04 – As Imagens

Arca da aliançaNão raro levantam-se objeções contra o uso católico de confeccionar imagens sagradas, visto que esta  parecem proibidas pela Lei de Deus. Com efeito, diz o Livro do Êxodo:

“Não farás para ti imagens esculpidas, nem qualquer imagem do que existe no alto dos céus ou do que existe embaixo, na terra, ou do que existe nas águas, por debaixo da terra. Não te prostrarás diante delas e não lhes prestarás culto” (Ex 20,4).

Os fieis católicos sentem-se, as vezes, em apuros param diante de tal texto, justificar a praxe católica de venerar  imagens. Eis porque, a seguir, abordaremos  o assunto, dando uma visão histórica do mesmo.

 I – A DOUTRINA BÍBLICA

A – NO ANTIGO TESTAMENTO

O Senhor vedou aos israelitas a confecção de imagens, visto que, na antigüidade pré-cristã as mesmas eram conservadas como símbolos de que a divindade estava presente, ou como a divindade mesma. Dada esta mentalidade dos povos vizinhos de Israel, o uso das imagens acarretava o perigo  para a fé monoteísta dos hebreus, pois as poderiam ter na mesma conta que as tinham os idólatras. Justamente para evitar a confecção de imagens, o Senhor não tomava forma quando falava a Israel. Desta maneira subtraia ao seu povo qualquer  ponto de apoio para fabricar  alguma representação de Deus. (Ver Dt 4,15-20).

Os profetas foram assaz veementes na rejeição das imagens visto que, de fato, Israel tendia à  idolatria; tenham-se em vista os textos de Is 40,18; 44,9-20; etc.

As razões remotas que levavam os antigos a adorar imagens, era muitas vezes de ordem mágica, pois julgavam que a imagem participava da essência do indivíduo representado ou que era o próprio indivíduo. Assim, quem fizesse a imagem de um deus capturava-o ou exercia  poder e domínio sobre ele; encerrava a força  da divindade dentro do respectivo artefato, podendo, então, dispor da ação poderosa da divindade.

Esta ação, incompatível com a noção elevada  e pura de Deus na revelação bíblica, explica adequadamente a proibição ao uso de imagens no AT.

Como se vê, a proibição de imagens no AT  não implicava  oposição entre o material e o espiritual. O sentido era bem mais profundo e se prendia ao conceito mesmo de Javé e devia incutir que o Senhor era diferente dos deuses dos outros povos, que podiam ser representados e  fixados em um determinado lugar porque eram ficções dos homens; ao contrário, Javé  se manifestava  livre e soberanamente onde e quando queria, infinitamente acima das forças  e dos seres sensíveis, pois Ele é o Criador de todos.

Não obstante, em certos casos, o Senhor permitiu e até mandou  que se confeccionassem imagens sagradas, a fim de elevar a piedade de Israel.

a)   Foi, por exemplo, o que se deu na fabricação da Arca da Aliança: por ordem explícita de Javé, Moisés colocou dois querubins de ouro sobre o propiciatório da Arca (Ex 25,17-22). Era pelo propiciatório assim configurado que o Senhor falava a seu povo. Em vista disso, a Bíblia costuma dizer que “Javé está assentados obre os querubins” (1Sm 4,4; 2Sm 6,2; 2Rs 19,15; Tc);

b)     No Templo construído por Salomão, diz o texto sagrado que foram confeccionados querubins de madeira preciosa para ficar junto à Arca da Aliança (1Rs 6,23-28); e mais: as paredes do Templo foram todas revestidas de imagens de querubins (1Rs 6,29s). tais obras se fizeram, sem dúvida, com a ordem ou a aprovação do próprio Deus (1Cr 22,8-13); que, já no deserto, “comunicara  a Beseleel seu espírito – espírito de sabedoria, inteligência e ciência – para realizar toda espécie de obras, para conceber e executar projetos de obras em ouro, prata e bronze… assim como para talhar a madeira” (Ex 31,1-5). Vê-se, assim, com que apreço Deus considerava  as esculturas de seu templo, já mesmo no regime do Antigo Testamento.

c)     Em Nm 21,4-9, encontramos  Deus ordenando a confecção da serpente de bronze para curar os que foram mordidos de cobra.

d)     O mar de bronze colocado à entrada do palácio de Salomão era sustentado  por 12 bois de metal (1Rs 7,23-26). Havia também  entre os ornamentos do palácio figuras de leões e querubins (1Rs 7,28s).

 Estes textos dão a ver que a proibição de confeccionar imagens não era absoluta no AT, mas condicionada por circunstâncias  em que vivia o povo de Israel.

B – O NOVO TESTAMENTO

Passados alguns séculos, o mesmo Senhor que se manifestara invisível, assume a figura de Jesus Cristo e vem viver na terra. Em sua pregação, Jesus ilustrou as realidade transcendentais (o Reino de Deus, a misericórdia do Pai, o dinamismo da graça…) mediante imagens inspiradas pelas realidade invisíveis; tal foi o significado das parábolas.

Ademais, a evolução das culturas fez que o ambiente greco-romano fosse menos dado à magia e mais penetrado pela filosofia do que o dos povos primitivos.  Isto veio permitir melhor compreensão do alcance da Encarnação do senhor e das imagens sagradas.

 II – UM POUCO DE HISTÓRIA

Nos primeiros séculos do Cristianismo, ainda se têm testemunhos de escritores  cristãos que apontam mal-entendidos ou abusos por parte dos fieis no uso das imagens.  Todavia, os cristãos foram percebendo que a proibição  de fazer imagens no AT  tinha o mesmo papel educativo que a Lei de Moisés em geral tinha junto do povo de Israel.  Por isto o uso das imagens foi se implantando. As gerações  cristãs compreenderam  que, segundo o método da pedagogia divina, atualizada na Encarnação, deveriam procurar subir ao Invisível passando pelo visível que Cristo apresentou  aos homens; a meditação das fases da vida de Jesus e a representação artística das mesmas se tornaram  recursos com que o povo fiel  procurou aproximar-se do Filho do Homem.

Já nos antigos cemitérios cristãos (catacumbas) se encontravam diversos afrescos inspirados pelos textos bíblicos. Nas igrejas  as imagens se tornaram a Bíblia dos iletrados e das crianças, exercendo função pedagógica de grande alcance.

Nos séculos VIII e IX verificou-se na Igreja a disputa em torno do uso das imagens ou a luta iconoclasta. Por influência do judaísmo, do islamismo, de seitas e de antigas heresias cristológicas, muitos cristãos do Oriente puseram-se a negar a legitimidade do culto das imagens.

Desencadeada sob o Imperador Leão Isáurico (717-741), a controvérsia foi levada ao Concílio de Nicéia II (787) que, na base do raciocínio de grandes teólogos como São João Damasceno, reafirmou a validade do culto de veneração (não adoração) tributado às imagens. Com efeito, o Concílio distinguiu entre latreia (adoração), devida somente a Deus e proskynesis(veneração), tributável aos santos e também às imagens sagradas na medida em que elas representam os santos ou o próprio Senhor; o culto às imagens é, portanto, relativo, só se explica na medida em que é tributado indiretamente àqueles que as imagens representam.

 III – A POSIÇÃO PROTESTANTE

Os reformadores do século XVI reagiram contra os excessos do culto às imagens existentes na Idade Média decadente; as suas invectivas provocaram a destruição de muitas imagens. Todavia, o próprio Lutero não foi intolerante, mas, de certo modo, liberal, como se depreende do texto abaixo, datado de 1528:

Tenho algo como deixado à livre escolha o uso das imagens, os sinos, as vestes litúrgicas… e coisas semelhantes. Quem não os  quer, deixe-os de lado, embora as imagens inspiradas pela Escritura e por histórias edificantes me pareçam muito úteis… Nada tenho em comum com os iconoclastas” (Da Ceia de Cristo).

Calvino, porém foi mais radical neste particular, como atestam os dizeres seguintes:

“Não julgo  lícito representar Deus sob forma visível, porque Ele proibiu que o fizessem e também porque sua glória  é assim desfigurada e sua verdade falsificada. Se não é lícito representar Deus sob forma corpórea, tanto menos será lícito adorar imagem no lugar de Deus ou adorar a Deus numa imagem. Por conseguinte, que ninguém pinte  ou talhe senão as coisas visíveis aos olhos” (Institution de la Religion Chrestinene 1 c.11, n. 12).

A propósito seja lícito observar que não se trata, para os católicos, de adorar  imagens, mas apenas de adorar a Deus mediante o estímulo que os sinais visíveis possam oferecer à mente do cristão.

A tradição protestante permaneceu avessa às imagens até os últimos tempos. No entanto, em 1956 no VIII Congresso Evangélico de Arte Sacra realizado em Karloruhe (Alemanha) novas vozes se fizeram ouvir:

a)      Os reformadores (Calvinistas) defendiam a opinião tradicional de que as imagens são contrárias à Bíblia e acarretam perigo de idolatria;

b)     Os luteranos, porém, replicaram que o preceito de Cristo mandando os discípulos pregar o Evangelho em todas as línguas inclui também o uso da linguagem figurada do artista (pintor ou escultor), pois tanto as impressões auditivas quanto as visuais são importantíssimas na evangelização.

Assim é que a antiga cláusula de Ex 20,4, dada ao povo de Deus ainda muito rude, vai sendo, entre os próprios protestantes, mais e mais interpretada à luz do conjunto da Revelação, que é toda irradicada  pela Encarnação do Filho de Deus.

IV – CONCLUSÕES

1.   Nós, católicos, adoramos unicamente a Deus Uno e Trino. Adoramos a Eucaristia porque ela é Jesus, o Pão descido do Céu.

A Virgem Maria nós a veneramos com culto de hiperdulia ou veneração especial; aos Anjos e Santos, nós veneramos com culto de dulia ou veneração.

O culto das imagens é relativo, não pára na madeira, no gesso m si, mas vai á realidade significada.  Assim, quando beijamos uma foto de nosso pai ou mãe, nosso ósculo não quer parar no papel, mas na pessoas que a foto representa. Batendo continência à Bandeira Nacional, não queremos honrar diretamente o pano em si, mas a Pátria que ela significa

2.    Não confundir ídolo com imagem sagrada. Ídolo é a representação de uma falsa divindade. Imagem sagrada é a representação de Jesus, da Virgem Maria, dos Anjos e Santos. O culto aos ídolos é proibido pela Bíblia e pela Igreja. As imagens sagradas não são proibidas. A Igreja aprova este culto relativo das imagens. Ela é coluna e base da verdade e não pode ensinar o erro.

3.  Os grandes milagres que acontecem por ocasião do culto das imagens  da Virgem Maria e dos Santos mostram que Deus não é contrário a esse culto relativo, mas que o aprova (ver Lourdes, Fátima, Guadalupe, Aparecida, Medalha Milagrosa, etc).

 Bibliografia

BETTENCOURT, Estevão. Diálogo Ecumênico. Temas controvertidos. 3a ed. Lumen Christi, Rio de Janeiro, 1989.

MELO, Fernando dos Reis de. Religião & Religiões: perguntas que muita gente faz. Editora Santuário, São Paulo, 1997.

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