15 – Que diz a Bíblia do antiCristo ?

anticristoDe todos os personagens mencionados pela Bíblia, nenhum se tornou tão enigmático e ao mesmo tempo tão mal conhecido como o Anticristo.

Não admira, por isso, que o tema tenha atraído tanto a atenção dos leitores da Bíblia, nem que de vez em quando surjam pessoas dizendo as coisas mais díspares ou disparatadas sobre ele.

O Anticristo, um problema

Tem-se afirmado que seria um judeu, filho de uma monja conversa e de um bispo, não teria anjo da guarda, nasceria blasfemando, adquiriria o conhecimento de todas as ciências, com enorme rapidez, que Satanás seria o seu companheiro permanente, e que faria prodígios mágicos como elevar-se no céu para imitar a Ascensão de Jesus Cristo.

Ao longo da História foi identificado com pessoas diferentes. Na Idade Média, por exemplo, com Maomé, fundador do islamismo; e, em épocas mais modernas, com Lutero, iniciador da reforma protestante. Várias vezes chegou-se, mesmo, a fixar o lugar e a data do seu nascimento.

A fonte principal donde as pessoas costumam extrair os pormenores acerca do Anticristo é o livro do Apocalipse. Daí se deduz que estará simbolizado pelo número 666, aparecerá no fim dos tempos e, com o seu poder, tentará dominar e destruir todos os fiéis de Cristo. Mas, o mais curioso é que o Apocalipse nunca nomeia o Anticristo. Tão-pouco falam dele os Evangelhos, nem as Cartas de São Paulo.

Os únicos lugares onde é mencionado pela Bíblia são as duas primeiras Cartas de São João; e o autor fá-lo precisamente para esclarecer essa crença que, tal como hoje, já então era revestida com ideias espúrias.

Donde vem esta ideia?

A espera de um Anticristo tem a sua origem numa lenda judaica. Recordando a sua dolorosa experiência do passado e as perseguições de que tinha sido objeto quase permanentemente ao longo da sua História, os judeus pensaram que também no futuro sofreriam esta situação. E assim, acreditaram que, quando chegasse o Messias (= o Cristo) no fim dos tempos, apareceria também um homem poderoso, que, com violência e crueldade nunca vistas, lhe faria guerra para aniquilar o povo de Deus.

O profeta Ezequiel já fala de um príncipe que aparecerá semeando com brutalidade o terror, e dá-lhe o nome enigmático de Gog (Ez 38,1-23).

Porém, mais tarde o livro de Daniel prognostica a chegada de um rei poderoso sob o símbolo de um corno pequeno, que blasfema contra Deus, oprime o seu povo e proíbe o culto (Dn 7,8-26). Embora Daniel se referisse ao rei Antíoco IV da Síria, que governou entre 176 e 164 aC e perseguiu o povo judeu durante vários anos, esta misteriosa visão fez surgir a lenda de um futuro ser terrorífico no fim dos tempos, do qual o rei assírio era apenas um precursor.

A sua passagem para o cristianismo

Esta crença judaica, que sobretudo ficou plasmada nos livros apócrifos escritos imediatamente antes do Novo Testamento, passou rapidamente para os primeiros cristãos. E mal começaram os problemas na primitiva igreja, as sangrentas perseguições e a feroz repressão, pensou-se que tudo isto estava orquestrado pelo famoso Anticristo que ia aparecer de um momento para o outro.

Surgiu, então, um sem-número de rumores sobre este sujeito. Onde iria aparecer, em que data, que poderes teria, que façanhas realizaria, que danos provocaria nos eleitos, e até como havia que preparar-se para combatê-lo.

O temor penetrou em todas as comunidades, e o pânico se apoderou da gente ao ponto tal que todo o mundo prestava mais atenção à maldade deste personagem contra a Igreja, que o dano que os seus próprios pecados lhe causavam a ela.

Era preciso esclarecer as coisas

Neste momento de confusão, o apóstolo João escreve a sua Primeira Carta às comunidades da Ásia. E entre outras coisas diz-lhes:

«Filhinhos, estamos na última hora. Ouvistes dizer que há-de vir um Anticristo. Pois bem, já apareceram muitos anticristos; por isso reconhecemos que é a última hora» (1 Jo 2,18).

Isto é, João alude à lenda judaica que era comentada nas comunidades cristãs. E, pegando na ideia, acrescenta: «Pois bem, já apareceram muitos anticristos.»Com isto, o autor da Carta esclarece-nos várias coisas:

Primeiro: aquilo que se tecia em volta da vinda do Anticristo eram simples mentiras e invenções das pessoas, às quais, tal como hoje, agradava urdir ficções especialmente sobre temas misteriosos e truculentos.

Segundo: não é verdade que vai existir apenas um Anticristo, mas vão ser muitos.

Finalmente: o tal Anticristo não iria vir no fim do mundo, pois vários já estavam a agir na comunidade.

Porém, João não se contenta com esta referência genérica, mas identifica os Anticristos e acrescenta:

«Quem é, então, o mentiroso? Quem é, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? Esse é o Anticristo, aquele que nega o Pai e igualmente o Filho» (1 Jo 2,22).

E para que não reste nenhuma dúvida, repete mais adiante: «Todo o espírito que não faz esta confissão de fé acerca de Jesus não é de Deus. Esse é o espírito do Anticristo, do qual ouvistes dizer que tem de vir; pois bem, ele já está no mundo» (1 Jo 4,3).

Outra Carta, se houver dúvidas.

Alguns anos mais tarde, João escreve uma Segunda Carta a estas igrejas, e volta a adverti-las acerca do mesmo:

«É assim que apareceram no mundo muitos sedutores que afirmam que Jesus Cristo não veio em carne mortal. Esse é o sedutor e o Anticristo!» (2 Jo 7).

Vemos, então, que o nome do Anticristo designava uma realidade actual no séc. I: quem negava que Jesus é o Cristo; quem rejeitava o Padre e o Filho; quem, com as suas ideias extraviadas, destruía a doutrina da Igreja sobre Cristo; um herege que induzia as pessoas a serem infiéis ao Senhor – qualquer um desses era, é e será um Anticristo, quer dizer, verdadeiramente adversário de Cristo.

Estes são os únicos quatro lugares em toda a Bíblia onde se fala do Anticristo, e precisamente para esclarecer a sua realidade. Em nenhuma outra parte se alude a ele.

São Paulo fala do Anticristo?

Os exegetas defendem que Paulo, embora não o mencione, também se refere ao Anticristo na 2ª Carta aos Tessalonicenses quando diz que «antes deve vir a apostasia e manifestar-se o homem da iniquidade, o filho da perdição, o adversário, aquele que se ergue contra tudo o que se chama Deus ou é objecto de culto, até ao ponto de ele próprio se sentar no trono de Deus e de se ostentar a si mesmo como Deus. […] o iníquo que o Senhor destruirá com o sopro da sua boca e aniquilará com o fulgor da sua vinda» (2 Ts 2,3-8).

Mesmo que assim fosse, muitos biblistas sustentam que este “iníquo” de São Paulo deve ser identificado com o Anticristo de São João, e portanto não é nenhuma pessoa concreta, mas um género, uma classe de pessoas, ou a personificação de todos os inimigos de Cristo. Isto deduz-se porque o próprio Paulo afirma nesse parágrafo que esse misterioso «homem da iniquidade» já está a actuar na sua época (2,7). E, se vivia no século I, não pode tratar-se de nenhum ser humano, mas antes de um protótipo de malícia que sempre existirá na História da Igreja, como uma réplica antagónica a Cristo.

O Anticristo não é, pois uma personagem histórica real, mas designa a atitude hostil e oposta a Deus dos homens de todos os tempos. São todos os que actuam dirigidos e apoiados pelo poder misterioso do mal.

O próprio Jesus fala, embora não do Anticristo, mas dos “falsos Cristos”, no plural, que aparecerão a realizar prodígios com a finalidade de enganar os seus discípulos. E a seguir adverte-os: «Portanto, ficai atentos; de tudo vos preveni» (Mc 13,23). Ou seja: se os convida a viver vigilantes, é porque tais “falsos Cristos” também vão aparecer durante a vida dos seus apóstolos.

São Pio X e o Anticristo

Pouco tempo depois de chegar ao pontificado, o papa Pio X, na sua primeira encíclica, de 4 de Outubro de 1903, expõe a desoladora situação religiosa da sua época.

Diz: «Talvez comecem os males reservados para os últimos tempos, como se já existisse no mundo o filho da perdição de que fala São Paulo. Tanta é, de facto, a audácia com que por toda a parte se persegue a religião, se combatem os dogmas da fé e se empenham brutalmente em extirpar toda a relação do homem com a divindade. E especialmente – característica própria do Anticristo, segundo o mesmo apóstolo –, o próprio homem, com infinita temeridade, colocou-se no lugar de Deus, erguendo-se acima de tudo o que se chama Deus.»

Com estas palavras autorizadas, o papa, ao referir-se ao Anticristo, mais do que identificá-lo com um homem, parece identificá-lo com uma doutrina. Neste caso, com o laicismo imperante, que pretendia desterrar a Deus da legislação e fazer-se adorar em vez dele.

As coisas que esta gente sabe!

Sendo tão pouco e tão claro o que a Bíblia diz acerca do Anticristo, causa impressão que ainda hoje se fale tanto dele, atemorizando as pessoas com suspeições e histórias, tal como acontecia na época do apóstolo João.

Adquirem, por isso, muita actualidade as suas duas Cartas que mencionámos, pois são o testemunho de um pastor preocupado com o seu povo que se encontra confuso perante tantas “faladuras” inconsistentes, e que sai ao encontro delas com a prudência e a sabedoria próprias de quem bebe nas genuínas fontes da Palavra de Deus, e não nas suas próprias invenções.

Por isso, a todos aqueles a quem se ouve pregar com abundância de pormenores sobre o Anticristo, anunciar os sinais que precederão a sua manifestação e enumerar detalhes acerca da sua chegada, podemos aplicar-lhes a conhecida estrofe:

“Que coisas diz esta gente,

E com tanta convicção!

Que coisas sabe esta gente,

Tudo coisas que não são.”

Ariel Álvarez Valdés,

Sacerdote argentino, biblista,

in Revista BÍBLICA nº 299

 

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