01 – A Pessoa do Espírito Santo

Três são os nomes próprios da Terceira Pessoa da Santíssima (= Ssma) Trindade: Espírito Santo, Amor, Dom. Examinemos cada um.

ESPÍRITO SANTO

Esp. SantoA rigor, a designação “Espírito Santo” é comum  às três Pessoas, pois todas são Espírito e santas. Acontece, porém, que a Escritura atribui tal título, como próprio, à terceira Pessoa: “Batizai em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. (Mt 28,19). A teologia justifica tal emprego, lembrando que a santidade significa consumação, plenitude; ora, a terceira Pessoa é a plenitude da Ssma Trindade entendida como comunicação de vida.

Sto Agostinho (+ 430) explica, a seu modo, o apelativo: tanto o Pai quanto o Filho são Espírito e são santos; ora, já que a terceira Pessoa procede de ambos, é convenientemente designada pelos nomes de ambos: “O Espírito Santo é uma inefável comunhão  existente entre o Pai e o Filho; talvez seja assim chamado porque os mesmos nomes convêm ao Pai e ao Filho, pois o Pai é Espírito e o Filho é Espírito; o Pai é santo e o Filho é santo” (De Trinitate, V.XI).

A expressão “Espírito Santo” há de ser entendida  como se fosse uma palavra só ou um apelativo que não  se pode decompor dizendo” “Espírito que é Santo”.

Quanto ao modo como se dá a processão do Espírito Santo a partir do Pai Santo e do Filho Santo, São Gregório de Nazianzo (+390) propões um silêncio reverente: “A fé ensina  que há uma geração divina; não procures  individualmente como Ela te ensina que o Espírito Santo procede do Pai; não te canses de procurar como” (Oração XX, XI).

Já que o Espírito Santo é a própria Santidade, atribui-se-lhe a santificação dos homens. Na dispensação da graça, na história da salvação, Ele é o santificador. Ele é a última expressão de vida trinitária e a primeira que atinge os homens, como aliás se deu em Maria Santíssima, que concebeu do Espírito Santo.

O AMOR

O amor de DeusSegundo a teoria psicológica, o Espírito Santo é o fruto  do amor com que Deus ama a si ou com que o Pai ama ao Filho. São Paulo, aliás, nos diz: “o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5,5).

Se é o amor em Deus, o Espírito  Santo também é o Ósculo (Beijo santo). Com efeito, segundo São Bernardo (+1153), o Pai é o Osculante, o  Filho o Osculado e o Espírito Santo o Ósculo:  “é correto dizer que o Pai é o Osculante, o Filho o Osculado; por isto não sem propósito entendemos que o Espírito Santo é o Ósculo, pois Ele é do Pai e do Filho a paz imperturbável, o vínculo firme, o amor indiviso, a indivisa unidade”.

O DOM

O amor está naturalmente  associado ao dom ou à doação. Quem ama, se dá ao ser amado e lhe dá o que tem para enriquecer a sua personalidade.

Em Deus, o Amor está ligado à doação do Pai ao Filho e do Filho ao Pai, sem que haja inferioridade ou superioridade de um para com o outro. Muito mais claramente se entende  o Espírito Santo como Dom de Deus  às criaturas. Ele é o fruto da vitória de Cristo sobre o pecado e a morte, enviado aos homens pelo Senhor glorificado (cf. Jo, 7,37-39; Lc 11,13).

Sto Hilário de Poitiers (+367) propõe a sinonimia do Espírito Santo e Dom no texto seguinte: “O Batismo é conferido em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, isto é, mediante a confissão do Autor (Criador), do Filho e do Dom. Há um só Autor (Criador) de todas as coisas, pois há um só Deus Pai, ex que omnia, e um só Filho único, Nosso Senhor Jesus Cristo, per quem omnia, é um só Espírito Dom in quo.

Este texto é importante porque, além da sinonimia apresentada, refere três proposições latinas que caracterizam a vida trinitária e sua comunicação com as criaturas. Com efeito:

O Pai é Aquele ex quo omnia, do qual tudo procede;

O Filho é Aquele per quem …, pelo qual tudo procede;

O Espírito Santo é in omnibus, está em todas os seres humanos como Mestre e Guia ou também Aquele  no qual caminhamos pelo Filho ao Pai, segundo afirma São Paulo. 

AS APROPRIAÇÕES

São diversos os nomes apropriados ao Espírito Santo.

Água viva

Os antigos Padres da Igreja (primeiros escritores eclesiásticos) viram na água e suas modalidades uma imagem da Ssma Trindade. Assim, São João Damasceno (+479): “considerai o Pai como a Fonte da Vida, o Filho como o Rio que daí nasce e o Espírito Santo como o Mar, pois a fonte, o rio e também o mar têm a mesma natureza”.

Havia também  quem propusesse: lençol d’água, olho d’água e córrego d’água. O lençol d’água subterrâneo significaria a imensidade do Pai, o olho d’água seria a manifestação do grande lençol oculto, significando o Filho como Palavra ou Imagem; o córrego d’água simbolizaria  a ação vivificante  e fecundante do Espírito Santo. A água representa a essência divina, que é sempre a mesma; as modalidades da água, as Pessoas Divinas.

Embora a água viva seja um símbolo comum às Três Pessoas, foi apropriada ao Espírito Santo na base de textos bíblicos como Jo 7,37-39, onde se lê que, ao falar da água, Jesus falava  do Espírito que deviam receber os que nele cressem. São palavras de Santo Atanásio: “o Pai sendo a fonte, o Filho é chamado rio; a Escritura diz  que bebemos do Espírito, pois está escrito: ‘todos bebemos do mesmo Espírito’ (1Cor 12,13). Mas quando bebemos o Espírito, bebemos Cristo:  ‘bebiam de uma rocha espiritual que os acompanhava e essa rocha era Cristo’ (1Cor 10,4)”.

Ungüento ou bálsamo e perfume

A palavra grega “Christós” (Cristo) significa “Ungido”. Pergunta-se então: Jesus, o Cristo, como foi Ungido? A resposta é: foi ungido com o ungüento ou o bálsamo que é o Espírito Santo. É o que os Padres da Igreja deduziam de textos bíblicos como:

Lc 4,18: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para evangelizar os pobres”. São palavras de Is 61,1 que Jesus leu na Sinagoga de Nazaré e aplicou a si;

At 10,38: “… Jesus de Nazaré, que Deus ungiu com o Espírito Santo”.

Isto quer dizer que a humanidade que Deus Filho assumiu no seio de Maria Virgem foi cumulada ou enriquecida pelo Espírito Santo e seus dons.

Se o Espírito Santo é bálsamo ou ungüento, Ele exala um bom odor ou perfume. Em conseqüência, a teologia patrística considera o Espírito Santo como o odor ou o perfume da divindade. Encontram-se nas obras dos Padres as seguintes trilogias:

Roseira – é    rosa    è    perfume de rosa

Raiz – é   caule   è    flor ou fruto

Pai  –  é    Filho   è    Espírito Santo

A flor é o fruto  são o ponto final do desenvolvimento vital do arbusto. Pr4ocedem da raiz e do caule por efeito de seiva, que tem sua origem na raiz. Flor e fruto insinuam  repouso e consumação; ora, o Espírito Santo é, por assim dizer, a consumação da vida trinitária. Quando se diz que o Espírito Santo é o perfume, explicita-se a ação difusiva, penetrante e vivificante do Espírito Santo.

O “Rhema” de Deus

 A língua grega conhece o vocábulo “lógos”, que indica o “conceito expresso pela linguagem”  e o “rhema”, que significa o “sopro de voz”, portador do conceito expresso pela boca de quem fala. Que diz “ouranós”, “himmel”, “heaven”, “ciel”, “céu”, diz sempre o mesmo lógos ou conceito, mas faz vibrar o ar diversamente ou emite diversos “rhemata”. Pois bem, os Padres consideravam a segunda Pessoa como “Lógos” e a terceira como “Rhema”. Assim o Espírito é tido como o Portador da Mensagem de Deus aos homens.

Paráclito

O apelativo grego “Parákletos” toca a Jesus Cristo em 1Jo 2,1 mas é por excelência apropriado ao Espírito Santo em Jo 14,16s.25s; 15,26s; 16,7. Este  é dito “o outro Paráclito” em Jo 14,16.

Tal vocábulo tem duplo sentido: 1) Advogado, Defensor (é o que ocorre em 1Jo 2,1) e 2) Consolador. Pode-se dizer que são dois significados que se complementam mutuamente.

O Paráclito é Advogado e Defensor frente aos adversários dos cristãos, dentre os quais está Satanás, “o acusador dos nossos irmãos diante de Deus dia e noite” (Ap 12,10) mas é também Consolador.

A idéia de que Deus consola  seu povo, vem do Antigo Testamento e pode ser conferida em passagens como Is 66,13; 51,12, etc.

Analisando as funções que Jesus atribui  ao Paráclito em seu discurso de despedida, verificamos que são todas elas relativas  à verdade apregoada por Jesus; Ele deve “ensinar, recordar, dar testemunho, convencer, levar toda a verdade, anunciar”; por isto é chamado “Espírito da Verdade” (Jo 14,17). É Ele quem assiste à Igreja garantindo-lhe  fidelidade ao Evangelho ou ao patrimônio da fé e levando-lhe a descobrir e explicitar  o que tenha ficado implícito na pregação der Jesus: “O Paráclito, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que eu vos disse” (Jo 14,26).

OS SETE DONS DO ESPÍRITO

Os donsDeus age entre nós  através de seu Espírito. Na Bíblia, os símbolos do Espírito são o fogo, o vento, o sopro; e suas características ser invisível, anônimo, interior, sem que se saiba de onde vem ou para onde vai. O Espírito é força, alegria, esperança, amizade, comunhão e ele atua através das pessoas, dos sinais dos tempos, das situações políticas, dos desafios históricos.

EIS OS DONS DO ESPÍRITO SANTO:

1.   Sabedoria: é o dom de perceber o certo e o errado, o que favorece e o que prejudica o projeto de Deus, quem acredita na libertação e está interessado na opressão. A Sabedoria é dada especialmente aos pobres (cf. Mt  11,25) e àqueles que são solidários a eles. Não tem nada a ver com cultura;

2. Inteligência ou Entendimento: é o dom de entender os sinais da presença de Deus nas situações humanas, nos conflitos sociais. Nada tem a ver com capacidade intelectual ou nível de QI. A pessoa ou comunidade dotadas de inteligência captam, sem dificuldade, a íntima relação entre vida e Palavra de Deus.

3. Conselho: é o dom de saber discernir caminhos e opções, de saber orientar e escutar, de animar a fé e a esperança da comunidade.

4. Fortaleza: é o dom de resistir às seduções da sociedade, de ser coerente com o Evangelho, de enfrentar riscos na luta por justiça, de não temer o martírio. A pessoa ou comunidade dotadas desse dom não se amedrontam diante das ameaça e perseguições, pois confiam incondicionalmente no Pai.

5. Ciência: é o dom de saber compreender a Palavra de Deus, de explicar o Evangelho e a doutrina da Igreja, de fazer avançar a teologia, de traduzir em palavras o que se vive na prática. Nada tem a ver com as ciências aprendidas nas escola sou nos livros.

6.  Piedade: é o dom de estar sempre aberto à vontade de Deus, procurando agir como Jesus agiria e identificando no próximo o rosto de Cristo. Piedosa é a pessoa  ou comunidade que traz nas entranhas a vontade irrefreável de realizar na sociedade o projeto de justiça de Deus.

7. Temor filial de Deus: é o dom da prudência e da humildade, de saber reconhecer os próprios limites, de não pedir ou esperar de Deus que Ele faça a nossa vontade, de não meter-se em situações complicadas, ambíguas, difíceis de serem entendidas pela nossa comunidade de fé. A pessoa dotada desse dom sabe que é amada pelo Pai e teme qualquer risco de infidelidade ou traição a esse amor.

 

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