03 – As diferenças entre as Boas Obras e as Obras da Lei

FéNT: Este artigo se baseia na carta aos Romanos. Na tradução foram utilizadas referências da Bíblia TEB, no artigo original as versões utilizadas foram a RSV (Revised Standard Version) e a NAB (New American Bible)

ROMANOS 3,10-12

“…Como está escrito: não há um justo, nem mesmo um só. Não há homem sensato, não há um que procure a Deus. Eles estão todos transviados, juntamente pervertidos, não há um que faça o bem, não há sequer um só”.

Os protestantes olham na carta de Paulo aos Romanos, capítulo 3, 10-12, uma defesa da doutrina da “justificação somente pela fé”. Afirmam que ela prova que não há ninguém que possa fazer algo de bom, e por isso todos são maus, e que mesmo quando somos justificados por Cristo, pela Sua graça, nossos pecados são somente encobertos. A citação abaixo é tirada do livro dos Salmos, capítulo 14. Para um maior contexto, examinem os capítulos 10-14, especialmente os versículos que seguem.

Sl 10:2-4,12.15.17-18

2 A arrogância do ímpio consome os infelizes; eles caem nos ardis que armaram.

3 Sim, o ímpio de gloria de ter atingido seu objetivo; tendo ganho, bendiz ? não, ele zomba ? o Senhor.

4 Auto-suficiente, o ímpio não procura mais: “Deus não há”, eis toda a sua astúcia.

12 Ergue-te, Senhor! Deus, levanta a mão! Não esqueças os infelizes!

15 Quebra o braço do ímpio, e do malvado procura a maldade até não mais encontrares.

17 Senhor, atendeste o desejo dos humildes, tranqüilizas seu coração, tens o ouvido atento.

18 para fazer justiça ao órfão e ao oprimido; e o homem da terra não continuará a aterrorizar.

Sl 14,1-6

1 O insensato diz a si mesmo: “Deus não há!” Corruptos cometeram horrores; Não há um que pratique o bem

2 Dos céus, o Senhor, se inclinou para os homens, para ver se há algum perspicaz que busque a Deus.

3 Transviados todos eles, estão unidos no vício; um não há que pratique o bem, não há nenhum.

4 Quão ignorantes são todos esses malfeitores, que devoraram meu povo, ao comer seu pão, e não invocavam o Senhor!

5 Eis que se puseram a tremer, pois Deus estava do lado dos justos.

6 Escarneceis das esperanças do infeliz, mas o Senhor é o refúgio deles

Todas as ênfases foram acrescentadas pelo autor.

Do contexto maior do capítulo 14 do livro dos Salmos podemos perceber que existem dois tipos de pessoas. O grupo dos “malvados” não consiste na população inteira da terra. Se assim fosse não haveria o grupo chamado “meu povo” que era perseguido por eles. No Salmo 14 o Rei Davi estava dizendo que os ímpios que não buscam a Deus são todos transviados e que todos praticam o mal. Está clamando a Deus que desvie o “meu povo” destes “malvados”.

Então, “todos” em “Não há homem sensato, não há um que procure a Deus. Eles estão todos transviados…” (Rm 3,11-12a) é uma referência aos “ímpios”, “os homens” que negam a si mesmos o apoio da graça de Deus ao contrário dos “justos”. É somente mediante a graça de Deus que o homem pode fazer a vontade de Deus. Uma pessoa pode deixar de ser da família de Adão (que quer dizer “homem”) e passar a ser da família dos Filhos de Deus. 1Cor 15,22: Assim como todos morrem em Adão, em Cristo todos receberão a vida.

O Salmo 14 mostra duas diferentes formas de se viver. Estas são:

Aqueles que rejeitam Deus e Sua graça e, conseqüentemente, somente praticam o mal e Os que buscam a Deus e a ajuda da Sua graça, que os permite agir de forma que agrade a Deus, fazer o que é bom, e serem chamados de “meu povo”

O ser humano, separado de Deus, do auxílio de Sua graça, é mal e fraco. Perseguem o povo de Deus, a geração dos justos ? o segundo grupo de pessoas. O povo de Deus é capaz de ser considerado justo porque buscam a Deus e sabem aproveitar a graça que Ele oferece (São Paulo cita Abraão como um exemplo desse segundo grupo).

O Salmo 14 mostra que o grupo dos “malvados”, que são caracterizados como “não há um justo, nem mesmo um só. Não há homem sensato, não há um que procure a Deus”, não são toda a população da terra. Sabemos que Paulo não citaria um versículo fora de contexto e contrário ao significado original porque ele seria rejeitado pelos judeus com quem falava. Então, o assunto de Paulo não quer dizer que todos somos intrinsecamente maus e completamente impossibilitados de fazer o bem, de obedecer aos mandamentos de Deus.

A vida do Rei Davi é repleta de maldades e guerras provocadas pelos seus companheiros judeus. Saul e seu filho Absalão lutaram contra ele. Mesmo alguns judeus são maus. Portanto, o que São Paulo está querendo dizer na citação do salmo 14 em sua carta aos romanos é que, somente pelo fato dos judeus serem descendentes de Abraão (pela carne), isto não os faz justificados. E que é somente pela fé em Deus que permitirá a eles, pela Sua graça, realizar a Sua vontade e serem justificados.

1Cor 6,11 “Mas fostes lavados, mas fostes santificados, mas fostes justificados em nome do Senhor Jesus Cristo e pelo Espírito de nosso Deus”.

Mt 7,21 “Nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos céus, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus”

Mt 12,50 “Todo aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe”

ROMANOS 3,28 ? OBRAS DA LEI VERSUS BOAS OBRAS

“De fato, nós estimamos que o homem é justificado pela fé, independentemente das obras da lei”.

Os protestantes apontam este versículo como base de sua doutrina da justificação somente pela fé separada das obras da lei. Muitos desconhecem a doutrina da Igreja Católica sobre este e outros assuntos. Eles erradamente pensam que o Catolicismo ensina que a pessoa pode ganhar sua salvação e que as “boas obras” são o que fazemos (nós católicos) para merecer a graça de Deus, e aí poderem ser salvos. Dessa forma, três coisas devem ser examinadas em consideração a estas afirmações protestantes:

1- O ensino oficial da Igreja Católica;

2- O significado do termo “boas obras” e;

3- O significado da frase “independente das obras da lei”.

A justificação é um dom gratuito de Deus. Nunca poderemos ganhá-la pelas nossas próprias obras. Houve uma heresia chamada Pelagianismo que ensinava que o homem poderia ser salvo por seus próprios esforços. Tal heresia foi condenada pela Igreja Católica no sexto século pelo Concílio de Orange.

O Segundo Concílio de Orange (529), aceito como dogmático pela Igreja Católica, em seu cânon 7, afirma: “Se alguém afirmar que podemos, por nossas forças naturais, escolher algum bem concernente à salvação para a vida eterna… sem a iluminação e inspiração do Espírito Santo… está enganado por espírito de heresia…”(segue citando Jo 15,5 e 2 Cor 3,5).

E sobre a noção Católica de mérito o mesmo Concílio afirma, no cânon 18: “Esta graça não é precedida por mérito. A recompensa é dada às boas obras realizadas; mas a graça, a qual não temos nenhuma autoridade, precede a elas, para que permita que as façamos” (NT: “elas” são as boas obras).

Cânon 20: “Que o homem não pode fazer nada de bom sem Deus. Deus realiza mais o bem ao homem que o homem realiza o bem para Deus; mas o homem nada faz de bom que Deus não seja o responsável, permitindo-o fazê-las”.

Conclusão: “… Acreditamos e confessamos para o nosso benefício que em toda boa obra não somos nós que tomamos a iniciativa e que estas são assistidas pela misericórdia de Deus, mas o próprio Deus inspira-nos tanto na fé e no amor a Ele… Devemos, portanto, evidentemente crer que o louvor do ladrão que foi chamado pelo Senhor ao paraíso, e de Cornélio, o centurião, a quem o anjo do Senhor foi enviado, e de Zacarias, que foi digno de receber o próprio Senhor, não foi um dote natural, mas um dom da bondade de Deus”.

Em 13 de Janeiro de 1547, durante o Concílio de Trento, o assunto sobre a justificação foi colocado na sexta sessão do Decreto Sobre a Justificação. Afirma o capítulo 8:

Cap. 8 ? Como se deve entender a justificação gratuita do pecador pela fé.

O Apóstolo diz que o homem é justificado pela fé e sem merecimento (Rm 3, 22. 24). Estas palavras devem ser entendidas tais como sempre concordemente a Igreja Católica as manteve e explicou. “Nós somos justificados pela fé”: assim dizemos, porque “a fé é o princípio da salvação humana”, o fundamento e a raiz de toda justificação, sem a qual é impossível agradar a Deus (Hb 11, 6) e alcançar a companhia de seus filhos. Assim, pois, se diz que somos justificados gratuitamente, porque nada do que precede à justificação, nem a fé nem as obras, merece a graça da justificação. Porque se ela é graça, já não procede das obras; do contrário a graça, como diz o Apóstolo, já não seria graça (Rm 11, 6).

Alguns protestantes vêem a graça justificante como uma recompensa que Deus dá aos que fizeram a escolha de ter fé em Cristo. Por outro lado, os católicos entendem que nada que o homem faça pela sua própria vontade e esforço resultará na sua justificação. Somente a verdadeira fé é a fé salvífica e somente a obtemos pela graça de Deus. Desta forma, a fé salvífica é um dom de Deus e nunca pode ser merecida. Sendo assim, o processo do batismo de crianças nos mostra mais claramente este aspecto gratuito da nossa salvação. No batismo a pessoa (a criança, no caso) recebe gratuitamente os dons da fé, esperança e caridade ? as virtudes teologais. Sem a graça de Cristo ninguém pode entrar no céu. Jo 14,6 “Ninguém vai ao Pai senão por mim”.

Tito 3,5 “…E, não por causa de obras de justiça que tivéssemos praticado, mas unicamente em virtude de sua misericórdia, ele nos salvou mediante o batismo da regeneração e renovação, pelo Espírito Santo”

Ef 2,8-10 “Com efeito, é pela graça que sois salvos por meio da fé. Isto não depende de vós, é dom de Deus. Não provém das obras, para que ninguém se glorie. Somos obra sua, criados em Jesus Cristo para as boas obras, que Deus de antemão preparou para que nós as praticássemos.”

Pelas citações acima podemos perceber que existem dois tipos de obras. Existem aquelas que fazemos por nossa própria vontade ? como as obras da lei ? que não nos salva, e existem as “boas obras” que somente são possíveis pelo poder infinito da graça de Deus agindo em nossas vidas.

Tg 2,24 “Averiguais que o homem deve sua justiça às obras e não somente à fé”

Sabemos que as “boas obras” são verdadeiramente boas por que a Bíblia nos afirma que são “boas”. A razão porque elas são boas é porque são obras de Deus que atua através de nós. Não somos capazes de realizar “boas obras” afastados da graça de Deus, pois elas são manifestações desta mesma graça em nós. Tudo o que é bom tem em Deus sua origem.

Jo 6,28-29 “Então eles lhe disseram: ?que devemos fazer para trabalhar nas obras de Deus?? Jesus lhes respondeu: ?a obra de Deus é que creiais naquele que Ele enviou”.

Ter fé é uma boa obra que devemos fazer.

O Concílio de Trento, no capítulo 16 da sessão 6, no Decreto Sobre a Justificação, afirma: “…Assim, portanto, a nossa própria justiça não se estabelece como própria, como se de nós decorresse, e também não se ignora ou se repudia a justiça de Deus (Rm 10, 3). Esta Justiça é denominada a nossa, porque somos justificados por ela, que inere intimamente em nós [cân. 10 e 11]. E esta mesma é a de Deus, em vista dos merecimentos de Cristo infundida em nós”

Deus não nos força a aceitar sua graça. Nós consentimos com ela pelo nosso “sim” a Ele. Nossas boas obras não são bens intrínsecos adicionados às obras de Cristo, mas são os resultados das obras de Cristo em nós. Entretanto, devemos consentir em aceitar a graça de Deus para que estas se realizem. Mas, mesmo nossa fé e nosso consentimento à graça de Deus somente são possíveis pela ajuda desta mesma graça. Deus nos dá o dom do livre arbítrio para aceitar ou rejeitar a graça. Em nossa justificação, ou santificação, a graça de Deus está envolvida do começo ao fim. Sua graça não somente nos torna capazes de fazer Sua vontade, mas também é necessária para que nos induza a fazê-las. Então, portanto, nossas boas obras são manifestações de Sua graça. E é esta graça que torna a nossa fé uma fé salvífica.

Os católicos não crêem que nossas obras sejam necessariamente de valor. Isto também é verdade para nossa fé. Tornando-se de valor, foi devido Deus, que graciosamente, as fez como tais. Elas podem ser dignas, verdadeiramente boas, somente pela graça de Deus. Somente por essa graça elas são elevadas a um santo e salvífico nível. Quando Deus as conecta à Cristo e à Cruz, elas se tornam verdadeiras boas obras e fé salvífica. “A graça… assegura a qualidade sobrenatural de nossos atos e, por conseguinte, o seu mérito diante de Deus como também diante dos homens” (CCE 2011). É pela obra da graça de Deus em nós que nos permite que nossas obras e fé sejam agradáveis a Ele. Agostinho diz assim, “Todos os nossos bons méritos são lavrados pela graça, por isso Deus, recompensando nossos méritos, não recompensa nada mais que o Seu dom”. Devemos cooperar com a graça de Deus: “Não extingais o Espírito” (1Ts 5,19).

A justificação parece ser complicada à primeira vista, mas é tão simples quanto uma criança que obedece ao seu pai, porque ela sabe que o seu pai vai protegê-la e salvá-la. Deus diz para obedecermos aos mandamentos. Ter fé em Deus é ter fé que este é o melhor caminho. Quando eu desobedeço, estou mostrando que não estou caminhando na (verdadeira) fé. Isto é, se peco de forma mortal, estou dizendo que acredito que esta maneira é melhor para mim que a de Deus e, conseqüentemente, isto é uma rejeição à fé. A verdadeira fé consiste na observância da lei moral, pela graça de Deus agindo em nós por amor a Ele. Não podemos separa a fé das boas obras como Martinho Lutero tentou fazer. A Bíblia nunca usa o termo “boas obras” em um contexto fora da fé e da graça de Deus.

A justificação envolve a aceitação de nós mesmos às obras de Deus em nossas vidas ? as boas obras.

Is 55,11 “…Assim se comporta a minha palavra desde que sai da minha boca: ela não volta para mim sem resultado, sem ter executado o que me agrada e coroado com êxito aquilo para que eu a enviara”.

A Palavra de Deus manifesta tudo o que declara. Quando Deus declara que nós sejamos justificados, nós seremos justificados.

Fl 2,12-13 “Assim, meus bem-amados, vós que sempre fostes obedientes, sede-o não somente na minha presença, porém muito mais agora na minha ausência; com temor e tremor ponde por obra a vossa salvação. Pois é Deus quem opera em vós o querer e o fazer segundo o seu desígnio benevolente”.

Vemos que a justificação é um processo gradual que envolve obediência e a realização de boas obras. A fonte da bondade destas obras é a graça de Deus que foi-nos ganho por Cristo Jesus. E mais, este versículo nos mostra que esta graça não é somente imputada, isto é, nos encobre, como dizem os protestantes, mas continuamente infundida, isto é, para dentro de nós.

O pecado é uma doença espiritual. A graça de Deus não somente perdoa nossos pecados, mas também nos cura deste estado por remover os pecados. Falhar em apreciar o poder da graça de Deus é um erro. Não somos apenas encobertos pela sua justiça, mas somos também preenchidos por essa justiça, pela Sua graça, ou em outras palavras, pela Sua vida. Sua graça nos transforma e nos torna justos. Nos torna alvos como a neve.

Sl 51,9 “…Lava-me, e serei mais branco do que a neve”.

Ele nos faz santos. Ser preenchido pela Sua graça envolve tomar nossa cruz e segui-lo. Isto significa morrer para o pecado. Se realmente temos fé em Deus então acreditamos que o Seu caminho é o melhor e pelo amor preferimos este caminho ao do pecado. No livro do Apocalipse lemos que, para entrar no paraíso, devemos não somente ter nossos pecados perdoados, mas também ser transformados, pela graça de Deus, e nos tornar puros e sem pecado. Ap 21.27 “Nela não entrará nada impuro, nem quem pratique a abominação e a mentira, mas unicamente os que estão inscritos no livro da vida do Cordeiro”(uma pessoa pode ainda permanecer em estado de graça se os pecados de sua alma não são pecados mortais. Todos os pecados são errados, mas nem todos levam à morte. Cf. 1 Jo 5,14-17).

1 Cor 13,2 “…Mesmo que tenha a fé mais total, a que transporta as montanhas, se me falta o amor, nada sou”.

AS LEIS RITUAIS CERIMONIAIS DO ANTIGO TESTAMENTO E A LEI MORAL

1 Cor 9,20-21 “Eu estive com os judeus como um judeu, para ganhar os judeus, com os que estão sujeitos à lei, como seu eu o estivesse ? ao passo que eu mesmo não estou ? para ganhar os que estão sujeitos à lei; com os que são sem lei como se eu fosse sem lei ? quando não sou sem lei de Deus, visto que cristo é a minha lei ? para ganhar os que são sem lei”

Para auxiliar a sua conversão, São Paulo identifica a sim mesmo com os judeus, que estavam “sujeitos à lei”, isto é, as leis cerimoniais do Antigo Testamento, ainda que ele não esteja sujeito a elas. Também se identifica com os gentios que não estavam sujeitos a essa lei. Contudo, ele mesmo diz que está sujeito à “Lei de Cristo” ? que são as leis morais dos 10 mandamentos. Então, vemos o termo “lei” sendo usado com dois significados diferentes: as leis cerimoniais do Antigo Testamento, e a lei de Cristo.

A “lei de Cristo” está nos 10 mandamentos: 1Jo 5,2-3 “Nisto reconhecemos que amamos os filhos de Deus, se amamos a Deus e cumprimos os seus mandamentos. Pois nisto consiste o amor de Deus: em guardar os seus mandamentos”

Mt 19,16-19 “E eis que um homem aproximou-se de Jesus e disse: ?mestre, que devo fazer de bom para ter a vida eterna??… ?Se queres entrar na vida eterna, guarda os mandamentos?. ?Quais??, disse ele. Jesus respondeu: ?não cometerás homicídio, não cometerás adultério, não roubarás…”

Hb 7,11 “Se se tivesse chegado a um cumprimento perfeito pelo sacerdócio levítico ? pois ele era a base da legislação dada ao povo ? que necessidade havia de suscitar outro sacerdote na linhagem de Melquisedec, em vez de designá-lo na linhagem de Aarão?”

Esta citação de Hebreus é um exemplo da “lei” sendo usada para significar a lei cerimonial do Antigo Testamento preferencialmente à lei moral. O sacerdócio levítico (veja Ex 32,29; Dt 9,16, 10,8, 18,1) surgiu após o incidente do bezerro de ouro. A Lei Moral ? os dez mandamentos ? surgiram antes disso. Portanto, “a lei”, recebida pelo sacerdócio levítico, não pode significar a lei moral. Em vez disso, significa a lei cerimonial do Antigo Testamento, por exemplo, o sacrifício de animais, a circuncisão, a dieta, a observância levítica, etc. Novamente, isto ilustra as duas “leis” diferentes que a Bíblia refere (Deuteronômio vem de “deutero” ? que significa “segundo”, e “nomo”, que significa “lei”).

O livro de Gálatas 3 mostra como somos justificados pela fé e não pelas “obras da lei”.

Gl 3,2 “… Será em virtude da prática da lei que recebestes o Espírito, ou por terdes escutado a mensagem da fé?”

Do contexto de Gálatas, veja abaixo, podemos ver que as “obras da lei” se referem às leis cerimoniais do Antigo Testamento, como a circuncisão.

Gl 5,3-6 “E eu atesto mais uma vez a todo homem que se faz circuncidar que ele é obrigado a praticar a lei integralmente. Vós rompestes com o Cristo, se fazeis consistir a vossa justiça na lei; decaístes na graça. Quanto a nós, é pelo Espírito, em virtude da fé, que esperamos que se realize o que a justificação nos faz esperar. Pois, para quem está em Jesus Cristo, nem a circuncisão, nem a incircuncisão são eficazes, mas a fé que age pelo amor”

Os judaizantes diziam que todos os rituais do Antigo Testamento, as “obras da lei” como a circuncisão, eram requeridas aos cristãos. São Paulo corrige este entendimento contrastando estes dois tipos de obras. Note que Paulo não separa a fé das boas obras feitas com amor, com a supervisão da graça de Deus.

Rm 3,28 “De fato, nós estimamos que o homem é justificado pela fé, independentemente das obras da lei”.

Quando interpretamos Rm 3,28 precisamos descobrir o que Paulo quer dizer com as palavras “obras da lei”. Devemos considerar o contexto. Paulo está falando da circuncisão. Está explicando o que significa e o que não significa a circuncisão. Está corrigindo o mal-entendimento dos judeus dos seus dias, que afirmavam sua justificação diante de Deus pela circuncisão, e era uma exigência mesmo para os gentios. Em Rm 2,25-3,1 ele menciona a circuncisão dez vezes.

A frase “obras da lei” primeiramente significa os rituais cerimoniais do Antigo Testamento, como a circuncisão, que não se aplicam mais à Nova Aliança. (com outro sentido pode ser aplicada a toda lei que tentamos praticar seguindo nossas próprias conveniências e afastada da graça que nos foi ganha por Cristo e do Seu amor agindo em nossos corações).

A JUSTIFICAÇÃO DE ABRAÃO

Seguindo a discussão no capítulo 3, no capítulo 4 São Paulo mostra a vida de Abraão como um exemplo para provar seu ponto de vista. Novamente se refere à circuncisão. De 4,9 até 4,12 ele menciona a circuncisão mais 11 vezes para mostrar que Abraão não fora justificado pela circuncisão. A frase “obras da lei” está relacionada à circuncisão ou outra prática ritual cerimonial do Antigo Testamento. Note o que São Paulo não fala. Ele não fala sobre alimentar os pobres, vestir os que estão precisando de roupa, ou sobre atos de misericórdia. Ele não está falando de “boas obras”, mas “obras da lei”. Paulo está preocupado com as leis cerimoniais que foram dispensadas no Concílio de Jerusalém, e por isso não são mais necessárias. Esta verdade estava contrastando com os judaizantes que pregavam que a circuncisão, assim como outras leis cerimoniais do Antigo Testamento, ainda tinham efeito.

Rm 4,3 “Abraão teve fé em Deus e isto lhe foi levado em conta de justiça”. Os protestantes vêem neste versículo uma prova de que a justiça se dá mediante somente a fé, sem a obediência à lei moral, que são as boas obras. Este foi o momento, eles dizem, em que Abraão foi justificado. Mas, se São Paulo está usando a vida de Abraão como exemplo para provar que a pessoa é justificada somente pela fé, sem obediência à lei moral, então São Paulo está deturpando um texto fora do seu contexto e tentando provar algo que não está no seu devido lugar. Esta forma de raciocínio seria totalmente refutada pelas pessoas a quem ele está falando porque conheciam o Antigo Testamento tão bem quanto as palmas de suas mãos.

Rm 4,3 está citando Gn 15,6. Contudo, lemos em Hb 11,8-9 “Pela fé, Abraão, respondeu ao chamamento, obedeceu, e partiu para um lugar que devia receber em herança, e partiu sem saber para onde ia. Pela fé, veio residir como estrangeiro na terra prometida, morando sob a tenda com Isaac e Jacó, co-herdeiros da mesma promessa”. Abrão deixou a casa de seus pais pela fé e obediência, isto aconteceu em Gn 12, portanto três capítulos antes de Gn 15,6. e pelo contexto do versículo 2 vemos que o autor de Hebreus está falando da fé salvífica.

Hb 11,1-2 “A fé é um modo de possuir desde agora o que se espera, um meio de conhecer realidades que não se vêem. Foi ela que valeu aos ancestrais um bom testemunho”.

De Gênesis 12 até Gênesis 15,6 vemos Abraão realizando obras de obediência aos mandamentos de Deus e vivendo uma vida repleta de todo tipo de boas obras. Abrão foi chamado a deixar a terra de seus parentes e a casa de seu pai quando tinha 75 anos de idade em Gn 12. Deus lhe prometeu abençoá-lo no versículo 2. De Gn 12 a Gn 14 Abrão anda em obediência ao Senhor. Constrói santos altares para o Senhor, e invoca o Senhor pelo nome (Gn 12,7-8; 13,18). Abrão combateu pelo Senhor e enfrentou os quatro reis que derrotaram os cinco reis, e libertou seu sobrinho Lot. Também no capítulo 14 ele adora a Deus juntamente com Melquisedec, que era “sumo-sacerdote de Deu altíssimo”. Melquisedec por sua vez deu sua bênção a Abrão. Este lhe deu o dízimo de tudo. Todos estes atos de obediência ou boas obras foram feitos pela fé antes de Gn 15,6.

Se Paulo está tentando demonstrar que Abraão foi justificado somente pela fé à parte da obediência em Rm 4,3 então este próprio exemplo de Paulo contradiz a si mesmo. Quando Paulo diz que o homem é justificado pela fé sem as obras da lei, ele não se refere às boas obras, mas às leis cerimoniais do Antigo Testamento, como a circuncisão. Quando os judeus são circuncidados, são iniciados na Antiga Aliança e são obrigados a seguir todas as lei cerimoniais, por exemplo, os sacrifícios do templo, o Sabbath judaico, as leis alimentares, etc. É importante notar que Abrão não foi circuncidado até Gn 17 e é isto que Paulo está demonstrando aos judaizantes, que os gentios não mais necessitam dela.

Rm 3,28 “De fato, nós estimamos que o homem é justificado pela fé, independentemente das obras da lei”.

Se Paulo não se refere às boas obras na frase “obras da lei” em Rm 3,28 em relação a Abraão em Rm 4,3, então ele está:

a- Respeitando o contexto,

b- Delineando conclusões adequadas a partir do contexto e

c- Confirmando o conceito Católico de Justificação.

Tg 2,24 “Averiguais que o homem deve sua justiça às obras e não somente à fé”

O Espírito Santo inspirou o apóstolo Tiago quanto ao seu ensino sobre a Justificação. Pelo contexto podemos ver que Tiago tem algo diferente em mente de Rm 3,28 quando fala sobre as obras.

Tg 2,14-16 “Meus irmãos, de que serve alguém dizer que tem fé, se não tem obras? Pode a fé salvar, neste caso? Se um irmão ou irmã não tem com que se vestir e o que comer todos os dias, e um de nós lhe disser: ?Ide em paz, aquecei-vos, bom apetite!? sem, porém, lhes dar o necessário para subsistir, de que adiantaria?”.

Tiago não está falando sobre circuncisão ou sobre leis cerimoniais do Antigo Testamento. Está falando sobre obras de misericórdia, que são as boas obras, obras que são manifestação da graça de Deus em nós.

Alguém poderia dizer que Paulo fala sobre matrimônio no capítulo 7. Mas, notemos o que ele não faz: ele não nos dispensa do matrimônio, como faz com as obras da lei cerimonial do Antigo Testamento como circuncisão, Sabbath, e dieta.

Nos últimos 8 anos, mais ou menos, com a ajuda do recentemente traduzido documento 4QMMT, dos Manuscritos do Mar Morto, pesquisadores têm sido capazes de verificar que a frase “obras da lei” é uma frase idiomática, ou uma fórmula comum, significando os rituais cerimoniais do Antigo Testamento.

NÃO SOMENTE UM EVENTO PASSADO

Alguns protestantes entendem a justificação na vida do crente como um evento passado. Alguns citam Jo 19,30 “Tudo está consumado. Inclinou a cabeça e rendeu o espírito”. E dizem que isto significa que não podem mais perder sua salvação, porque ela foi um evento passado.

Jo 19,30 “…Está consumado…”. Sobre o quê está consumado não podemos relacionar à justificação, porque lemos em Rm 4,25 “…Entregue por nossas faltas e ressuscitado para a nossa justificação”. Vemos em Hb 11,9 que a justificação de Abraão foi um ato contínuo em sua vida. Tiago também fala sobre o mesmo assunto.

Tg 2,21 “Abraão, nosso pai, não foi à obras que deveu sua justiça, por ter posto seu filho Isaac sobre o altar?”.

A salvação possui um aspecto no passado, presente e futuro de nossas vidas. É por isso que a Bíblia fala nas formas passadas, presentes e futuras.

Passado:

Ef 2,8 “É pela graça que sois salvos por meio da fé”.

Presente:

1Pe 3,21 “Esta era a figura do batismo, que atualmente vos salva”

1Cor 1,18 “Com efeito a linguagem da cruz é uma loucura para os que se perdem, mas para os que estão sendo salvos, para nós, ela é poder de Deus”.

Futuro:

Gl 2,17 “Mas se, procurando ser justificados em Cristo, também nós fomos achados pecadores, acaso seria Cristo ministro do pecado? Por certo que não”

Mt 24,13 “Mas quem perseverar até o fim, este será salvo”

1Cor 7,18-19 “Um era circunciso quando foi chamado? Não dissimule a sua circuncisão. Outro era incircunciso? Não se faça circuncidar. A circuncisão nada é, a incircuncisão nada é: tudo está em observar os mandamentos de Deus”.

Aqui, em Coríntios, São Paulo, contrasta as leis cerimoniais, como a circuncisão, com os dez mandamentos. O que conta é a lei moral. Se ele quisesse dizer que somos justificados somente pela fé sem as boas obras, a obediência em manter estes mandamentos, não teria falado desta forma. Perseverar nos mandamentos é a nossa longa jornada para a justificação. Se cairmos em pecado mortal (1Jo 5,16-17), perderemos nossa salvação.

Gl 5,16.19-22 “Escutai-me: andai sob um impulso do Espírito Santo e não façais mais o que a carne deseja… As obras da carne são bem conhecidas: libertinagem, impureza, devassidão, idolatria, magia, ódios, discórdia, ciúme, cólera, rivalidades, dissensões, facções, inveja, bebedeiras, orgias e outras coisas semelhantes; os autores destas coisas, eu vos previno, como já disse, não herdarão o Reino de Deus. Mas eis o fruto do Espírito: amor, alegria, paz, paciência, bondade, benevolência, fé…”.

Se uma pessoa não pudesse perder a salvação não teria sentido este aviso. A quebra de um destes mandamentos levaria a pessoa ao inferno, (a menos que seja resgatado pela glória de Deus. Cf. Jo 20,21-23; Tg 5,13-16; Lc 15.23-24; 1Jo 5,14-17)

Rm 1,5 “?Por Ele nós recebemos a graça de ser apóstolo, a fim de conduzir à obediência da fé, para a glória de Seu nome, todos os povos pagãos.”

Rm 16,26 “…Mas agora manifestado elevado ao conhecimento de todos os povos pagãos por escritos proféticos, segundo a ordem do Deus eterno,para conduzir à obediência da fé, a Deus, único sábio,…”

Os que pretendem separar a fé das boas obras está optando por uma posição que São Paulo nunca fez. Ele não somente inicia como finaliza seu discurso sobre a fé no contexto da obediência. Nunca separou o obedecer a lei moral da fé. A obediência de Cristo à lei moral não nos exclui de obedecê-la da mesma forma, mas por Ele ter-nos ganho a graça, esta nos capacita a obedecê-las.

Fl 4,13 “Tudo posso naquele que me dá forças”

Rm 6,15-16 “E então? Vamos pecar porque não estamos mais sob a lei, mas sob a graça? Não, decerto! Não sabeis que, pondo-vos a serviço de alguém como escravos para lhe obedecer, sois escravos daquele a quem obedeceis, quer do pecado, que conduz à morte, quer da obediência, que conduz à justiça?”

Sabemos que Paulo era cristão (Gl 2,19-20), mas até mesmo ele nos diz que poderia perder a salvação se ocorresse de se afastar do Evangelho.

1Cor 9,27 “Mas trato duramente o meu corpo e o mantenho submisso, a fim de que não ocorra que depois de ter proclamado a mensagem aos outros, eu mesmo venha a ser eliminado”.

Os protestantes contestam que a palavra “eliminado” se refere à perda da glória, do mérito extra, e não se refere a perda da salvação de Paulo. Então a chave do assunto é demonstrar o que significa tal palavra.

“Eliminado” (NT: na RSV a palavra usada é “desqualificado, inabilitado”) é tradução da palavra grega “adokimos”. São Paulo torna claro o significado desta palavra em sua segunda carta aos Coríntios.

2Cor 13,5 “Fazeis vós mesmos a vossa autocrítica, vede se estais na fé, provai a vós mesmos: ou não reconheceis que Cristo está em vós? A menos que a prova se volte contra vós.”.

Aqui São Paulo usa a mesma palavra grega, “adokimos”, para entendermos que, quando a prova se volta contra nós, somos reprovados (eliminados) (NT: Na tradução da vulgata, a palavra usada é exatamente “reprovados”).

A salvação pode ser perdida.

Imaginem um homem dizendo a sua esposa “continuo amado você, apenas amo esta outra mulher muito mais”. O pecado quebra a aliança que fizemos com Deus.

A história do filho pródigo nos diz que a pessoa pode desistir de sua herança à vida eterna. Lc 15,32 “Mas era preciso festejar e alegrar-se porque este ter irmão tinha morrido, e está vivo; estava perdido, e foi reencontrado”.

Rm 11: 13-24 “Digo-vos, pois, a vós, pagãos…Dirás, sem dúvida: ?cortaram-se ramos para que eu fosse enxertado?. Muito bem, eles foram cortados por causa da sua infidelidade, e tu, é pela fé que te manténs. Não te orgulhes, antes teme. Pois se Deus não poupou os ramos naturais, tampouco a ti pouparás”

Portanto, este versículo nos ensina que podemos falhar na benignidade, isto é, no amor, e ser “cortados fora”, que significa claramente perder a salvação.

Na oração do Senhor, o Pai-Nosso, pedimos a Deus que perdoe nossos pecados na mesma medida que perdoamos os dos outros.

Mt 6,12 “Perdoa-nos as nossas faltas contra Ti, como nós temos perdoado aos que tinham faltas contra nós”.

A teologia desta oração não é compatível como o entendimento protestante da justificação. Jesus também diz em Mt 18,33-35 “?…Não devias, também tu, compadecer-te do teu companheiro, como eu me compadecera de ti?? E,cheio de cólera, seu senhor o entregou aos verdugos, até que pagasse tudo o que devia. Assim vos tratará meu Pai celeste, se cada um de vós não perdoar a seu irmão do fundo do coração”.

CONCLUSÃO

Se alguém diz que Rm 3,10-12 ensina a “justificação somente pela fé” sem as boas obras está dizendo que Paulo está citando um versículo do Antigo Testamento fora do seu sentido original. Também deve explicar porque São Paulo se “contradiz” quando em Rm 2: 6-11 escreve: “…Que retribuirá a cada um segundo as suas obras: vida eterna para aqueles que, por sua perseverança em praticar o bem, procuram a glória, honra e incorruptibilidade, mas cólera e indignação para aqueles que, por rebeldia (NT: desobediência), revoltam-se contra a verdade e se submetem à justiça. Tribulação e angústia para todo ser humano que comete o mal, par ao judeu primeiro e também para o grego; glória, honra e paz para todo aquele que pratica o bem, para o judeu primeiro e também para o grego, pois em Deus não há parcialidade”.

Tal pessoa também deverá explicar as “contradições” acima assim como Rm 16,26 tal como as palavras de Jesus sobre o julgamento final em Mt 25: 31-46 “Quando o Filho do Homem vier em sua glória…Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: ?Vinde, benditos do meu Pai, recebei em herança o Reino que foi preparado para vós desde a fundação do mundo. Porque eu tive fome e me deste de comer, tive sede e me deste de beber; eu era estrangeiro e me acolheste…” e em 2 Cor 5,10 “Pois todos deveremos comparecer a descoberto diante do tribunal de Cristo, a fim de que cada um receba o prêmio do que tiver feito durante a sua vida corporal, seja o bem, seja o mal”.

Em qualquer lugar o ensinamento da Igreja Católica põe em harmonia todas estas passagens da Escritura. Nossa justificação é efetuada somente pela graça de Deus. Boas obras, que somente são possíveis pela graça salvífica de Jesus Cristo por nós, são de fato esta graça manifestada em nós.

1 Cor 13,2-3 “…Mesmo que tenha a fé a mais total, a que transporta montanhas, se me faltar o amor, nada sou Mesmo que distribua todos os meus bens aos famintos, mesmo que entregue o meu corpo às chamas, se me falta o amor, nada lucro com isso”.

Agora se São Paulo realmente acreditasse que somos salvos somente pela fé, teria dito “Se somente tiver fé, ao menos seremos cristãos salvos”.

MARTINHO LUTERO

Ele não entendeu o que significavam as “boas obras” para a Igreja Católica. Ele pensou e entendeu que elas fossem um lado da barganha, o bem que faríamos para obter a graça de Cristo. O que ele não entendeu é que “boas obras” são exatamente a graça e a obra de Cristo que vive em nós.

Vejamos que Rm 3,28 foi modificado pela tradução de Lutero.

v.28 “De fato, nós estimamos que o homem é justificado (somente)? pela fé, independentemente das obras da lei” (RSV)

A tradução para o alemão de Lutero neste versículo (NT: Para não perder o sentido, e melhorar a compreensão da comparação, reproduzimos aqui o original em inglês):

So [So] halten [hold] wir [we] nun [now] dafür [of], daß [that] der [the] Mensch [mankind] gerecht [righteous or justified] werde [will be] ohne [without] des [the] Gesetzes [Law] Werke [Works], allein [alone] durch [through] den [the] Glauben [Faith].

É verdade que Paulo disse que, para sermos justificados, não precisamos mais das obras da lei ? os rituais cerimoniais do Antigo Testamento – mas Martinho Lutero afirmou que nem mesmo precisamos das boas obras. Ele adicionou a palavra “allein” (NT: “alone” ? somente, no contexto) em Rm 3,28 na sua tradução da Bíblia, ainda que esta não apareça na versão grega original.

Ele mesmo admitiu que a palavra não está no original grego, mas disse que foi perdoado ao adicioná-la.

Tg 2,24 diz “Averiguais que o homem deve sua justiça às obras e não somente à fé”. Mas Lutero não aceitou o livro de Tiago como Palavra inerrante de Deus porque contradizia sua teologia. Ao invés de alterar sua teologia, ele “simplesmente” alterou a Bíblia. Em seu prefácio sobre a carta de Tiago ele diz:

Mas este Tiago nada mais faz que aludir à lei e as suas obras. Além disso, ele junta os assuntos tão caoticamente que me parece que ele fora um homem bom e piedoso, mas que tomou algumas palavras dos discípulos dos apóstolos e deste modo as lançou ao papel… Em uma palavra, ele quis prevenir contra os que são direcionados à fé sem as obras, mas ele não estava à altura desta tarefa (a ênfase foi adicionada)

Para a visão de Lutero sobre outros livros sagrados da Bíblia clique (ou acesse) no link abaixo:

Martinho Lutero

O modelo protestante para a justificação é semelhante a uma corte judicial, onde Deus declara como inocente o culpado por um crime. Ele ainda será culpado de todos de todos os seus pecados, mas Deus somente cobrirá os pecados, e relevará a todos, fazendo do pecador um inocente.

Entretanto, quando Deus declara alguma coisa, Ele as define como tais. Ele criou o mundo com Sua Palavra. Se Deus disser “você é um gato”, então é melhor começar a miar. Quando Deus nos declara justificados, ele de fato nos faz justificados.

O entendimento sobre a justificação, como definida no Concílio de Trento, sessão 4, capítulo 4, é um dom divino. Deus divide conosco sua própria natureza divina. “Adotar” significa compartilhar sua natureza com a prole. Por exemplo, um homem não pode adotar um cachorro porque ele não pode compartilhar sua herança com este animal.

1 Jo 3,1 “Vede que grande amor nos outorgou o Pai, que sejamos chamados filhos de Deus; e nós o somos!”.

2 Pe 1,4 “Por elas foram-nos concedidos os bens do mais alto valor que nos tinham sido prometidos, para que, graças a eles, entrásseis em comunhão com a natureza divina”

O modelo católico sobre a justificação não é o de uma corte judicial, mas de uma “corte” familiar, onde Deus nos adota como Seus filhos. A base que precisamos para entender nossa justificação não é o da corte romana, mas ao invés disso, a aliança que Deus fez com Adão, Noé e Abraão, etc. Isto não reduz nossa responsabilidade porque um pai exige mais de um filho que um juiz de um advogado. De acordo com o entendimento protestante, o culpado ainda permanece com sua culpa, pois seus pecados somente são encobertos, “negligenciados”, diversas vezes. Ao passo que, de acordo com a Igreja Católica, a graça de Deus não somente encobre nossos pecados, mas também os remove. O pecador torna-se pleno da graça de Deus, transforma-se e é lavado por esta graça. A visão protestante da justificação é semelhante a uma ficção legal, onde Deus apenas finge que o pecador é purificado por causa de Cristo, enquanto que a visão católica é uma realidade. Nosso amado Pai nos adota como Seus filhos e nos torna santos por dividir a sua graça conosco.

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