?” Pergunta desconcertante, se ele a fez. Jesus sabia muito bem que para Maria e José era um dever procurá-lo, que era uma necessidade de seus corações. Depois, toda a Bíblia é um convite a procurar o Senhor.

As palavras seguintes de Jesus dão uma nova luz, mesmo se aumentam a obscuridade: “Vocês não sabiam que eu devo cuidar daquilo que é de meu Pai?” Ele os convida a entrar no seu mistério. Mais tarde ele dirá: “Para que vocês saibam que o Pai está em mim e que eu estou no Pai” (Jo 10,38). E ainda: “Você não acredita que eu estou no Pai e que o Pai está em mim?” (Jo 14,10). Não há que procurá-lo alhures. Ademais, a pergunta de Jesus é um convite a confiar nele sem reservas. Por que procurá-lo cheios de aflição, se ele está sempre presente por seu poder e por seu amor?

José e Maria precisaram confessar que eles não compreenderam nada, naquele momento. Eles estavam emocionados demais para situar-se no plano onde Jesus já vivia. Isso é reconfortante para nós que devemos amiúde procurar o Senhor quando ele se esconde. Seus caminhos são sempre incompreensíveis. Ele requer de nós, não que tudo compreendamos, mas que depositemos nele uma total confiança. São Lucas repete naquela ocasião, que a Virgem Maria guardava tudo em seu coração. Com isso, insinua discretamente, de onde ele tirou sua documentação. E convida também a nós, a guardarmos tudo aquilo que o Senhor faz em nossa vida.

O profeta Malaquias havia anunciado: “Logo virá em seu templo, o Senhor que vocês procuram” (Mal 3,1). Aplica-se esse texto à apresentação de Jesus no templo por José e Maria. Mas ele convém ainda mais à vinda de Jesus ao templo aos doze anos. Mostra-o a continuação do mesmo texto: “Ele purificará os filhos de Levi e os depurará como o ouro e a prata. Eles serão por Deus, e oferecerão as oblações como se deve” (Mal 3,3). A terceira visita de Jesus ao templo, registrada por São Lucas, será para expulsar os vendilhões (Lc 19,45).

Jesus subiu a Jerusalém para encerrar o antigo Testamento e inaugurar a nova Aliança. Ele quis associar José e Maria a essa obra de renovação do mundo, pela sua presença e, mais particularmente, pela sua agonia moral durante os três dias de uma ausência inexplicável. Ele mesmo é o templo, é verdade; o templo de pedras não é mais indispensável. Jesus dirá à Samaritana: “A hora vem, e é agora, em que os verdadeiros adoradores hão de adorar o Pai em espírito e em verdade” (Jo 4,23). Jesus é o templo, ele é também o sacerdócio. Tudo está recapitulado nele. O templo poderá desaparecer e o sacerdócio levítico apagar-se, nada estará perdido. As sombras dão lugar à luz.

 Aos doze anos Jesus inaugura sua missão profética e sacerdotal. Por essa mesma data já inaugurou sua missão de precursor. Também ele tinha doze anos, e devia vir igualmente a Jerusalém durante as festas de Páscoa para apresentar-se ao Senhor. Ele era tido muito especialmente como membro de uma família sacerdotal. Ele já estava no deserto. Havia compreendido que o sacerdócio levítico de que fora revestido não tinha mais razão de ser. Ele tinha algo de melhor para fazer do que servir ao templo. Na solidão esperava que Deus lhe desse um sinal anunciando a vinda do Senhor.

Tudo está a caminho e ninguém desconfia. Jesus declara a seus pais que uma só coisa conta agora para ele: realizar os desígnios de seu Pai. Para provar essa disposição através de atos, “ele desceu com eles e veio para Nazaré, e era-lhes submisso” (Lc 2,51). É desconcertante: Jesus vem restaurar todas as coisas e contenta-se de obedecer; João vem para anunciar Jesus ao mundo, e esconde-se no deserto.

Ao dizer: “Vocês bem sabem que eu devo ocupar-me daquilo que é de meu Pai”, Jesus afirma sua transcendência. Ele é o “totalmente outro”, o Filho do Pai, todo próximo de sua mãe e ao mesmo tempo a uma distância infinita dela. Durante a guerra, um grupo de turistas visitava a então U.R.S.S. conduzido por uma jovem guia que professava o ateísmo. Certa manhã, o grupo participa de uma missa; a moça que os acompanhava ficou muito comovida. Após a missa, ela pede explicações sobre os ícones, especialmente um deles onde se encontrava a cena de Jesus em meio aos doutores. Depois de lhe contarem a passagem do Evangelho, ela disse: “Então, foi ali que ele provou que ele era…” a palavra Deus sussurra em seus lábios. Aquela luz em uma atéia impressionou todo o grupo. A partir daquele momento, a moça não era mais a mesma com aqueles que lhe tinham sido confiados.

Essa cena de Jesus no templo é a última onde se faz menção de São José em suas relações com Jesus e Maria. Seu nome voltará outras vezes no Evangelho, mas não será mais do que reflexões das pessoas ou determinações sobre sua genealogia. Na frase: “Era-lhes submisso” está dito tudo de São José, suas outras atividades no aquém importam muito pouco. Ele é aquele a quem o Filho de Deus submeteu-se voluntariamente. Ele é o chefe da sagrada família, por ordem de Deus, de acordo com a vontade do Pai e do Filho. Ele é chefe não para dominar, mas para servir. Ao tomar a responsabilidade sobre Jesus e Maria, José não fez senão obedecer a Deus.

A obediência de Jesus a José e a Maria é um tema inesgotável de meditações. Essa obediência é mencionada no momento em que Jesus sai da adolescência para tornar-se um jovem homem, e manifesta sua independência ficando no templo sem que seus pais o soubessem. É voluntariamente que ele se faz obediente, e é em nosso favor. São Paulo dirá mais tarde: “Ele se humilhou a si mesmo ao fazer-se obediente até à morte e morte de cruz” (Fil 2,8). Uma tal obediência não foi sujeição forçada, mas acolhida amorosa da vontade de seu Pai. Seu amor transformava tudo. A obediência de Jesus a José e a Maria era uma manifestação de seu amor por eles, ao mesmo tempo que uma conseqüência de seu amor por seu Pai celeste.

As palavras: “era-lhes submisso” devem ser unidas com: “eu devo cuidar das coisas de meu Pai”. Sua obediência será a realização dos desígnios do Pai, tanto quanto sua permanência no templo. Isso significa que José e Maria não lhe deviam ordenar senão aquilo que o Senhor queria. Daí a responsabilidade de José e Maria ao exigir isto ou aquilo de Jesus. Eles tinham o dever de manter-se sem cessar à escuta do Espírito Santo. Pode-se dizer que essa responsabilidade é a mesma de todos aqueles que exercem uma autoridade na terra. Ninguém tem o direito de exigir de outros aquilo que não é da vontade de Deus, senão não haverá mais obediência e sim escravidão. O serviço enobrece, a escravidão degrada.

Aquele que tem a responsabilidade de conduzir a outros não é necessariamente o mais santo, nem o mais elevado em dignidade. Em um navio, o capitão é o “único mestre depois de Deus” segundo a consagrada expressão, mesmo se entre os passageiros encontrar-se um rei ou o chefe de um exército. Não se lhe pede nada além da competência e da vigilância requeridas em tais casos. Assim é com José. É ele que deve conduzir sua barca; pede-se a ele somente que adquira a competência necessária e esforce-se ao máximo para o bom êxito de sua missão.

O capitão, apesar de ser o mestre, não tem a liberdade de conduzir seu navio para onde quiser; ele deve dirigir-se para onde seus passageiros desejam chegar. Quando eles desembarcarem, ele estará quites com eles. Para José, ele é solidário com seus passageiros e sua existência está ligada indefectivelmente à deles. Não é um rei ou um general que ele conduz, mas o rei dos reis e a rainha do mundo. Não lhe é pedido simplesmente que os conduza a bom porto, mas que os ajude a desabrochar sua própria personalidade a fim de cumprir com perfeição os desígnios de Deus sobre eles.

17 – NA   VIDA   DE   CADA   DIA

Com certeza, Deus poderia prescindir de São José para dar seu Filho ao mundo; e paralelamente, poderia passar sem Maria. Ele nunca está pobre de meios, nem é condicionado pelas pessoas, ou por algum evento. Ele tudo dispôs segundo a sua vontade com sabedoria e amor. Entre os muitos caminhos pelos quais o Filho de Deus poderia vir até nós, ele escolheu o da Virgem Maria, noiva de José. Por certo, fê-lo com toda a liberdade, e para fazer transbordar a medida de seu amor.

Se o Filho de Deus tivesse vindo ao nosso mundo já na idade adulta, com poder e majestade, ele ter-se-ia imposto pelo exterior; não teria sido um de nós e nós jamais teríamos sido filhos de Deus. Ele teria sido o rei da humanidade, o chefe inconteste, que teria conduzido os homens a seu destino malgrado todos os obstáculos ou resistências. Mas não teria sido nosso irmão. Deus não quer impor-se nem à nossa inteligência como verdade, nem ao nosso coração como amor. Ele quer um movimento espontâneo de coração e de espíritos rumo a ele. Ele gosta de fazer-se procurar, deixar-se encontrar e provocar nosso amor.

As intervenções de Deus são sempre extremamente discretas. Ele pede o consentimento de Maria para vir nela. E vem ao mundo de noite, à parte, longe da multidão e do conforto. Maria e José não disseram nada; são os anjos que anunciam a novidade aos pastores; é o Espírito Santo que revela sua presença a Simeão; é uma estrela que esclarece os magos. Ele tem apenas luz o bastante para provocar um interesse simpático e pôr a caminho os corações retos. A discrição é a primeira marca da presença do Espírito Santo. Muita gente lastima não encontrar no Evangelho uma só palavra de José. Gostariam de conhecer melhor sua fisionomia moral e suas reações em meio aos acontecimentos que transtornaram sua vida. O silêncio do Evangelho nos diz mais do que diriam longos discursos. Nem José, nem Maria tinham a missão de apresentar ao mundo seu menino; não teríamos aceitado o testemunho deles. Sua vocação era acolher o Verbo de Deus, Luz incriada, e esconder o seu brilho por um tempo. Eles não fracassaram em sua missão.

José não tinha nada a dizer ao mundo. Por outro lado, que poderia ele ter dito que se aproximasse um pouco que seja da realidade? Todos os mistérios vividos por Maria e por José não podem ser expressos em linguagem humana. Aquilo que eles experimentaram de Deus no mistério encarnado, não podiam traduzir em palavras; nós seríamos, além disso, incapazes de compreender. Teria que ser o Verbo, Palavra eterna de Deus, a exprimir-se ele mesmo quando quisesse e como julgasse melhor. Além disso, se José e Maria houvessem falado, teriam os judeus dado algum crédito às palavras deles? É pouco provável, pois esperavam um Messias completamente diferente.

Mas, fizeram melhor do que falar, eles agiram. José fez por nós mais com seus atos do que poderia ter feito com suas palavras. Em plena liberdade e com total conhecimento de causa, ele aceitou ligar sua vida à do Verbo encarnado. E aceitou todas as renúncias que essa situação peculiar teria ocasionado a ele. Assumiu a responsabilidade pelo menino, não temporariamente, mas incondicionalmente. Ele aceitou ser o pai do Menino-Deus, pai de um gênero único, pai por ordem de Deus, pai profético, realissimamente pai. Ao mesmo tempo que dava a Maria um coração de mãe, o Espírito Santo formava em José um coração de pai.

A própria Maria, nada falou para tornar conhecido o seu Filho. Ela cantou o seu reconhecimento no Magnificat ao afirmar que o Senhor realizara maravilhas em seu favor, e que o amor e a misericórdia do Salvador estendiam-se de geração em geração. Ela deu somente um único conselho que nos foi conservado no Evangelho, e que nos concerne a todos: “Façam tudo o que ele lhes disser!” (Jo 2,5). São João situa essa frase nas bodas de Caná; ela se dirige em primeiro lugar aos servidores do festim, depois aos apóstolos recentemente escolhidos. Naquele momento, eles não estavam ainda bem certos sobre aquilo que deviam fazer. Nossa Senhora lhes diz: “Façam tudo o que ele lhes disser, tenham confiança nele, vocês não se arrependerão de engajar-se no seu seguimento!”.

José nos dá a mesma consigna, não por palavras, mas por toda sua existência. Ele concentrou todas as suas energias físicas, afetivas, espirituais, intelectuais e outras, em uma aventura aparentemente insana. Ao aceitar que o Messias nascesse em seu lar, ele comprometeu sua tranqüilidade e todo seu porvir. Dia após dia, na rotina do dever quotidiano, ele consentiu em todas as renúncias que decorriam de sua situação desconfortável. Seu mérito foi ter confiado no Senhor dentro de uma existência sem horizontes, nem grande interesse.

O Evangelho não nos diz nada sobre as ocupações de Maria e de José; eram aquelas de todo mundo. Eles santificaram-se em meio a circunstâncias que nada tinham de extraordinário. Nisso, eles podem perfeitamente ser imitados. Entre todos os santos, eles são até mesmo os mais fáceis de se imitar. Alguns dizem que os santos são mais para se admirar do que para se imitar; não é bem assim. Eles não são santos por terem feito tais ou tais coisas, mas por terem cumprido com perfeito amor a vontade do Senhor.

Os estilitas não são santos porque viveram em cima de uma coluna; Joana d’Arc não foi canonizada porque viveu entre soldados e salvou a França; Teresa de Lisieux não é santa por ter entrado no Carmelo aos quinze anos, nem Bernadete por ter visto a santa Virgem em Lourdes. A vida mais dura ou a mais meritória, não é necessariamente a mais santa. A Igreja reconhece a santidade de seus filhos não pelo desempenho deles na mortificação ou na dedicação ao próximo, mas porque eles cumpriram com perfeição a vontade do Senhor no meio em que viviam: e também porque Deus manifesta neles sua ação pelo bem da Igreja.

Nenhum santo cumpriu com tanta perfeição a vontade do Senhor como Maria e José, logo nenhum é tão imitável quanto eles. Mais os santos estão próximos do Senhor, mais eles brilham no mundo. Ninguém esteve tão próximo do Verbo encarnado como Maria, sua mãe, e depois dela José, logo, ninguém é capaz de refletir como eles aquela luz, que é o Verbo encarnado. Ao entrar na intimidade de Maria e de José nós nos aproximamos da luz; podemos desfrutá-la melhor e refleti-la sobre os outros em maior abundância.

Imitar não quer dizer copiar, isso seria um fingimento desajeitado e inútil. Deus, que não cria duas folhas de árvore iguais, não quer santos rigorosamente idênticos; cada um deve ser santo da maneira que Deus quer. As pedras preciosas são diferentes na cor e no valor; todas elas refletem a mesma luz do sol, mas com coloridos extremamente variados. Assim é com os santos e os escolhidos. O Senhor não faz nada em série; em suas obras há sempre harmonia e diversidade. O brilho de uma, não ofusca o das outras; muito pelo contrário, valorizam umas às outras. A Virgem Maria e São José farão todos os eleitos participarem de seu esplendor.

José e Maria, na vida de cada dia em Nazaré, eram como todos os seus contemporâneos, com a mais, uma intensa atividade interior. A Virgem Maria ocupava-se de seus afazeres como todas as outras mulheres; ela girava a mó, joeirava a farinha, sovava a massa para fazer bolachas, e as cozia sobre pedras aquecidas até ficarem brancas. Oh! Aquele pão feito por Maria e servido na mesa de Nazaré para Jesus e José! Aquele pão, ganho por José para conservar no coração do Salvador o sangue que um dia ele haveria de derramar por nós. Na Eucaristia nós recebemos a carne e o sangue de Cristo. É a carne e o sangue que Maria deu ao Filho de Deus e que José nutriu com seu trabalho.

E além da lida prosaica que cabe a uma mãe de família pobre: cozinha, louça, limpeza, colheita de frutos e de legumes, confecção de roupas, provisão de água, etc., havia ainda aquilo que se pode chamar de relações sociais. Maria tinha vizinhos e vizinhas, e parentes mais e menos próximos. Havia os choques inevitáveis; a inveja é de todos os tempos e de todos os países. O povo de Nazaré não era pior do que os seus contemporâneos, e no entanto, nós o vemos enfurecer-se contra Jesus unicamente por inveja. Depois de ficarem cheios de admiração ao ouvir suas palavras na sinagoga, eles se encheram de furor, e levaram Jesus até o alto de um morro para precipitá-lo abaixo (Lc 4,14-30). Seria mesmo surpreendente, que os moradores de Nazaré não tivessem lançado algumas palavras agridoces na direção de Maria, de Jesus e de José. No Oriente, as bênçãos e as maldições chovem facilmente.

José estava ainda mais exposto a essa situação do que Maria, por causa do seu trabalho que o obrigava a numerosas e freqüentes relações. Nós só sabemos indiretamente qual era a sua profissão. Quando Jesus põe-se a ensinar na sinagoga de Nazaré, o povo fica chocado e diz: “De onde lhe vêm essa sabedoria e esses milagres? Não é ele o filho do carpinteiro?” (Mt 13,55). Ou ainda: “Não é o carpinteiro?” (Mc 6,3). A profissão de Jesus e de José era a mesma. Jesus trabalhou com José e continuou o mesmo trabalho. Ele é designado como operário e filho do operário, sem que se dê noções muito exatas sobre o seu gênero de trabalho. Precisou-se um pouco mais ao traduzir operário por carpinteiro.

 O grego emprega o artigo, o que é importante. Não se trata simplesmente de um operário, mas do operário, isto é, de alguém bem determinado. É a ele que todo mundo recorre para as necessidades do trabalho e da casa. É principalmente o trabalho com madeira em todas as suas utilidades: vigamento, móveis, instrumentos para cultivo, como arado, trenós para debulhar o trigo, forcados para joeirar, etc. Para todo esse trabalho, bastava um instrumental rudimentar: serrote, machado, martelo, plaina, etc. A perfeição do trabalho decorria menos da qualidade da ferramenta empregada, do que da engenhosidade do artesão.

José não era um especialista que se isola ciumento de sua arte; era um artesão hábil a serviço de todos. Sua casa, ou melhor, seu ateliê era um lugar de reencontro para todos aqueles que precisavam consertar algo. Casa aberta a todos, onde todo mundo sentia-se à vontade. Todo tipo de trabalho era pedido a José, quer se tratasse de construções, de manutenção ou de reparação. O trabalho, não se fazia somente no ateliê, mas também ao longe, procurando a madeira e as outras coisas necessárias, ou atendendo clientes que requeriam trabalho em suas casas ou consertos no campo.

Aquela disponibilidade para todas as necessidades dos outros, era para José a conseqüência de sua disponibilidade ao Senhor. Nem tudo era sempre rosas para ele. Havia os clientes descontentes, os impacientes que queriam passar na frente dos outros, aqueles que não queriam pagar ou que precisam ser sempre cobrados; vez ou outra a falta de serviço, ou um muito difícil. Todos problemas que conhecem aqueles que vivem de seu trabalho e que dependem dos outros. 

18 – O   SANTO   DE   TODOS

Depois do reencontro no templo, José não é mais mencionado nos Evangelhos, a não ser em função das origens de Jesus. É sobretudo São Lucas que, após haver dito que o menino “crescia em sabedoria e em estatura”, fala do ministério de João Batista às margens do Jordão, e de seu encarceramento por Herodes. Mostra-nos Jesus, batizado também ele, em oração, enquanto o céu se abre, o Espírito desce sobre ele como uma pomba, e uma voz proclama: “Você é o meu Filho bem-amado” (Lc 3,22). Em seguida acrescenta: “Jesus, no momento de iniciar (seu ministério), tinha cerca de trinta anos. Ele era filho, como se acreditava, de José, filho de Heli… segue uma genealogia ascendente que remonta não somente a Davi e a Abraão, mas até Adão e até Deus.

Para explicar as numerosas diferenças que aparecem entre essa genealogia e aquela dada por São Mateus, alguns pensaram que São Lucas teria apresentado a genealogia de Cristo através da santa Virgem. Eles traduzem: “Acreditava-se que ele era filho de José, mas na realidade, por Maria, filho de Heli”, etc. Heli seria um segundo nome de Joaquim. Essa hipótese engenhosa não procede, pois entre os judeus as genealogias seguem somente a linha masculina. Os costumes judeus de filiação adotiva e de paternidade legal são suficientes para explicar as variações de filiação. Uma viúva sem filhos deveria casar-se com o parente mais próximo de seu marido. Os filhos nascidos dessa segunda união, levariam o nome do primeiro marido e seriam seus herdeiros.

No Evangelho de São João, o nome de José aparece duas vezes, e cada uma dessas duas circunstâncias deixa entrever que José era conhecido muito longe de Nazaré. Na estréia de sua vida pública, Jesus chama seus primeiros discípulos. Primeiro André, em seguida João, que não é nomeado, depois Pedro, e enfim Felipe. Este, feliz de ter encontrado Jesus, diz a Natanael: “Aquele de quem está escrito na Lei de Moisés e nos profetas, nós o encontramos: é Jesus, o filho de José, aquele de Nazaré” (Jo 1,45). Ora, Felipe era de Betsaida, do outro lado do Lago, bem ao norte, e portanto muito longe de Nazaré.

A segunda menção é muito interessante. A multidão que havia seguido Jesus sobre a montanha, do outro lado do Lago de Tiberíades, e tinha-se saciado de pão e de peixe, percebeu sua partida e pusera-se procurá-lo. Jesus, de volta a Cafarnaum, acolhe a multidão e tenta ajudá-los a deixar o alimento terrestre para aspirar ao verdadeiro pão da vida. Quando ele fala do “pão de Deus que desce do céu”, os judeus respondem: “Dê-nos sempre desse pão”. Então Jesus esclarece: “Eu sou o pão da vida”. De repente,  o entusiasmo da multidão tomba; há murmurações: “Não é ele aquele Jesus, filho de José? Nós não conhecemos seu pai e sua mãe? Como ele pode dizer: eu desci do céu?” (Jo 6,42). Assim, essa gente vinda de tão longe, conhecia José e também Maria. 

Em São Mateus e em São Marcos, a menção de São José durante a vida pública de Jesus levanta problemas exegéticos. Jesus ensina na sinagoga de Nazaré; seus compatriotas admiram-se de sua sabedoria e de seus milagres, depois ficam chocados. Donde as suas reflexões desabusadas: “Não é aquele o filho do carpinteiro? Não se chama a sua mãe Maria, e seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas? E suas irmãs não se encontram em nosso meio? Então, de onde lhe vem tudo isso?” (Mt 13,55). E em seguida mais resumido: “Não é ele o carpinteiro, o filho de Maria, o irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão?” (Mc 6,3).

São Marcos, para designar Jesus não disse ‘o filho do carpinteiro’, mas ‘o carpinteiro’. Conclui-se que Jesus trabalhava com São José na mesma profissão e que foi seu sucessor. Infere-se que José não estava mais neste mundo no momento da vida pública de Jesus. Ademais, o fato de ter o próprio Jesus abandonado o ateliê, privando assim os habitantes de Nazaré dos serviços que lhes prestava, foi sem dúvidas por alguma animosidade de seus compatriotas.

O ponto mais importante é a menção dos irmãos e irmãs de Jesus. Quatro irmãos são enumerados, aos quais ajunta-se um certo número de irmãs. São Marco diz ‘suas irmãs’, São Mateus ‘todas as suas irmãs’. Trata-se, certamente de irmãos e irmãs em sentido amplo, isto é, de primos e primas, de sobrinhos e sobrinhas. Na Bíblia há o costume de designar assim os parentes próximos. Não havia uma palavra para designar unicamente os irmãos em sentido estrito, isto é, filhos do mesmo pai e da mesma mãe. Assim, Abraão diz a Lot, que era seu sobrinho: “Nós somos irmãos” (Gn 13,8).

Alguns Padres do Oriente, seguindo os apócrifos, aceitaram a hipótese de um primeiro matrimônio de José. Assim os irmãos do Senhor seriam meio-irmãos. Essa solução, que parece resolver tudo, só faz aumentar os problemas. Se José teve filhos de um primeiro casamento, o que seria completamente legítimo, esses filhos é que seriam, de direito, seus herdeiros privilegiados. O primeiro filho seria o verdadeiro herdeiro de Davi, de preferência ao Cristo. Nesse caso, a descendência davídica do Messias cairia pela base.

Alguns adversários da Igreja quiseram ver nos irmãos e irmãs do Senhor a prova que José e Maria haviam tido filhos depois do nascimento de Jesus. São Jerônimo, particularmente versado no estudo da Sagrada Escritura, reagiu vigorosamente contra uma tal suposição. No seu tratado contra Helvídius, ele escreve: “Que dizes? Que Maria não permaneceu virgem? Eh, bem! Eu afirmo mais do que tu negas. Eu afirmo que não somente Maria permaneceu sempre virgem, mas que José, também ele, ficou virgem, a fim de que, de um casamento virginal nascesse um filho virgem… ficou virgem com a Virgem, aquele que mereceu ser chamado pai do Senhor” (Ad. Hel. 19). Ele demonstra assim, que o problema dos irmãos e das irmãs resolve-se facilmente sem o recurso à hipótese de um primeiro casamento de São José.

Para pôr em dúvidas a virgindade de Maria e de São José aponta-se um versículo de São Mateus: “Ele não teve relações com ela, até que ela deu à luz um filho” (Mt 1,25). Isso estaria a supor que eles poderiam ter tido mais tarde. Um tal argumento não prova nada, pois a palavra que nós traduzimos por ‘até que’ não tem o sentido que nós lhe damos em português, de data limite, mas é um estado que perdura. Os Padres nos dizem que é suficiente ler os passos paralelos. Assim, diz-se que Mikal, mulher de Davi, “não teve filhos até que morreu” (2Sam 6,23). Poder-se-ia concluir que os teve depois? Jesus nos diz que ele “estará conosco até o fim do mundo” (Mt 28,20). Quer dizer que depois não estará mais?

Os motivos da castidade de Maria e José são-nos claramente indicadas desde os primeiros séculos da Igreja pelos Padres tanto do Oriente como do Ocidente. Orígenes escreve: “O corpo de Maria, escolhido para pôr no mundo o Verbo, segundo estas palavras: o Espírito Santo virá sobre ti e a virtude do Altíssimo cobrir-te-á com sua sombra, não tinha mais que conhecer contatos humanos depois que o Espírito Santo desceu sobre ela e que a virtude do Altíssimo a cobriu com sua sombra” (In Mat. 10,17).

   Santo Epifânio diz o mesmo: “José e Maria eram ambos perfeitamente justos. Quando José compreendeu que a criança concebida em Maria era do Espírito Santo, ele não pôde atrever-se, após uma símile intervenção de Deus, ter comércio carnal com aquela que havia merecido carregar aquele que o céu e a terra não podem conter em sua glória” (Haer. 3,78,8). Assim, é o próprio Jesus a razão primeira da castidade de Maria e de José. A ajunta: “Se é em Jesus, ainda nos nossos dias, que as virgens encontram a força de perseverar e de conservar-se puras, com quanto mais razão não devemos nós atribuir essa fidelidade a José e a Maria?” (Ib.).

Do ponto de vista simplesmente humano, é evidente que a castidade de José e de Maria traz problemas. Por outro lado, se não soubéssemos que o menino que eles criaram deu provas irrefutáveis de sua transcendência e de sua origem divina, poderíamos colocar em dúvidas a perfeita castidade deles. Como perceberam os Padres da Igreja, é o menino a causa e a explicação daquela maternidade e daquela paternidade de um gênero único. É o Verbo encarnado a razão de ser, e o sustento da castidade não somente de Maria e de José, mas ainda de todos aqueles e aquelas que se consagram ao serviço do Senhor. O mesmo se diga da castidade conjugal. O matrimônio cristão não é uma bela cerimônia que passa, mas é um sacramento, isto é, um sinal da presença santificante de Jesus Cristo. Matrimônio e virgindade estão orientados rumo ao grande mistério do Filho de Deus que veio desposar a nossa natureza humana no seio da Virgem Maria.

Este mistério da íntima união da natureza divina e da natureza humana no Cristo não é a penhora de Deus sobre a nossa humanidade, uma espécie de conquista, é sim um verdadeiro matrimônio. Para que um casamento seja válido e enriquecedor, é indispensável que tenha um consentimento livre e consciente de uma e de outra parte. Deus é sempre livre, ele não é condicionado por ninguém. É ele que toma a iniciativa de mandar o anjo Gabriel até a Virgem Maria. Nossa humanidade está presente na pessoa de Maria que aceita aquilo que a liturgia do Natal chama de “troca admirável”. Ela assume a responsabilidade daquele grande evento, em nome de todo o gênero humano. Como Maria já está ligada a José, ela o engaja em sua aventura. Maria pertence a José, como José pertence a Maria, e Jesus pertence tanto a um como a outro.

Por vezes, chama-se a sagrada família de “a trindade terrena”. A expressão é correta, desde que bem compreendida. Não é uma trindade de substituição, nem uma segunda trindade, mas o sinal visível da Trindade invisível. Pode-se e deve-se dizer o mesmo de todas as famílias cristãs, guardadas as devidas proporções. Na Trindade celeste, está o Espírito Santo que é o elo de amor entre o Pai e o Filho; é ele que intervém na Virgem Maria para a encarnação do Filho de Deus. Maria torna-se a “esposa do Espírito Santo”, e José é como a sombra do Pai.

De José, terceira pessoa da trindade de Nazaré, é preciso remontar à primeira pessoa da Trindade incriada, o Pai, a mais misteriosa das três pessoas. É no silêncio de São José que nós tocamos novamente o silêncio eterno do Pai. Nas relações insondáveis de José com o Pai celeste, nós somos completamente imersos no mistério de José. É no Pai que precisamos encará-lo e acolhê-lo em sua missão de Pai-substituto do “Pai de quem deriva toda paternidade no céu e sobre a terra” (Ef 3,15).

Esta relação com o Pai dos céus é uma fonte de força e de alegria para os pais e as mães de família cristãos. Eles têm uma ligação toda especial com Maria e com José. Ao querer a encarnação, Deus quis Maria e José, ele quis que seu Filho fosse o santificador do matrimônio. É excitante e espantoso pensar que Deus nos quis e amou desde toda a eternidade. São Paulo dirá aos cristãos de Éfeso: “Deus não nos escolheu em Cristo desde antes da criação do mundo? … Não nos predestinou, por amor, a tornarmo-nos seus filhos adotivos por Jesus Cristo?” (Ef 1,4-5).

José foi escolhido para ser o esposo ideal, logo, harmonizado àquela que é a esposa do Espírito Santo. Ele realizou desde então tudo aquilo que comporta um perfeito e ideal casamento, por ser o esposo da Imaculada. A encarnação é revelação do tríplice amor do Pai, do Filho e do Espírito Santo em Jesus, em Maria e em José.

19 – RUMO   À   CASA   DO   PAI

É bom meditar o mistério da Santíssima Trindade para compreender todas as riquezas de amor que Deus encerrou dentro da pequena casa de Nazaré em Jesus, Maria e José. Que essa contemplação de um mistério insondável não nos impeça, no entanto, de descobrir o valor e a beleza muito humanas da existência quotidiana de Jesus, Maria e José. Para Jesus é assaz fácil, pois a continuação da sua vida mostrou claramente aquilo que ele era, e deu um real valor e muito relevo à sua vida de aprendiz de carpinteiro. Para Maria, é mais ou menos a mesma coisa. Seu lugar nas bodas de Caná e ao pé da cruz, e também as decisões dos concílios atraíram a atenção sobre ela.

Para São José, é tudo diferente. O silêncio que o envolve, sua existência à sombra do Pai celeste, sua missão de esconder por um tempo a virgindade de Maria e a divindade de Jesus, muito contribuiu para esfumar o relevo de sua personalidade. E o mais grave, os devaneios dos apócrifos deformaram-na completamente. O resultado é que muita gente considera José como ‘um homem bom’, um pouco simplório, utilizado por Deus para as necessidades da causa. Uma simples tela de proteção, o factótum, o coitado que trabalha para os outros.

Bem outra é a realidade. José é um descendente de Davi; ele tem a delicadeza de sentimentos e a aristocracia do coração. O anjo o saudou “filho de Davi”, como saudou Maria “cheia de graça”. O mensageiro de Deus trata a cada um pelo título que convém. José sempre decifrou, no momento presente, o desígnio de Deus sobre ele e sobre sua família. Ele é o servidor do Espírito.

José, sem dúvida nenhuma, havia herdado as virtudes de sua raça: coragem, generosidade, um não sei quê de altivo e de solitário que completava sua grandeza de alma. O coração de rei “ébrio de Deus”, encontrou-se e desenvolveu-se no seu descendente. O chefe que Deus deu a Maria e a Jesus tinha uma grande estatura de alma; seu silêncio é pleno de grandeza. José é um grande inspirado, um grande místico. Como todos os místicos, ele está só, sua boca fechada sobre segredos magníficos. Aquele silêncio era adoração do hóspede íntimo de seu coração; aquela habitação divina dentro do coração de José era ainda mais misteriosa do que o nascimento de um Deus em seu lar.

Agrada-nos ver José trabalhando em seu ateliê com Jesus adolescente como aprendiz. José ensina a trabalhar àquele que construiu o universo. Os dois, entretidos em sua obra; os clientes que vêm e que vão… Uma palavra de quando em quando, algumas palavras de bom senso e de sabedoria, talvez uma expressão aborrecida, ou um dito herdado dos antigos. O trabalho com a madeira é um trabalho nobre; o verdadeiro artesão é duas vezes artista. A madeira é um material vivo que guarda a alegria no coração; é uma matéria que canta sob a ferramenta do trabalhador;  ela preserva sua juventude e sua sensibilidade. Com a madeira é preciso uma grande atenção pois, como tudo o que é vivo, ela reserva surpresas: às vezes um nó desencontrado, ou uma veia inoportuna.

José deve estudar longamente seu pedaço de madeira a fim de aproveitá-lo ao máximo, evitando toda perda inútil. Ocorre um verdadeiro dom de perspicácia e de psicologia, o que confere aos seus menores gestos, algo de humano e respeitoso.

Saber compreender a madeira significa aprender a compreender os homens. Podemos ver José interrompendo seu trabalho à entrada de um cliente e levantando os olhos para ele. Claudel faz dizer a Pierre de Craon: “Eu conheço a madeira boa como um perito, e da mesma maneira os homens e as mulheres”. José não se ilude sobre as pessoas que vêm; ele acolhe a todos com benevolência e completa liberdade.

Se o trabalho com a madeira e as relações profissionais refinaram sua personalidade, o que dizer dos contatos íntimos e diários com Jesus e com Maria? O Pe. Buzy, ao falar da intimidade quotidiana de José e de Maria, escreve: “Do contato com aquele lírio, José só podia pegar sua brancura; do contato com aquela rosa, seu perfume; do contato com aquela luz, seu clarão; do contato com aquele fogo, sua chama” (Saint Joseph, p. 128). As relações de José com Maria não passavam de uma preparação. Que dizer daquilo que José recebeu de Jesus? As tardes em Nazaré deviam ser deliciosas: os entretenimentos íntimos, as orações e sobretudo os silêncios.

Aqueles silêncios eram bem mais do que mudez. Aquele silêncio era o estado de corações que se compreendem e se comunicam para além das palavras. Silêncio que era ao mesmo tempo respeito pela personalidade do outro e pela sua vocação especial. Cada um guardava o segredo do rei e respeitava o mistério do outro. Aquele silêncio, respeitador do segredo alheio, tinha sido para José e Maria uma causa de penosos sofrimentos no início de suas relações, quando Deus interviera inopinadamente. Nem um nem outro queria impor sua maneira de ver. No silêncio de Nazaré tudo era diferente; havia uma total comunhão na luz.

Mesmo entre corações que se amam, não existe no aquém transparência total; amiúde eles escapam um do outro. José e Maria sem dúvidas devem ter feito a experiência dessa impossibilidade de partilha em certos momentos. Deus é ciumento; há profundidades onde a alma encontra seu Senhor e onde não é admitida nenhuma outra presença humana. É um ensinamento para os casais cristãos: saber deixar o outro para Deus, e aceitar não compreender tudo sobre o seu caminho interior. O Senhor não conduz duas pessoas no mesmo passo, nem pelos mesmos caminhos. É necessário que cada um dos esposos deixe o outro desabrochar-se segundo o papel divino sem ficar chocado por isso. Com o passar dos anos, José pode ter sentido uma necessidade maior de solidão para formar uma consciência mais nítida da presença de Deus em seu lar.

José é um homem entre os dois Testamentos. Ele leva no coração todas as promessas do Antigo, com a certeza de que tudo se cumpriu, e ao mesmo tempo a alegria da Nova Aliança que ele tem ali, debaixo de seu teto. José, o homem de Deus, é posto ao lado dos profetas. Ele tem a seu favor todo o passado; seu sangue é aquele dos patriarcas. Herdeiro de sua fé, ele segue pacífico aonde Deus o manda. Firme em sua esperança, jamais deu um passo em falso. Essa firmeza na fé permitiu à Virgem Maria desempenhar o papel que Deus lhe havia confiado. Com toda segurança, ela pôs no mundo o Filho de Deus e encontrou-se em uma situação ideal para sua educação. A presença e a fé de José deram ao Verbo encarnado a sombra para esconder sua divindade e o aconchego para desenvolver sua humanidade.

O lugar de José é importante para Maria e para Jesus, e não o é menos para nós. Os Padres da Igreja puseram-se a sublinhar que José não é simplesmente o sustento para Maria e o nutrício para Jesus, mas que ele é, para nós, a testemunha privilegiada da virgindade de Maria e, em conseqüência, da origem divina de Jesus. Era uma necessidade do coração, seu maior interesse, e um estrito dever, velar sobre aquela que ele havia livremente escolhido como noiva. E porque ele era justo, não podia faltar a esse dever. Tal como Tomé é uma testemunha privilegiada da ressurreição de Cristo, José o é sua encarnação. Assim é e assim permanece para nós.

São Bernardo resume o pensamento dos Padres a esse respeito. Escreve: “Assim como Tomé, duvidando e apalpando, tornou-se uma testemunha irrecusável da ressurreição do Senhor, também José, ao tomar Maria como sua noiva, e interessar-se com zelo ciumento pelos  mínimos detalhes de seu comportamento, durante o tempo que a teve sob sua guarda, tornou-se a garantia mais segura de sua castidade. Desta forma, descobrimos uma harmoniosa conveniência entre a dúvida de Tomé e a confiança de José… Eh, sim! Pobre homem que eu sou, de bom grado creio mais na ressurreição de Cristo pelo testemunho de Tomé que duvidou e tocou, do que pelo de Cefas que acreditou na palavra. Igualmente para a virgindade de Maria, eu me fio muito mais de José, seu esposo, seu guardião instruído pela experiência, do que da própria Virgem que tem só o testemunho de sua consciência para defender sua causa” (Mis. 2,12).

Jesus, Maria e José são inseparáveis entre si. É a mesma missão que eles cumpriram, cada um à sua maneira. O Cristo Jesus começa sua obra redentora e santificadora nas primícias da Igreja que são Maria e José. Quem poderá dizer os frutos produzidos pelos ensinamentos de Jesus em corações tão ávidos de sua palavra? José deu muito a Maria e a Jesus durante os longos anos passados na intimidade de Nazaré. E certamente recebeu deles muito mais. Diz São Francisco de Sales que José e Maria eram como dois espelhos convergentes que se refletiam mutuamente a luz que eles recebiam de Jesus.

Na Sagrada Família, tudo existe em comum. Jesus pertence a Maria, que pertence a José, que pertence tanto a um como a outro. Da mesma forma, tudo existe em comum na Igreja cujo berço está em Nazaré. É o belo dogma da comunhão dos santos. Jesus é a cabeça de seu corpo místico que é a Igreja. Maria é a Mãe, como a proclamou o Papa Paulo VI no encerramento do Concílio. Ela é Mãe do Cristo total, isto é, da cabeça e dos membros. Por causa da mesma fé, José tem também ele seu lugar privilegiado na Igreja de Cristo, pois Jesus pertence a José como a nenhum outro depois de Maria.

São Francisco de Sales explica essa pertença de Jesus a José: “Eu costumo dizer que, se uma pomba, levando no bico uma semente, deixá-la cair num jardim, não se dirá que a palmeira que ali nascer pertencerá ao dono do jardim? Ora, se assim é, quem poderá duvidar que, se o Espírito Santo deixou cair aquela divina semente dentro do jardim fechado e selado com chumbo que é a Santíssima Virgem, jardim que pertencia ao glorioso São José, como a esposa pertence ao esposo, então aquela divina palmeira pertence tanto e quanto ao grande São José?” (Entr. 19). E acrescenta: “São José só tinha vivido por amor de Jesus e de Maria, e não podia morrer senão de amor”.

Quando, onde e como José deixou esta vida? O Evangelho não diz absolutamente nada e a tradição não é unânime. Os apócrifos fazem-no morrer em Belém, ou mesmo como mártir em Jerusalém. É verossímil que tenha terminado sua vida em Nazaré, entre os braços de Jesus e de Maria. Ele é o padroeiro da boa morte.

Escavações feitas no convento das Damas de Nazaré, no início do século XX, trouxeram à luz os fundamentos que poderiam ser da casa ocupada pela sagrada família ao retornar do Egito. Os muçulmanos, antigos donos do terreno, falavam de um túmulo sagrado e de um “guardião das ruínas”.

Por grande que seja a esperança, a morte resta sempre uma separação dolorosa, mesmo a de São José. Maria e Jesus sentiram profundamente essa separação. Jesus chorou seu amigo Lázaro, ficou comovido de compaixão pela viúva de Naim. Sem nenhuma dúvida, Jesus disse a José o mesmo que falou para Marta: “Eu sou a ressurreição e a vida”.

A missão de José não havia terminado. Ela continuava de uma outra forma. Pela sua presença nos lugares misteriosos onde as almas dos justos esperavam a vinda do libertador, José podia afirmar que aquele libertador, ele o vira, ele o carregara em seus braços, e ele virá nos libertar! Ele estava lá para acolher a alma do Cristo Jesus na tarde da sexta-feira santa. Ele participou de sua ressurreição na manhã de Páscoa, sem que ninguém saiba de que forma. José e Jesus são tão intimamente unidos, que eles são inseparáveis.                      

20 – SOMBRA   E   LUZ

Talvez já tenhamos lido, mesmo da pena de autores sérios, que a devoção a São José é de introdução recente e que pouca coisa se encontra sobre ele nos Padres da Igreja. Essa idéia, muito difundida, deve ser fortemente relativizada, pois ela é desmentida pelos fatos. Há, nos Padres da Igreja, uma bela quantidade de textos referentes a São José. Certo, não é preciso procurar na igreja primitiva um panegírico do esposo de Maria, e menos ainda um tratado didático a esse respeito. São José, como convém, nunca é estudado à parte, mas sempre em relação com o grande mistério da encarnação.

A primeira preocupação dos Padres foi apresentar a pessoa de Jesus Cristo em toda sua verdade. O tema principal da pregação apostólica é: ‘Jesus, Filho de Deus, morto e ressuscitado pela salvação do mundo”. Bem depressa, surgiram perguntas sempre mais exatas sobre sua verdadeira identidade. As heresias nascentes obrigaram os Padres a um estudo mais aprofundado da pessoa mesma do Cristo e de sua dupla natureza, divina e humana. A essa questão está ligada fortemente a virgindade de Maria e, como conseqüência, o lugar de São José na vida do Cristo e da Virgem.

São José não é um personagem que tem uma missão independente, que se possa estudar separadamente, como a dos profetas ou dos patriarcas. Ele está estreitamente ligado ao mistério da vinda do Filho de Deus a este mundo. Ele não está à margem do mistério, ele é parte integrante. Foi comentando o Evangelho e defendendo a verdadeira fé que os Padres falaram de São José. Eles começaram a explicar a dupla genealogia, a questão do casamento e da virgindade de Maria, o papel de José, os motivos de sua angústia, a fuga para o Egito, o reencontro no templo e aquilo que concerne aos irmãos e irmãs do Senhor.

Todas essas questões foram objeto de estudos, de troca de idéias, de polêmicas muito freqüentes. Pouco a pouco, a doutrina foi-se tornando exata graças aos concílios e aos doutores. Houve hesitações quanto aos motivos da angústia de São José, quanto à época do casamento em relação à data da anunciação, e quanto à possibilidade de um primeiro matrimônio, mas nunca sobre a sua santidade, nem sobre sua castidade durante o tempo em que viveu com a Virgem Maria. O objetivo principal dos Padres era pôr em plena luz a pessoa do Cristo, Filho de Deus e filho de Maria. Uma noção exata da maternidade da Virgem, põe em melhor luz a divindade de seu filho.

Essa maternidade pôs desde logo o problema da virgindade de Maria e da castidade de José. Essa questão sempre pareceu de extrema importância, não simplesmente por causa do valor mesmo da virgindade que, tudo somado, é relativo aos motivos que a sustêm, mas em razão das conseqüências que dela decorrem para a interpretação das Escrituras. Cada época viu florescerem novos e velhos erros teológicos, mas também um aprofundamento real das verdades reveladas, especialmente do papel confiado por Deus a Maria e a José no mistério do Verbo encarnado e de sua Igreja.

Para dar uma idéia da veneração que tinham os Padres da Igreja por São José, basta citar algumas linhas de Santo Efrém no seu primeiro sermão de Natal: “José! Quem poderá louvá-lo como convém? A ele que tu, o mais amoroso dos pastores, não recusaste tomar como pai de adoção!” Efrém explica que a dignidade de José deriva de suas relações estreitas com a Virgem Maria, de quem foi verdadeiro esposo, e com Jesus, de quem foi pai num sentido bem real, mesmo se não carnal. Ele sabia agradecer por isso: “José abraçava com ternura o Filho de Deus que se manifestava a ele como uma criança. Ele se enchia de respeito, pois sabia que aquele menino era Deus. Por um tal benefício de que fora cumulado, entregava-se à ação de graças… Quem me haveria de julgar digno de uma tal honra! Eis que o Filho de Deus é dito meu filho!”

Efrém é um poeta, um místico, um teólogo da Igreja síria; é reconhecido como doutor da Igreja universal. Sua doutrina sobre São José é, portanto, de uma grande importância. Ele gosta de felicitar José pela honra que Deus lhe fez e pelas alegrias que desfrutou: “Bem-aventurado és tu, ó justo José, porque ao teu lado cresce aquele que se fizera criancinha, tendo-te por medida. O Verbo habita sob teu teto sem deixar, no entanto, o seio do Pai… Aquele que era Filho do Pai, é chamado filho de Davi e filho de José”.

Muitos Padres deram uma grande importância ao fato de Jesus ter sido inscrito como filho de José quando do recenseamento. Isso servia-lhes de argumento para demonstrar que o Cristo veio verdadeiramente a este mundo e que José transmitiu a ele a descendência de Davi. Tertuliano afirma que nos seus tempos, o texto era conservado em Roma. Esse “registro” dá a Santo Efrém a ocasião de sublinhar que o Cristo foi inscrito não como filho de Maria, mas como filho de José. E exclama: “Nasceu sem José, aquele que é filho de José!” Depois, dirigindo-se ao Cristo, ele sugere-lhe o dever de recompensar José por tudo aquilo que fez por ele: “É conveniente que, em troca, tu realces a sua dignidade. Isso se impõe tanto mais porque ele foi uma testemunha escolhida pela tua divindade, pela tua inocência e pela tua santidade” (Serm. Noël 1).

Ao lado dos Padres, há uma fonte importante sobre São José, mas essa fonte é um tanto quanto agitada. Trata-se dos apócrifos. É preciso falar deles pois, desde o início, eles tiveram uma grande influência no Oriente e, depois da Idade Média, no Ocidente. Uma quantidade de idéias falsas sobre São José, especialmente sobre sua idade e sobre um primeiro casamento, vêm desses escritos apócrifos. São Jerônimo, um dos mais eruditos em Sagrada Escritura entre os Padres da Igreja, não teme chamar tais idéias de sonhos e de delírios.

A palavra apócrifo quer dizer doutrina fechada, misteriosa. Designa-se sob o nome de apócrifos um certo número de escritos concernentes tanto o Antigo quanto o Novo Testamento. São livros que se apresentam como revelações, mas que jamais foram reconhecidos como inspirados por Deus. É uma doutrina paralela à revelação. Nasceram da necessidade de completar as lacunas da Escritura a respeito dos fatos e das pessoas. A desgraça é que a imaginação tem um papel grande demais. Muito facilmente também introduzem doutrinas esotéricas.

Dois desses escritos referem-se especialmente a São José: o Protoevangelho de Tiago e, sobretudo, a História de José, o carpinteiro. Essas duas obras influenciaram a teologia, a liturgia, e especialmente a arte. Tais relatos parecem a nós, ocidentais, sem exatidão histórica, totalmente lendários e cheios de inverossimilhanças. O Oriente os vê com outros olhos, vê um recurso para sublinhar uma idéia importante. Sob certos aspectos, pode-se comparar aqueles relatos, aos “mistérios” jogados na Idade Média, sob os pórticos das nossas catedrais. Nenhuma atenção foi dada à cronologia ou à topografia. Pode-se encontrar personagens que nunca se viu mas que têm algo a nos dizer.

Porque existem inegáveis inverossimilhanças nesses relatos, é preciso ir além do sentido literal para descobrir a alegoria e o sentido oculto. As verdades importantes que querem sublinhar, através de argumentos desajeitados, são: a transcendência de Cristo, a eminente santidade da Virgem Maria e sua perpétua virgindade, a elevada virtude de São José e o dever que temos de honrá-lo.

Os fatos relatados resumem-se assim. Joaquim e Ana não tinham filhos, por isso lamentam-se e rogam ao Senhor. Um anjo mostra-se a cada um deles e anuncia-lhes a grande alegria do nascimento de uma filha que será a mãe do Messias anunciado pelos profetas. A criança é toda santa desde o seu nascimento e para prepará-la ao seu futuro papel, ela é oferecida no templo por seus pais. O sumo sacerdote a recebe, e outras jovens a acompanham com castiçais. 

Aplica-se, assim, a Maria os versículos do salmo: “Ela é conduzida ao rei, as virgens a seguem; acompanham-te suas companheiras; em meio a alegria e júbilo elas penetram no palácio do rei” (Sl 44,15). A Imaculada, templo vivo do Senhor, é oferecida para que Deus a prepare para sua missão, da qual todos seremos beneficiados. Para as liturgias do Oriente, essa apresentação de Nossa Senhora é uma grande festa. Aquilo que se festeja é menos a permanência de Maria no templo do que sua disponibilidade à vontade divina ao mesmo tempo que a ação santificadora do Espírito Santo na alma da menina.

Maria é introduzida no santuário, e até mesmo no santo dos santos. Ela tem fome de Deus, os anjos a nutrem. Quando se torna moça, ela não pode mais ficar no templo. O que fazer? Os padres põem-se de acordo. Um anjo aparece a Zacarias e ordena-lhe convocar todos os viúvos a fim de que o Senhor designe aquele a quem ele escolheu para ter a guarda da moça. Aí é que vem a história dos bastões, ou das varas, colocadas dentro do santuário. O bastão de José cobre-se de flores. Ou então, é uma pomba que o aponta. É ele o escolhido do Senhor. Ele hesita, depois aceita receber em sua casa Maria que tem doze anos.

A anunciação acontece quando Maria tem quinze anos, no templo ou em Nazaré. José está distante, em sua carpintaria. Quando ele volta, repreende Maria que foi para casa de Isabel. Ao voltar, José lamenta-se, batendo a cabeça no chão, mas o anjo da alegria, Gabriel, intervém trazendo a felicidade para José e Maria. Nova provação para os dois: os padres percebem a gravidez de Maria e põem-se em cólera contra ela e contra José. Remete-se o caso ao julgamento de Deus e Maria deve beber a “água amarga”. Ela aceita a prova que vai demonstrar a todos sua perfeita virgindade. A bebida envenenada não lhe causa nenhum mal.

José vai registrar-se com Maria e o menino. Chega o dia do nascimento. Maria abriga-se em uma gruta enquanto José procura uma parteira. Ele encontra Salomé, mas quando ela chega, o menino já nasceu. Salomé, admirada, constata a virgindade da mãe. Assim, através de argumentos desajeitados, afirma-se a integridade virginal de Maria antes e depois do parto. Salomé irá apegar-se à sagrada família e seguirá junto para o Egito e Nazaré.

Como a longevidade é um sinal de santidade e uma prova dos favores divinos, segundo a Bíblia, a morte de José é narrada aos cento e onze anos, para mostrar sua superioridade sobre o antigo José que morreu com cento e dez anos. Sua morte é a entrada numa vida imperecível. José recomenda-se aos arcanjos Miguel e Gabriel, bem como ao seu anjo da guarda. Ele faz uma profissão de fé na divindade de Jesus e invoca todos os seus títulos. Morre entre Jesus e Maria, na manhã do dia 26 de abîd, o nosso mês de julho.

Na História de José, o carpinteiro, o relato é colhido da própria boca de Jesus, no momento de sua ascensão aos céus. Ele conta toda a história de sua infância e faz o elogio de Maria e de José. Pede aos seus apóstolos que façam São José conhecido ao pregarem o Evangelho. Promete abençoar e recompensar a todos aqueles que praticarem boas obras em lembrança desse santo. Por exemplo, dar pão a um pobre em sua honra, ajudar os viúvos e estrangeiros no aniversário de sua morte. E também uma bênção especial é reservada àqueles que derem o nome de José a seu filho.

Esse livro, cuja redação remonta aos séculos IV e V, exerceu muita influência e teve numerosas traduções. Malgrado os defeitos, ele testemunha uma grande veneração por São José.

21 – ATRAVÉS   DOS   SÉCULOS

A razão profunda da eminente santidade de José e de sua preeminência sobre todos os outros santos, depois da Virgem Maria, encontra-se em suas relações estreitas com o Cristo Jesus. Os profetas anunciaram o Messias, mas não o viram, nem ouviram. Os apóstolos e os outros santos estão orientados para o serviço da Igreja, corpo místico de Cristo. Os mártires de todos os tempos deram testemunho de sua vinda. José e Maria estão ordenados ao serviço da pessoa mesma do Cristo, cada um de maneira diferente, mas complementar. A grandeza de sua existência não vem de coisas grandiosas que eles mesmos tenham feito, mas das grandes coisas que Deus realizou através deles. Nossa Senhora disse isso no seu Magnificat: “O Onipotente fez por mim grandes coisas!” (Lc 1,49). Isso vale também para José.

Desde o início, os Padres da Igreja compreenderam o lugar todo especial de São José. É através dele que o Cristo realiza todas as promessas feitas a Abraão e a Davi. Ao deixar José na sombra, ou ao negligenciar sua presença, solapa-se pela base os fundamentos escriturísticos da nova Aliança. É sempre em relação com o Evangelho, isto é, com o mistério do Verbo encarnado, que os Padres encararam o papel de São José.

Sob a influência dos apócrifos, os Padres gregos assaz facilmente aceitaram a hipótese de um primeiro casamento de São José, como explicação para a presença dos irmãos e irmãs do Salvador. Também por isso, eles admitem uma idade relativamente avançada para São José. Em contrapartida, eles são unânimes em admitir a virgindade perpétua de Maria e, em conseqüência, a perfeita castidade de José durante seu casamento com a Virgem. O título de a Sempre Virgem, assinala uma das grandes prerrogativas de Maria, como a Toda Santa. Nos ícones, Maria vem sempre marcada com três estrelas, uma na testa e uma em cada ombro. É o sinal da presença santificadora da Trindade que preservou a virgindade de Maria antes, durante e depois do parto. Conseqüentemente, é a afirmação da perfeita castidade de São José.

Os Padres latinos, no seu conjunto, rejeitam a idéia de um primeiro casamento de São José. Tal hipótese parecia-lhes inútil para explicar a presença dos irmãos e irmãs do Salvador. Máximo de Turim fala de São José como de um homem jovem, iuvenis. É verdade que este termo, iuvenis, aplica-se a pessoas tanto de trinta e cinco, como de vinte anos. Em geral, os Padres não se ocupam da idade de José e de Maria, é o mistério do Verbo encarnado que rouba toda sua atenção. São Jerônimo parte em guerra contra os apócrifos para demonstrar que suas lendas não têm nenhum fundamento histórico e são amiúde carentes de bom senso. Por que, por exemplo, inventar a presença de uma parteira na noite de Natal, quando o Evangelho precisa que Maria enrolou ela mesma a criança antes de recliná-la na manjedoura?

A questão da angústia de São José retém longamente a atenção dos Padres. Eles vêem aí uma dupla vantagem para nós. Primeiramente, uma grande lição de prudência. José, diante de um acontecimento que o ultrapassa, não julga, não condena, mas espera a luz e age de maneira a não prejudicar ninguém. Seja por ter uma suspeita verdadeira, seja por pressentir o mistério ou conhecê-lo já, ele não agiu com leviandade, nem proferiu julgamento. Em segundo lugar, a presença de José é uma garantia para nós. Não se pode encontrar testemunha melhor da castidade de Maria e de seu parto. Assim, o testemunho de José dado por São Mateus, acrescenta-se ao da Virgem Maria transmitido por São Lucas.

E tem mais. Os Padres afirmam uma verdadeira ação do Espírito Santo em São José, conjuntamente àquela operada em Maria para a encarnação. Santo Agostinho escreve: “Aquilo que o Espírito Santo fez, fê-lo para os dois. Justo é o homem, justa a mulher. O Espírito Santo, repousando sobre a justiça dos dois, deu um filho a todos os dois” (Serm. 51,c.20). Uma antífona da liturgia copta diz: “Ó Maria! Tu és o tesouro adquirido por José, dentro do qual se acha escondida uma pérola preciosa”. Um hino canta: “ Tu, pai do Cristo e esposo da Virgem, a ti paz e alegria pelos séculos dos séculos. Rogai ao Senhor por nós, ó nosso pai santo e justo”. E ainda: “Bênçãos a ti, cujas orações são incessantes e cuja intercessão é aceita por Deus”. São José foi festejado no Oriente, especialmente no Egito, muito tempo antes de sê-lo no Ocidente.

A Igreja copta, no Egito, sofreu muito com a dominação muçulmana, como todas as Igrejas do Oriente. Apesar de tudo, ela resta heroicamente viva. O Oriente, que engrandeceu São José desde cedo, não parece ter mantido seu ritmo. O Ocidente, em vez, após as grandes invasões bárbaras, concentrou vantajosamente suas reflexões sobre o esposo de Maria. A partir de então, houve um desenvolvimento progressivo e ininterrupto de seu culto. As invasões, derrubando o império romano, pareciam ter aniquilado a Igreja. Na realidade, não foi nada disso, pois a Igreja é divina. Sua doutrina teológica da encarnação conservou-se e desenvolveu-se admiravelmente. Efetivamente, a bela figura de São José não cessou de ser posta em luz.

Temos um testemunho digno de escolha na pessoa de Beda, o venerável, que viveu na Inglaterra, durante o século VII. Trata-se de um erudito, um exegeta, um historiador, um doutor da Igreja. Nutriu-se abundantemente dos Padres, e transmitiu-nos sua doutrina sobre São José, dando-lhe um toque pessoalíssimo, como mais tarde fará São Bernardo. Para ele, São José é um “acréscimo de graças”. Sua presença traz muito para Maria e para Jesus.

Beda nos diz que o Filho de Deus, em acordo com o Pai e o Espírito Santo, escolheu ele mesmo seus pais, o lugar e o tempo de seu nascimento. No templo, uma lição de verdade e humildade: “Seus pais não podiam compreender o mistério de sua majestade divina, ele mostrou-lhes uma submissão humana, para elevá-los gradualmente ao conhecimento de sua divindade”. Jesus desceu ao nível deles, para elevá-los ao seu.

Da família de Nazaré, Beda passa muito naturalmente à Igreja. Ele explica que o casamento de Maria e de José é o símbolo da união de Cristo e da Igreja. Como Maria, a Igreja é imaculada, ela nos concebe do Espírito Santo. Ela está visivelmente unida ao pontífice que lhe está à frente; a cada dia ela refaz a viagem realizada por José e Maria. Discretamente,  é inculcada a idéia de uma certa presença de São José dentro da Igreja, na pessoa do Papa; delineia-se a idéia de um padroeiro universal.

No século IX, na Alemanha, Raban-Maur é uma outra testemunha de escol para a teologia de São José. Ele também é um discípulo fiel, ao mesmo tempo que muito pessoal, dos Padres. Ele mostra São José como a antítese de Satan, o sedutor. Ele explica que no início, eram em quatro para a perdição do mundo: a mulher, o homem, a árvore e a serpente. Da mesma forma, para a redenção são em quatro também: Maria, o Cristo, a cruz e José.  

Raban-Maur tem uma bela frase sobre São José e a Igreja: “José esposo, que foi o guardião da virgindade de Maria, significa o Cristo esposo da Igreja cuja virgindade na fé é mantida por ele até o fim”. Como outros autores ocidentais, ele traduz a palavra faberaplicada ao Cristo e a São José, não por carpinteiro, mas por ferreiro. Ele baseia-se na palavra de João Batista: “É ele que vos batizará com o fogo e o Espírito Santo” (Mt 3,11). José é também o modelo do Pai celeste que constrói o mundo com o fogo e o Espírito.

Raban-Maur não é uma voz isolada. Encontram-se outros autores da mesma época que falaram de São José, especialmente em suas homilias. Precisamos citar em particular Smaragde, abade de Saint-Mihiel, diocese de Verdun. Ele insiste sobre a fé de José, que lhe dá uma grande confiança em Deus. E pergunta-se: “Por que Deus dirigiu-se a José em sonhos e não quando acordado?” Responde: “Porque José era um homem de grande fé e não precisava de uma revelação mais evidente da vontade de Deus” (PL 102,20).

O grande nome que domina o século XII, a respeito de São José é Bernardo de Claraval. Diz Bossuet que São Bernardo é o último dos Padres da Igreja, e que ele resume todos. Isso é particularmente exato naquilo que concerne a doutrina a respeito de São José. Ele soube condensar o que os seus predecessores tinham de melhor e exprimi-lo em fórmulas personalíssimas. Não compôs tratados didáticos, mas transmitiu os frutos de suas meditações sobre o Evangelho, na companhia dos Padres. Como Beda, ele encontra uma relação particular entre São José e o Papa. Cristo vive em sua Igreja; é ele que é perseguido quando se ataca a Igreja. O rei da França tinha saqueado as terras do Arcebispo de Sens, São Bernardo escreve ao papa e pede-lhe para intervir: “Que São José, aquele homem justo, sonhe com aquilo que ele deve fazer na hora atual pelo menino e pela mãe, pois neste momento, na província de Sens, estão procurando o Cristo para fazê-lo perecer.” (L.50).

São Bernardo domina seu século. Seus escritos exerceram grande influência sobre a espiritualidade dos séculos seguintes. Meditando mais profundamente o mistério do Verbo encarnado, segundo os textos do Evangelho, os autores, quer sejam teólogos ou místicos, descobrem melhor o lugar que Deus reservou a Maria e a José. É sobretudo no século XIII que o culto de São José desenvolve-se seriamente. Estando a doutrina solidamente estabelecida, pôde-se dar livre curso à piedade, pessoal ou comunitária, para com Cristo, a Virgem e São José.

O múnus de intercessão de Maria, foi bem depressa discernido e utilizado pelos Padres e as mais antigas liturgias. Prova-o o Sub tuum cujo texto primitivo remonta ao segundo século. Busca-se refúgio no coração da Virgem e roga-se que “nos livre de todo perigo”. Para São José, o seu papel mais discreto levou mais tempo para ser discernido e utilizado. Seu nome começa a aparecer nos martirológios do século X. No século XII, um abade irlandês dá-lhe este título: “José, uma torre contra as agitações, o querido nutridor do Cristo”. Em Autriche, a poetiza Ava fala de São José com grande estima. Ela é apaixonada pela sua pureza e pela sua fidelidade.

No século XIII, tudo se desenvolve. Os beneditinos de Saint-Laurent de Liège têm um ofício completo, com notação, para São José. A festa do santo começa a ser celebrada nas igrejas particulares, especialmente de carmelitas e franciscanos. São Boaventura fará muito pela difusão do culto a São José. O bem-aventurado Hermann-Joseph, da ordem dos premonstratenses, trabalha para que a festa de São José seja adotada na Igreja universal. Para isso, ele compôs um ofício completo. Santa Margarida de Cortona recita cem Pater em louvor a São José como nutridor do Salvador, e outros cem pela obediência que Jesus lhe devotou.

Uma das principais objeções colocadas para se recusar o estabelecimento de uma festa em honra a São José era a ignorância do dia de sua morte. A data do mês de julho, utilizada pelo egípcios, não foi conservada no Ocidente. Preferiu-se o mês de março, mais em harmonia com a Anunciação. O dia 19 de março foi escolhido, parece, por confusão com um outro personagem de mesmo nome, mártir na Síria. De fato, aquilo que celebramos a 19 de março, é menos a morte de São José do que sua vida na Igreja como modelo e intercessor.

22 – IRRADIAÇÃO UNIVERSAL

 Com as cruzadas, multiplicaram-se as relações entre Ocidente e Oriente próximo. Peregrinos e cruzados trouxeram numerosas relíquias cuja autenticidade é, por vezes, duvidosa. Aquela busca de relíquias demonstra um interesse real por tudo o que se refere ao Cristo e àqueles que viveram com ele. Autênticas ou não, as relíquias testemunham uma real devoção. Para aquilo que se refere à Virgem Maria e a São José, os objetos que trouxeram ainda vinham de antigas igrejas a eles dedicadas. Isso está a mostrar que, bem cedo, construíram-se igrejas em honra de Maria e de José para a maior glória de Cristo.

 Mantos, véus, cintos, anéis, bastões, etc., sem ser necessariamente os objetos usados por Maria e José, são amiúde reproduções daqueles mesmos objetos, que se tornaram lembranças a fim de aumentar a devoção. Ademais, vinham de um santuário venerado dentro do qual a presença de Maria e de José revelara-se benevolente. Algumas vezes, também, Ai!, houve lamentáveis velhacarias às quais se entregaram os Levantinos para ganhar mais dinheiro sem grande despesa. A maior parte dessas relíquias custou muito caro.

Pelo que toca a São José, precisamos citar em primeiro lugar um cinto. O Senhor de Joinville trouxe-o quando de sua expedição no Oriente com São Luís. Para conservar esse cinto, foi preciso construir uma capela dentro do castelo. Por devoção a São José, ele quis ser sepultado perto dessa capela. Joinville permanece um dos locais mais antigos de peregrinações por causa de São José, na França. Gerson diz que no tesouro de Notre-Dame de Paris, encontram-se as alianças de noivado de José e Maria. Numerosas são as igrejas que se gloriam de possuir um anel de São José. Citamos, em particular, Semur, na Borgonha, bem como Perugia e Siena, na Itália. Em Florença conserva-se um dos seus bastões e, em Roma, o seu manto.

É evidente que os inumeráveis favores obtidos junto a essas “lembranças” de São José, não são devidos ao objetos mesmos, que restam coisas insensíveis, mas à fé daquele que faz o pedido, e à intercessão de São José junto a Deus. Os objetos sagrados não são mais que um chamariz da presença da pessoa. O mesmo se diga das relíquias; elas não têm poder por si mesmas, mas sua presença é um chamariz da pessoa do santo, ao mesmo tempo que um estímulo para a fé e a confiança. Pelo que concerne as relíquias propriamente ditas de São José, elas são raríssimas. Essa ausência quase total de relíquias é utilizada como argumento em favor de uma ressurreição antecipada de José. Alguns acham que José faz parte dos santos de que fala o Evangelho segundo São Mateus, que ressuscitaram e mostraram-se em Jerusalém no dia da Páscoa. Ele teria subido aos céus com o Cristo no dia da ascensão. Nada permite afirmar uma tal hipótese e nada permite negá-la. Os mortos de que se fala, estão em Jerusalém, e José, pensa-se, morreu em Nazaré.

Com as cruzadas, os Evangelhos apócrifos invadiram pouca a pouco o Ocidente e influenciaram profundamente a arte, a poesia, a piedade e até a teologia. A grande figura de São José sofreu a repercução. Nas “natividades” da arte romana,  representa-se São José como um personagem sentado numa cadeira de honra, vestindo um manto suntuoso. Tem olhos muito abertos e uma atitude de admiração e de espanto. Uma das mãos apoia a face enquanto a outra segura um bastão em T, sinal de precedência. Está na força da idade.

Dali para frente, há muitas obras-primas, mas a figura de São José passa para o último lugar. Há um ancião, sem dúvidas feliz, mas que não está lá senão por decoro ou utilidade. Fazem-no segurar uma lanterna ou ocupar-se de animais. As cenas contadas pelos apócrifos são postas no mesmo plano que os fatos evangélicos. Quando põem um bastão na mão de São José, não é mais o bastão da presidência, mas o bastão florido da lenda. Essas flores serão, pouco a pouco substituídas por lírios, símbolo da pureza. José torna-se um personagem muito venerável, mas inofensivo. Bossuet fala do “santo ancião”.

Malgrado essas deformações inevitáveis, o culto de São José progrediu lenta, mas seguramente. Entre aqueles que melhor discerniram qual era o papel de São José na Igreja, está João Gerson, chanceler da Universidade de Paris. Ele trabalhou toda sua vida para tornar São José melhor conhecido e estender o seu culto. E fê-lo em circunstâncias, não somente críticas, mas catastróficas, para a França e para a Igreja. A guerra dos Cem Anos alcançava  seu paroxismo; o rei Carlos VI estava acometido de demência; os grandes do reino disputavam a preeminência; os problemas sociais multiplicavam-se. Gerson tinha visto sua casa ser pilhada e, para escapar da morte, tinha-se refugiado nas altas torres de Notre-Dame de Paris.

Dentro da Igreja, a discórdia estava no seu auge. Mal havia o papado recuperado Roma, após o longuíssimo cerco de Avignon, e começou o grande cisma do Ocidente que devia durar mais de meio século. Uma dupla eleição de papas dilacerava a cristandade. Intrigas, iniciativas generosas, intervenções de príncipes, discussões teológicas e canônicas, reuniões de concílios só fizeram complicar a situação. Em lugar de dois papas, fizeram três. A Igreja jamais sentira tão dolorosamente a exigência de unidade; e nunca ela teve tão clara a consciência de sua impotência para realizar essa unidade por meios humanos. Gerson, na qualidade de chanceler da Universidade e de Notre-Dame de Paris, esteve envolvido em todas as crises de seu tempo, religiosas e políticas. Aquilo que nos interessa é menos a atividade intelectual e política de Gerson, do que a solução que ele preconizou para a França e a Igreja saírem do impasse. Essa solução, muito simples e sempre atual, é o recurso a São José. Um tal remédio, para tais males, parece inadequado. Por isso, Gerson o propôs com insistência.

Deram a Gerson o título de “doutor cristianíssimo” por causa de seu imenso amor pela Igreja. É o seu amor por Cristo e pela Igreja que o leva até a Virgem Maria e São José. Ele gosta de meditar sobre o mistério do matrimônio de José e Maria. Esse matrimônio, que ele denomina “Desposação de Nossa Senhora”, embora todo virginal, não deixa de ser um verdadeiro matrimônio. Ele significa com perfeição a união do Cristo e da Igreja. Dele decorrem a santidade de José e o seu verdadeiro lugar na Igreja.

A união de corações e de espíritos em Nazaré, e a paz que é sua conseqüência, é para Gerson o ideal rumo ao qual deve tender a Igreja. Honrar aquele casamento é glorificar o Cristo que, em troca, refará a unidade da Igreja. Uma festa litúrgica cristalizaria a atenção dos cristãos sobre esse mistério e favoreceria a unidade.

Por volta de 1400, Gerson compôs um esquema de ofício litúrgico para a “Desposação de Nossa Senhora” e em 1413 iniciou uma vasta campanha  para o estabelecimento dessa festa. Para ele, o casamento com Maria é para São José a fonte de todas as suas prerrogativas. Esse casamento supõe uma preparação da parte de Deus antes do acontecimento, depois, um lugar privilegiado nos céus, com um poder de intercessão em favor de toda a Igreja. Um dos motivos de escolher José foi assegurar “assistência e bons serviços” a Maria e a Jesus. Isso supõe que José “não foi velho, feio, ou impotente”, senão ele teria sido um peso mais do que uma ajuda. José era, se não um rapaz, ao menos um homem viril. Para conservar a castidade, a graça do Espírito Santo é mais eficaz do que a idade avançada.

Aqueles “bons serviços” José continua ainda a prestá-los em favor da Igreja. Não se pode duvidar de sua glória e de seu crédito nos céus, pois Jesus disse: “Lá onde eu estou, estará também o meu servidor, e se alguém me serve, meu Pai o honrará” (Jo 12,26). Ninguém, depois de Maria, esteve assim totalmente a serviço de Cristo. Sua intervenção será eficaz para a paz na Igreja e no reino. Gerson também multiplica as tentativas para que se generalizem as festas em honra de São José, especialmente a “Desposação de Nossa Senhora”. Em 1413, ele envia uma circular a todas as igrejas para promover essa festa, depois uma exortação para demonstrar que a extensão do culto a São José seria um remédio apropriado aos males atuais.

Um pouco mais tarde, no concílio de Constança, o zelo de Gerson pode desdobrar-se sobre um terreno mais vasto. Ele participou daquele concílio como delegado do rei da França e da Universidade de Paris. Em 8 de setembro de 1416, ele foi escolhido para proferir o sermão sobre a natividade de Nossa Senhora. Gerson escolheu como texto: Iacob autem genuit Ioseph, do evangelho do dia. Fala sobretudo de São José esposo de Maria. Como uma das finalidades do concílio é suprimir o escândalo de três papas, Gerson pede aos Padres que ponham a Igreja sob a proteção de São José e favoreçam o seu culto, “a fim de que a Igreja seja devolvida a seu único esposo, verdadeiro e certo, o soberano pontífice, esposo que ocupa o lugar do Cristo… pois é atordoante a tua alteza e incompreensível tua dignidade, ó José! A Mãe de Deus, rainha dos céus, soberana do mundo, não desdenhou chamar-te seu senhor!”

No século seguinte, Isidoro de Isolanis, um dominicano, insiste como Gerson, sobre a importância do culto de São José para a paz no mundo e a extensão missionária da Igreja. Na sua obra Somme des prérogatives de saint Joseph ele suplica ao Papa ordenar que a Igreja universal celebre todos os anos as festas em honra de São José, para obter o fim das guerras. Escreve: “Não é com leviandade que eu creio que a paz será estabelecida na Itália graças aos privilégios de São José… Pelas honras prestadas a esse santo, a Igreja militante receberá do alto um grande poder. Quando a Igreja recobrar a paz, poderá derramar a água do batismo sobre as nações bárbaras, e pregar a todos os povos o nome de Cristo. Graças às orações do esposo da rainha dos céus, a bela Ásia abandonará Maomé pela Igreja, e também Jerusalém que crucificou Jesus terá veneração pelo papa”. Esses textos, escritos em 1522, têm algo de profético e permanecem atuais.

Assim, desde aquela época, almeja-se uma escolha particular de São José como protetor e como intercessor. É a época em que a crise nascente do protestantismo põe muitas coisas em cheque, e que as grandes descobertas marítimas permitem a evangelização de novos povos. Aquele século XVI foi também o de Santa Teresa d’Ávila (1515-1582). Essa grande mística muito contribuiu para a extensão da devoção a São José.

Ela escreve: “Eu invoco o glorioso São José para advogado e patrão… Eu sei por experiência, São José nos assiste em todas as nossas necessidades. Nosso Senhor atende, nos céus, a todas as orações daquele a quem ele obedeceu na terra… Eu gostaria de levar todo mundo à devoção a esse santo, tão vasta é a experiência de seu crédito junto a Deus. Não conheci ninguém a ele verdadeiramente devotado, que não avançasse na virtude, pois ele favorece singularmente o progresso espiritual daqueles que se confiam a ele. Já há anos que lhe peço um favor particular no dia de sua festa, e todas as vezes eu fui atendida. Se o meu pedido não é exatamente aquele que devia ser, ele o retifica para meu maior bem.

“Eu peço pelo amor de Deus,   àqueles que não me crerem, que façam a prova. Eles reconhecerão por experiência própria que vantagem leva-se da intercessão desse santo. Sobretudo as almas de oração, deveriam honrá-lo com um culto particular” (Vida,c.6).

23 – SÃO JOSÉ   E   A   IGREJA

Paulo Claudel, falando sobre a família de Nazaré, escreveu: “Não há aqui mais do que três pessoas que se amam, e são eles que irão mudar a face do mundo”. Essa frase curta, que assume ares de um paradoxo, recobre uma realidade profunda. Para melhor compreender a frase, é preciso colocá-la no presente. É agora que aquelas três pessoas se amam e estão mudando a face do mundo. Aparentemente, eram coitados, pois não tinham nem riquezas, nem protetores, nem meios de ação. Na verdade, são eles que enriquecem o mundo, muito além do que a humanidade poderia desejar.

Deus deu o seu Filho ao mundo como um fermento divino que devia transformar tudo a partir do interior. Para essa obra de renovação, o Senhor escolheu colaboradores, não por necessidade, mas por benevolência. Em primeiríssimo lugar, Maria e José. A pequena família de Nazaré é o centro e a origem de toda a Igreja. Jesus, Maria e José continuam a amar-se nos céus e a mudar a face do mundo. José e Maria continuam nos céus a sua afetuosa solicitude pelos membros do corpo místico de Cristo.

Todos os agrupamentos humanos sentem a necessidade de situar-se sob o patrocínio de algum grande nome. É uma proteção, uma marca de identidade e, mais especialmente, um importante fator de unidade. Conhecemos o papel que exercem os padroeiros para as corporações. As igrejas, as paróquias e as dioceses escolheram um protetor especial nos céus. O mais freqüente é Nossa Senhora, depois João Batista, São Martinho, os mártires ou os santos locais. São José só a partir da Idade Média foi invocado como protetor.

Fundações de missas, altares, capelas, são feitas em honra de São José com capelães e obrigações particulares. Isso para prestar homenagem ao santo, mas, mais ainda, para obter as boas graças do Salvador. Pensa-se, com efeito, que não se pode causar maior prazer a Cristo do que honrando a Virgem Maria e São José. Há a convicção, e com razão, que alguém obterá mais do Senhor honrando àqueles que ele amou na terra, do que pedindo por si mesmo algum favor particular.

Assim Gerson, no século XV, conta que seu amigo e confidente, Henrique Chiquot, mestre de teologia, deixou por testamento para a Catedral de Chartres, uma vultuosa soma para que, a cada ano, se fizesse, em lugar de um ofício para o repouso de sua alma, uma festa em honra de São José. Gerson convida o duque de Berry a imitar aquele exemplo. Pediu-lhe que trabalhasse pelo estabelecimento de festas em honra de São José, assegurando-lhe que isso lhe haveria de trazer maior glória do que um magnífico túmulo e ofícios solenes dos defuntos. Ele explica que é benéfico tomar José como “especial protetor, bom amigo, poderoso intercessor junto a Nossa Senhora e seu Filho Jesus”.

Foram fundadas companhias, um pouco por toda parte, em honra de São José; colégios, igrejas, dioceses, hospitais, universidades, etc. colocam-se sob o patrocínio de São José. O movimento intensifica-se nos séculos XVII e XVIII. Numerosas congregações, sobretudo femininas, são fundadas sob o seu vocábulo. Províncias e países inteiros escolhem-no como protetor. São José é nomeado padroeiro geral do México desde 1555; o Canadá é consagrado a São José a 19 de março de 1624. Trinta anos mais tarde, em 1655, é a vez do Perú e a Boêmia. No Perú, José é chamadoConservator pacis: defensor da paz. Faz alguns séculos que a Bélgica tem-se mostrado particularmente devota de São José. O Papa Inocêncio XI deu-lhe esse santo oficialmente, como padroeiro e protetor, a 19 de abril de 1679. No ano precedente, esse mesmo Papa havia aprovado formalmente a escolha de São José como padroeiro da China, a 17 de agosto de 1678.

 Assim, um pouco por toda parte na Igreja, mesmo nas regiões mais afastadas, o povo cristão tem a intuição de um papel de protetor confiado por Deus a São José. Daí a necessidade de concretizar essa intuição pela celebração de uma festa litúrgica em honra do seu patrocínio. A escolha do dia é significativa, é o domingo Iubilate Deo, o terceiro depois da Páscoa. Prefere-se essa data ao dia 19 de março, a fim de situar José dentro da luz da ressurreição do Cristo e afirmar sua presença dentro da Igreja, corpo místico de Cristo. Essa festa foi adotada pelos carmelitas da Espanha e da Itália em 1680, depois por outras famílias religiosas e por dioceses. Durante o século XVIII centenas de pedidos foram enviados a Roma. Em 1847 essa festa estendeu-se à Igreja universal.

Ao mesmo tempo, desencadeia-se um movimento de petições para obter que o Papa reconheça solenemente o padroado de São José, não somente sobre as igrejas particulares, comunidades locais, ou mesmo inteiras regiões, mas sobre a Igreja universal e o mundo inteiro. Para além de um particularismo e de um pluralismo legítimos, era útil descobrir um padroado universalista que pudesse unificar os corações e os espíritos. Ninguém mais apto a cumprir essa missão unificadora do que São José.

Durante o século XIX, numerosas petições foram enviadas a Roma para obter que o papa declare São José padroeiro universal da Igreja. Um ano antes do primeiro concílio do Vaticano, o Papa Pio IX reconheceu que ele já havia recebido pessoalmente mais de quinhentas cartas da parte de bispos do mundo inteiro de fiéis de todos os países. Uma dessas cartas o havia tocado particularmente, a do Pe. Lataste, dominicano, fundador das dominicanas de Betânia, que havia oferecido a sua vida para que São José fosse proclamado padroeiro da Igreja e para que seu nome fosse inscrito no cânon da missa.

O concílio abriu-se a 8 de dezembro de 1869. Devia examinar os graves problemas que propunham à Igreja os redemoinhos doutrinais, políticos e sociais que agitavam o mundo. A questão da Igreja corpo místico de Cristo, e guardiã da verdade, estava no centro das preocupações. A atenção dos Padres volta-se primeiramente sobre a questão da infalibilidade, o que suscita ásperas controvérsias nos jornais, e faz passar para segundo plano os outros temas de discussão. O concílio precisou interromper suas sessões por causa da guerra franco-alemã em julho de 1870, e da tomada de Roma dois meses mais tarde.

Entrementes, uma petição que circulava entre os bispos, cobriu-se de assinaturas. Ela postulava que o concílio reconhecesse oficialmente São José como padroeiro de toda a Igreja. A forçada dispersão dos Padres conciliares não permitiu tomar uma decisão, mas o Papa Pio IX não quis deixar passar em silêncio essa petição. A 8 de dezembro seguinte, aniversário da abertura do concílio, ele fez publicar o decretoQuemadmodum Deus que proclamava São José padroeiro universal da Igreja.

Para sublinhar a importância desse acontecimento, Pio IX quis que a proclamação fosse feita simultaneamente nas três grandes basílicas patriarcais de São Pedro, Santa Maria Maior e São João do Latrão. Ele escolheu de propósito a festa da Imaculada Conceição e quis que o anúncio fosse feito durante a celebração eucarística. Ele sublinhava assim os laços que existiam por causa de Deus, entre São José e a Virgem Maria, entre a Igreja dos céus e a da terra, entre a eucaristia e a santificação dos membros de Cristo.

No decreto, o Papa enumera os motivos que o determinaram a tomar uma tal decisão. Primeiramente, a escolha mesma de Deus que fez de José o seu homem de confiança, em cujas mãos ele entregou aquilo que tinha de mais precioso. Em seguida, há o fato que a Igreja sempre honrou São José com a Virgem Maria e que, nas circunstâncias inquietantes, ela tem recorrido com sucesso à sua proteção. Como os males que atualmente acabrunham a Igreja são inumeráveis, o Papa põe-se pessoalmente, e com ele a todos os fiéis, sob a proteção de São José.

Esse gesto é, da parte de Pio IX, uma marca de bravura, um verdadeiro gesto profético. Pense-se às trágicas circunstâncias em que ele se encontrava. Todos os seus Estados, acabavam de ser-lhe tomados; algumas semanas mais e logo as tropas piemontesas iriam tomar Roma. O Papa era prisioneiro no seu palácio do Vaticano. Ele ficaria prisioneiro de plena vontade a fim de salvaguardar sua liberdade e a da Igreja. O novo rei da Itália ofereceu-lhe sua polícia e suas tropas para protegê-lo, muitas nações o convidaram para vir instalar-se entre elas. Pio IX recusou todas essas ligações para não depender de um governo protetor, e sobretudo para manter em Roma o centro da Igreja.

No mesmo dia em que o Papa proclamou São José padroeiro universal da Igreja, os fiéis de Roma, que haviam assistido às funções, foram insultados e maltratados na saída das igrejas. À tarde, de baixo das janelas do Vaticano, exaltados gritavam: “Morte ao Papa!” Muita gente acreditava e espalhava que, com a queda dos Estados Pontifícios, tinha acabado a Igreja. Pio IX pensava diferente. Em um breve datado de 7 de julho de 1871, Inclitum Patriarcham, ele fez o mundo inteiro conhecer a sua decisão; ele recorda aquilo que seus predecessores, e ele mesmo, tinham feito para promover a devoção dos fiéis a São José; e nota que as perseguições sofridas pela Igreja nos últimos tempos provocaram um aumento de confiança na proteção de São José.

O início desse breve Inclitum Patriarcham é de grande importância: “O ilustre patriarca, o bem-aventurado José, Deus o escolheu de preferência a todos os outros santos para ser sobre a terra o castíssimo e verdadeiro esposo da Imaculada Virgem Maria, e o pai putativo de seu Filho único. Com o fim de permitir a José o perfeito cumprimento de encargos tão elevados, Deus o cumulou de favores completamente singulares, e multiplicou-os abundantemente. É com razão que a Igreja católica, agora que José está coroado de glória e de honra nos céus, cumula-o de amplas manifestações de culto, e que ela o venera com íntima e afetuosa devoção”.

 

Entre os signatários do Postulatum que pedia ao concílio para proclamar São José patrono universal da Igreja, e que os seu culto público se desenvolvesse na liturgia, contava-se trinta e oito cardeais, e duzentos e dezoito patriarcas, primazes, arcebispos e bispos de todas as partes do mundo. A última das assinaturas de cardeais foi a de Joaquim Pecci, o futuro Leão XIII. Tornado Papa, ele irá publicar a 15 de agosto de 1889 a encíclica Quamquam pluries sobre o verdadeiro lugar de São José na Igreja e sobre as razões que temos para invocá-lo.

O Papa pede “que o povo cristão habitue-se a implorar, com grande piedade e profunda confiança, São José ao mesmo tempo que a Virgem Maria”. Essa prática é mais agradável a Nossa Senhora do que regozijar-se. A devoção a São José já está largamente difundida, mas o papa crê de seu dever incitar os cristãos para que essa devoção “enraize-se profundamente nos usos da tradição católica, pois ela é de uma importância extrema”.

Leão XIII explica o papel de São José na Igreja: “A sagrada família que São José governa, como investido de autoridade paternal, contém em gérmen a Igreja. A santíssima Virgem Maria, ao mesmo tempo que ela é mãe de Jesus Cristo, é também mãe de todos os cristãos… Igualmente, Jesus Cristo é como o primogênito dos cristãos que são seus irmãos de adoção e de redenção. Eis as razões pelas quais São José sente que a multidão dos cristãos foi-lhe confiada tão particularmente. Essa multidão é a Igreja, imensa família dispersa por toda a terra. Ele tem sobre ela autoridade paternal, pois ele é o esposo de Maria e o pai de Jesus. É lógico que José cobre agora a Igreja com o seu patrocínio, como ele proveu outrora a todas as necessidades da sagrada família”.

Para realçar ainda mais o seu desejo de ver os fiéis unirem José e Maria em suas orações, ele pede que se termine a recitação do rosário com a invocação a São José: “A vós, São José, recorremos em nossa tribulação…”

24 – ATUALIDADE   DE   SÃO   JOSÉ

Na sua encíclica Quamquam pluries Leão XIII não esquece o lado prático e social do patrocínio de São José. A verdadeira casa do Senhor, o reinado de Deus sobre a terra, é a Igreja. Todas as pessoas, qualquer que seja seu estado de vida, têm reais motivos para confiar-se a São José. Para os pais de família, ele personifica a vigilância e a previdência; para os esposos, ele é o modelo do amor, da união dos corações e da fidelidade. Para as virgens e todos os consagrados, ele é um ideal e um protetor. Porque, nele, os nobres sabem conservar sua dignidade, mesmo no infortúnio; e os ricos compreendem onde estão os verdadeiros bens.

Os pobres, os humildes, os proletários, os operários, têm um direito especial à proteção de São José. Todos eles têm interesse em recorrer a ele e imitar suas virtudes. Ele, de condição real e esposo da mais gloriosa das mulheres, passou sua vida numa condição laboriosa, tirando de seu trabalho o sustento para sua família. A condição dos trabalhadores nada tem de desonroso; a virtude a reveste de nobreza. O exemplo de José sustenta a coragem dos pobres e dos trabalhadores, ao mesmo tempo que os mantém com idéias conformes à equidade. Todos têm o direito e o dever de melhorar sua situação por meios legítimos. O recurso à violência só faz agravar os males.

25 – COM  O  PAPA  E  O  CONCÍLIO

 

Declarando São José padroeiro universal da Igreja, o Papa Pio IX só fazia exprimir o sentimento do povo cristão e, ao mesmo tempo, prolongar o ensinamento de seus predecessores. Seus sucessores fizeram o mesmo. Leão XIII, depois da magistral encíclica Quamquam pluries, a primeira dedicada a São José, publica o breve neminem fugit no qual pedia aos lares cristãos que se consagrassem à sagrada família de Nazaré “exemplar perfeitíssimo de sociedade doméstica, ao mesmo tempo que modelo de todas as virtudes e de toda santidade”.

Pio X tinha grande devoção a São José seu protetor de batismo. Foi ele que aprovou as ladainhas  em honra desse santo e permitiu sua inserção nos livros litúrgicos. Nisso ele estava, disse, em plena conformidade com seus predecessores Pio IX e Leão XIII. José, com efeito, é um socorro poderoso e utilíssimo para a família e a sociedade (1909).

Bento XV publica em 1920, nos albores da primeira guerra mundial, uma encíclica sobre a paz, depois um Motu proprio para convidar os bispos do mundo inteiro a celebrar o centenário do padroado levando os fiéis a renovar sua devoção a São José e à sagrada família. O recurso a São José é um remédio para “a difícil situação em que se debate hoje em dia o gênero humano”. Seus exemplos e sua proteção mantêm no dever, e preservam das falsas doutrinas, aqueles que ganham a vida com seu trabalho, em todas as partes do mundo. A 26 de outubro de 1921, Bento XV estendia para toda a Igreja a festa da sagrada família.

Pio XI, o Papa da Ação católica e das missões, pronunciou sobre São José palavras de uma excepcional importância. Esse homem intrépido não pode ser acusado de ignorância ou de piedade sentimental. A 21 de abril de 1926, na beatificação de Jeanne-Anthide Thouret e de André-Hubert Fournet, ele precisa os fundamentos do padroado de São José cuja festa caía naquele dia: “Eis um santo que durante toda sua vida dedicou-se inteiramente ao cumprimento de uma missão única da parte de Deus, a missão de guardar a pureza de Maria, de proteger Nosso Senhor, e de ocultar, por sua admirável cooperação, o segredo da redenção. É na grandeza dessa missão que se encerra a santidade singular e incomparável de São José, pois uma tal missão não foi confiada a nenhum outro santo… É evidente que em virtude de uma tão elevada missão José possuía já o título de glória que é seu, aquele de padroeiro universal da Igreja. Toda a Igreja, com efeito, encontra-se já presente junto dele, no estado de um gérmen fecundo”.

Dois anos mais tarde, a 19 de março de 1928, na festa de São José, ele retoma o mesmo argumento e mostra que a missão de São José é mais importante do que a de João Batista e de São Pedro. Entre a missão de João Batista e a de São Pedro, situa-se a de São José. “Missão recolhida, silenciosa, quase despercebida e desconhecida, missão cumprida na humildade e no silêncio… Onde é mais profundo o mistério, mais espessa a noite que o recobre e maior o silêncio, é justamente lá que é mais alta a missão e mais brilhante o cortejo das virtudes requeridas, bem como dos méritos decorrentes. Missão única, altíssima, aquela de guardar a virgindade e a santidade de Maria, entrar para fazer parte do grande mistério escondido aos olhos dos séculos e cooperar assim para a encarnação e a redenção.

Essa missão única de São José sobre a terra traduz-se nos céus por um grande poder de intercessão. Pio XI declara a 19 de março de 1935: “José é aquele que pode tudo junto ao divino redentor e junto a sua divina mãe, de uma maneira e com uma autoridade que ultrapassa a de um simples depositário”. E a 19 de março de 1938: “A intercessão de Maria é aquela da mãe, não se vê como seu divino Filho poderia recusar algo a uma símile mãe. A intercessão de José é aquela do esposo, do pai putativo, do chefe de família, ela não poderia não ser todo-poderosa, pois o que poderiam Jesus e Maria recusar a José que consagrou a eles sua vida e a quem eles devem realmente os meios de sua existência terrena?”

Para realizar o seu lema: “A paz de Cristo dentro do reino de Cristo”, Pio XI conta especialmente com a intervenção de São José. Na sua célebre encíclica Divini redemptoris, em 1937, ele declara: “Nós colocamos a grande ação da Igreja católica contra o comunismo ateu mundial sob a égide do poderoso protetor da Igreja, São José. Ele pertence à classe operária, e fez a experiência da pobreza para ele e para sua família; foi um chefe vigilante e amoroso; recebeu a guarda do Menino-Deus quando Herodes lança contra ele os seus sicários. Por sua absoluta fidelidade dentro do dever quotidiano, ele deixa um exemplo a todos aqueles que devem ganhar seu pão pelo trabalho manual. Ele, que mereceu ser chamado ‘o Justo’, é o modelo vivo daquela justiça cristã que deve reinar na vida social”.

Pio XII quis cristianizar a festa do trabalho a 1o de maio, instituindo a festa de São José operário. Ele aplicou-se incessantemente em designar São José como protetor preferido de todas as classes da sociedade e de todas as profissões. Falou desse santo ao trabalhadores, aos recém-casados, aos militantes, aos estudantes e às crianças. Considerava o padroado de São José não como uma fórmula teológica, ou uma invocação piedosa, mas como uma verdade fundamental. José, como Maria, está intimamente ligado à doutrina do corpo místico de Cristo que é a Igreja dos céus e da terra.

Quanto a João XXIII, deu múltiplos testemunhos de sua devoção a São José. Ele confessou: “São José, eu o amo muito, a tal ponto que eu não posso começar minha jornada, nem terminá-la sem que minha primeira palavra e meu último pensamento sejam para ele”. Como núncio em Paris, ele visitou a casa mãe das Irmãzinhas dos Pobres, em La-Tour-Saint-Joseph. Nessa ocasião, ele contou que quis receber a consagração episcopal na festa de São José “porque é ele o protetor dos diplomatas”.

E explicou: “Como São José, os diplomatas devem todos juntos apresentar Jesus e escondê-lo. Como São José eles devem saber calar-se, medir suas palavras, saber empenhar-se sem olhar a dignidade do serviço… e sobretudo experimentar doce e engolir amargo… obedecer mesmo sem compreender, como São José quando partiu com seu burrinho”.

Tornado Papa, ele dará essas mesmas consignas a todos os cristãos: empenhar-se nas tarefas humildes, como nas missões interessantes, sem olhar para a dignidade daquilo que se faz. José, esposo de Maria, foi só um artesão que ganhava o pão com seu trabalho. Aquilo que conta diante de Deus é a fidelidade. Na sua eleição, ele lamentava não poder assumir o nome de José, por causa do costume, mas escolheu 19 de março como data de sua festa.

A 19 de março de 1959, celebrando a missa para um grupo de trabalhadores da cidade de Roma, ele dirá: “Todos os santos glorificados, merecem seguramente uma honra e um respeito particulares, mas é evidente que São José possui, com justiça, um lugar que lhe é próprio, mais suave , mais íntimo, mais penetrante em nosso coração”.

A 1º de maio de 1960, João XXIII dirige, via rádio, uma mensagem sobre São José a todos aqueles que trabalham e a todos aqueles que sofrem. Começava assim: “Nosso pensamento dirige-se muito naturalmente a todas as regiões e a todas as cidades onde a vida se desenrola no dia a dia: no lar, junto da família, no escritório, na loja, no ateliê, na usina, no laboratório, em todos os lugares santificados pelo trabalho intelectual ou manual, sob as formas variadas e nobres que reveste segundo as forças e aptidões de cada um… Com a ajuda de São José todas as famílias podem reproduzir a imagem da família de Nazaré… De fato, o trabalho é uma missão sublime. Ele permite ao homem colaborar de maneira inteligente e eficaz com Deus que lhe deu os bens da terra para que os explorasse e fizesse frutificar”.

A grande iniciativa de João XXIII foi a convocação do segundo concílio do Vaticano. Na carta apostólica de 19 de março de 1961, explica porque ele quer que esse concílio, tão importante, seja colocado sob a especial proteção de São José. Começa a recordar aquilo que os seus predecessores fizeram para a glória de São José. Em seguida, explica que o concílio é feito por todo o povo cristão que deve beneficiar-se de uma corrente de graças para uma maior vitalidade. Acrescenta que não se pode encontrar melhor protetor do que São José para obter o seguro dos céus para a preparação e o desenrolar desse concílio que deverá marcar sua época.

Uma outra iniciativa importante de João XXIII foi introduzir o nome de São José na oração eucarística. Pio IX havia recuado diante de uma tal decisão. Os pedidos formulados no primeiro concílio do Vaticano,  foram retomados numerosíssimos no segundo. Os Padres conciliares não tinham que deliberar sobre esse assunto, pois tratava-se somente de um rito litúrgico entre tantos outros.

Portanto, o concílio fez sua aquela decisão de João XXIII, incorporando o texto doCommunicantes, onde se encontra o nome de São José, na constituição dogmáticaLumen Gentium. Essa constituição trata do mistério da Igreja, corpo místico de Cristo. O capítulo sétimo trata especialmente da união muito íntima que liga os membros da igreja que caminham ainda neste mundo àqueles que já gozam da vida em plenitude nos céus. Essa presença invisível de nossos amigos, os santos, atualiza-se quando nós estamos reunidos para a oração, e mais particularmente na celebração eucarística. O texto é para ser meditado, pois afirma que São José merece um lugar de escol:

“Mas nossa união com a Igreja celeste se realiza de modo nobilíssimo mormente na sagrada Liturgia, em que a força do Espírito Santo atua sobre nós por meio dos sinais sacramentais, quando em comum exultação (socia exultatione) cantamos os louvores… É, portanto, na celebração do sacrifício eucarístico que certamente nos unimos mais estreitamente ao culto da Igreja celeste, uma vez que a ela nos unimos sobretudo venerando a memória da gloriosa sempre Virgem Maria, bem como do bem-aventurado São José, dos bem-aventurados Apóstolos e Mártires e todos os Santos” (LG 50).

Paulo VI fala amiúde de São José. Ele detém-se menos em sublinhar suas prerrogativas do que em recordar sua missão na Igreja de hoje: “A missão de José junto a Jesus e Maria foi uma missão de proteção, de defesa, de salvaguarda e de subsistência… A Igreja precisa ser defendida; ela precisa ser guardada segundo a escola de Nazaré, pobre e laboriosa, mas viva, consciente e disponível para a sua vocação messiânica. Essa necessidade de proteção, hoje, é grande para permanecer indene e para agir dentro do mundo… A missão de São José é a nossa: guardar o Cristo, e fazê-lo crescer, em nós e ao redor de nós” (Angelus – 19 de março de 1970).

A 19 de março de 1973, Paulo VI disse: “José é o protetor de Cristo na sua entrada para este mundo, o protetor da Virgem Maria, da sagrada família, o protetor da Igreja, o protetor daqueles que trabalham. Todos nós podemos dizer: nosso protetor”.

As liturgias orientais fazem eco aos ensinamentos dos Papas: “Ó José! Glória àquele que te honrou, glória àquele que te coroou, glória àquele que te fez protetor de nossas almas” (rito melquita).

“Ó José! Leva a Davi a boa notícia: eis, pai de Deus! Tu viste a Virgem grávida, junto com os pastores tu cantaste o Gloria, com os magos te prostraste, com os anjos trataste de assuntos divinos! Roga, então a Cristo, nosso Deus, que salve nossas almas” (rito bizantino).     

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