11 – Rosário(Origem e Significado)

santo rosárioO costume de rezar breves fórmulas de oração consecutivas e numeradas (através da contagem dos dedos, pedrinhas, grãos, etc) constitui uma das expressões da religiosidade humana, independentemente do Credo que alguém professa. Entre os cristãos, tal hábito já estava em uso entre os eremitas e monges do deserto nos séculos IV e V.

Seu uso aumentou no ocidente: no fim do século X, havia –se implantado entre os fiéis o costume de rezar o “Pai-nosso” certo número de vezes consecutivas. Tal costume teve origem, provavelmente, nos mosteiros, onde muitos cristãos professavam a vida religiosa, mas não estavam habilitados a seguir a oração comum, que compreendia a recitação dos salmos. Em conseqüência, para esses irmãos que se diziam convertidos, os superiores religiosos estipulavam a recitação de certo número de “Pai nosso” em substituição do Ofício Divino celebrado solenemente no coro.

Para favorecer esses exercícios de piedade, foi-se aprimorando a confecção das correntes que serviam para a contagem das preces: cada um desses cordões de grãos se dividia geralmente em cinco partes de dez cada uma; cada décimo grão era mais grosso do que os outros, a fim de facilitar o cálculo (portanto, ainda não se usavam, como hoje, séries de dez grãos pequenos separados por um grão maior, pois só se dizia o “Pai-nosso”). Esses instrumentos eram chamados “Paternoster” tanto na França como na Alemanha, na Inglaterra e na Itália ou, menos freqüentemente, “numeralia, fila,computum, preculae”. Os seus fabricantes constituíam prósperas corporações, ditas dos “Paternostriers” ou dos “Paternosterer”.

Ao lado de tal costume, ia-se desenvolvendo entre os fiéis outro importante exercício de piedade, ou seja, o costume de saudar a Virgem Santíssima; repetiam a saudação do anjo a Maria (“Ave, cheia de graça…” Lc 1,28) acompanhada das palavras de Isabel (“bendita és tu entre as mulheres, e bendito é o fruto de tuas entranhas” , Lc 1,42). A invocação seguinte “Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós…” ainda não estava em uso na Idade Média.

Em conseqüência, por volta do ano 1.150 ou pouco antes, os fiéis conceberam a idéia de dirigir a Maria, 150, 100 ou 50 saudações consecutivas, semelhante ao que faziam repetindo a oração do Senhor.

Cada uma das séries de saudações (às aqui e ali se acrescentava o “Pai-nosso”) devia, segundo a intenção dos fiéis, constituir uma coroa de rosas à Virgem Santíssima; daí o nome de “rosário” e “coroa” que se foram atribuídos a tal prática; a mesma era também chamada “Saltério da Virgem Santíssima”, pois imitava as séries de 150, 100 ou 50 “Pai-nossos”, que faziam as vezes de Saltério dos irmãos que se haviam convertido nos mosteiros. Assim se vê que os “Paternoster” e, posteriormente, os “rosários” entraram na vida de piedade dos fiéis no modo de Breviário dos Leigos, com o objetivo de entreter nos fiéis a estima para com os Salmos e a oração oficial da Igreja; o Rosário tem assim a sua marca de inspiração bíblica.

Quanto ao nome “rosário” em particular, foi muito estimulado por um relato popular do século XIII: narrava-se que um monge do mosteiro de Cister, na França gostava de recitar freqüentemente 50 ave-marias, as quais saíam de seus lábios como rosas que se iam depositar na cabeça da Virgem Santíssima.

Um passo seguinte ao desenvolvimento do Rosário se deve ao monge da ordem cartuxa, fundada por são Bruno, chamado Henrique de Egher ou de Calcar (+1408). Este escreveu um poema no qual estimulava a recitação de um “Pai-nosso” antes de cada dezena de “ave-marias”; ora, este uso foi encontrado espontânea aceitação por parte dos fiéis e veio a tornar-se comum.

Outra etapa importante foi a associação da meditação vocal das “ave-marias”. No século XIV, tal costume estava em vigor nos mosteiros das monjas dominicanas de Töss e Katharinental. Contudo, a difusão desse costume se deve a um monge cartuxo, Domingos Ruteno, que viveu no início do século XV; Domingos sugeriu a recitação de 50 “ave-marias”, cada qual com seu ponto de meditação próprio. Outros sistemas de meditação entraram aos poucos em vigor: houve quem as aplicasse a 150, 165, 200 … pontos ou mistérios.

O dominicano Alano da Rocha (+ 1475) sugeria a recitação de 150 mistérios, que percorriam os principais aspectos da obra da Redenção, desde o anúncio do anjo a Maria até a morte da Virgem Santíssima e o juízo final.

Mais um aspecto da evolução do rosário, já insinuada pelos fatos anteriormente acontecidos, foi a inclusão dos mistérios dolorosos da Paixão do Senhor entre os temas de meditação. Isto se explica pelo caráter sombrio e tristonho que, por vezes, tomou a piedade popular no fim da Idade Média: o grande cisma do oriente (1378 – 1417), a guerra dos Cem Anos, o flagelo de pestes, os temores de fim do mundo muito chamaram a atenção dos fiéis para as tristezas da vida, em particular para as dores de Cristo e de Maria; muito então, além das sete alegrias de Maria, focalizavam devotamente as suas sete dores…

A consideração desses tópicos da História mostra claramente que, durante séculos, a maneira de celebrar o “Saltério de Maria” variou muito, ficando ao arbítrio da devoção dos fiéis a forma precisa de honrar a Virgem por essa via. Papel importante na orientação geral da prática do Rosário coube, sem dúvida, à Ordem de são Domingos, à qual foi sempre muito apreciado esse exercício de piedade; através de Irmandades do Rosário, assim como por meio de pregações, escritos, devocionários etc., os dominicanos difundiram largamente a devoção.

Foi, finalmente, um papa dominicano, São Pio V (1566-1572) quem deu ao Rosário a sua forma atual, determinando tanto o número de “Pai-nossos” e “Ave-marias” como o teor dos mistérios que o devem integrar. O pontífice atribuiu à eficácia dessa prece a vitória naval de Lepanto, que, aos 7 de outubro de 1571, salvou de grande perigo a Cristandade ocidental; em conseqüência, introduziu no calendário litúrgico da Ordem de São Domingos a festa do Rosário sob o nome de “Festa de Nossa Senhora do Rosário”.

A solenidade foi, em 1716, estendida à Igreja universal, tomando mais tarde o nome de “festa de Nossa Senhora do Rosário”. A devoção foi, daí por diante, mais e mais favorecida pelos Pontífices Romanos, merecendo especial importância o papa Leão XIII, que determinou que fosse o mês inteiro de outubro dedicado, em todas as paróquias, à recitação do rosário. Na base destas notícias, vê-se o quanto é falso afirmar, como de vez em quando se lê, que o rosário é inovação introduzida no cristianismo em 1090.

O costume antigo de repetir orações ao modo de coroa espiritual não se concretizou apenas no Rosário de Nossa Senhora. Além deste, estão em uso entre os fiéis, outras coroas espirituais representadas por um colar de contas correspondente. Assim, a Coroa dos Crucíferos, a Coroa do Senhor, a Coroa das Sete Dores de Maria, a Coroa das Sete Alegrias de Maria, a Coroa Angélica, A Coroa de santa Brígida…

Por fim, é importante notar que o rosário não é uma oração meramente vocal. A repetição das mesmas preces tem o objetivo de criar um clima contemplativo, que permita a meditação e o aprofundamento dos grandes mistérios da nossa fé, associados a cada dezena do rosário. O aspecto meditativo ou contemplativo do rosário é de valor capital.

Estevão Tavares Bettencourt, OSB

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s