09 – Liturgia para Catequista

cat. lit. 1INTRODUÇÃO A LITURGIA – (TEMPO

Olhando para a vida da Igreja (congregações, comunidades, pastorais, movimentos e fiéis), podemos nos perguntar: “Por que essas pessoas rezam tanto? Porque os grupos iniciam suas atividades sempre rezando? Por que temos que participar da santa missa pelo menos aos domingos?”. Rezo quando acordo, rezo antes de dormir, rezo agradecendo os alimentos, etc. Encontramos uma resposta muito boa quando vemos a estreita relação entre liturgia e tempo.

Vamos começar falando um pouco sobre o tempo. Em Ecl. 3,2-8 lemos: Debaixo do céu há momento para tudo, e tempo certo para cada coisa: Tempo para nascer e tempo para morrer. Tempo para plantar e tempo para arrancar a planta. Tempo para matar e tempo para curar. Tempo para destruir e tempo para construir. Tempo para chorar e tempo para rir. Tempo para gemer e tempo para bailar. Tempo para atirar pedras e tempo para recolher pedras. Tempo para abraçar e tempo para separar. Tempo para procurar e tempo para perder. Tempo para guardar e tempo para jogar fora. Tempo para rasgar e tempo para costurar. Tempo para calar e tempo para falar. Tempo para amar e tempo para odiar. Tempo para guerra e tempo para paz.

O tempo, para o sábio do Eclesiástico é um suceder de momentos nos quais a vida acontece. É no tempo que nascemos e, depois de um tempo, morremos. No tempo plantamos e colhemos, brigamos e fazemos as pazes… a vida e a história obedecem a um suceder-se de durações e de momentos.    

O tempo é “uma das noções mais complexas e ricas que tem o homem, e pelo mesmo motivo, uma das mais difíceis de explicar”. O tempo marcado por dias, horas, minutos e segundos, não passa de sinal ou referência do verdadeiro tempo, a duração das coisas. (relógios e calendário são resultado de observações e cálculos matemáticos). O tempo enquanto baseado no movimento do universo, se chama tempo cósmico.

O tempo é sempre neutro. De acordo com o uso que dele fazemos, passa a ter um sentido e um significado para nós. São as datas importantes, exemplo. Tudo acontece no tempo e nada se faz fora dele.

Então podemos dizer que o homem está dominado pelo tempo? Do ponto de vista natural, o tempo domina o homem. Isto está bem expresso na mitologia grega, através da descrição do deus grego Kronós, considerado o mais terrível de todos os deuses.

Kronós era o filho de uma ierogomia entre Gaia (deusa terra) e Eros (deus do amor). Era o sexto filho e o mais terrível de todos. Kronós era representado por 4 asas: 2 abertas para voar (o tempo voa) e 2 asas recolhidas (representa a imobilidade; o tempo parece ser sempre o mesmo; não passar). Tinha 4 olhos na parte anterior da cabeça (esperança e futuro) e 2 olhos no pescoço (olhos da lembrança que passou). Dois dos 4 olhos estão fechados (indicam o descanso paciente; o tempo não tem pressa). Tinha ainda 2 asas na cabeça (sinal das paixões humanas).

A descrição demonstra que o tempo, dada sua ação implacável sobre o homem, não tem um sentido específico e, por este motivo, era deificado; torna-se mito (deus). É uma entidade contra a qual não se pode agir, apenas aplacá-lo. Isto era feito pelas festas estacionais: colheita, plantio, chuvas e neve…

Outra característica do tempo (kronós) é sua constante ameaça de sempre voltar a fazer a mesma coisa. É uma concepção do tempo: ano depois de ano repete o mesmo ritmo e nos envelhece. A busca da eterna juventude, por exemplo, é uma demonstração da frustração da luta contra o tempo. Ou seja, nós somos dominados pelo tempo.

Neste sentido, a história do mundo e da humanidade é vazia. É uma história sem esperança porque não caminha para nada, apenas participamos de um repetir-se contínuo. É frustrante!

Evidentemente que esta não é a visão cristã do tempo. Para nós o tempo tem outra característica e outro sentido. A visão cristã não se conforma com a visão mítica do tempo. O tempo é para ser santificado e, ao mesmo tempo, é a duração na qual o homem e a mulher podem se santificar.

 Isto traz duas implicações:

– A santidade acontece quando entramos em contato com Deus. Se o tempo é “momento” para santificar-se, Deus age no tempo. Isso quer dizer que o tempo, para nós é kronológico, mas kairótico – um tempo oportuno para salvação. Tempo para encontrar-se com Deus.

– O tempo é um “momento” precioso, algo qualificado porque cada dia é um momento revelador do projeto divino e, da mesma forma, cada dia é oportunidade para que eu possa crescer neste projeto.

E é neste tempo em que Deus se revela: história.

Sacrifício de Isaac, Gêneses 22,1-14  (Resgate)

Apresentação do menino Jesus no tempo

Sacrifícios em expiação dos pecados

Jesus Cristo, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, nos liberta da morte.

Jesus Cristo revelação plena de Deus, na história.

Pela morte redentora de Cristo e pela sua ressurreição o universo é “Cristificado”.   (Pierre Teilhard Chardin)                                                                                                  

O tempo é o HOJE DE DEUS. O ontem é memória de um tempo no qual Deus agiu em seu favor, o homem é o momento oportuno (kairótico) para que Deus possa agir e, o amanhã é o ponto de chegada, o momento do encontro escatológico, quando o tempo não mais existirá, “quando ele ressuscitar os mortos, tornando nosso pobre corpo semelhante ao seu corpo glorioso” (Anáfora eucarística III)

 O Ano Litúrgico

A Constituição Sacrosanctum Concilium sobre a Sagrada Liturgia, documento do Concílio Ecumênico Vaticano II, no parágrafo 102 nos diz a respeito do Ano Litúrgico:

A santa mãe Igreja considera seu dever celebrar, em determinados dias do ano, a memória sagrada da obra de salvação do seu divino esposo. Em cada semana, no dia a que chamou domingo, comemora a ressurreição do Senhor, como a celebra também uma vez no ano, unida à memória da sua paixão, na Páscoa, a maior das solenidades.

Distribui todo o mistério de Cristo no decorrer do ano, da encarnação e nascimento à Ascensão, ao Pentecostes, à expectativa da feliz esperança e da vinda do Senhor.

Com esta recordação dos mistérios da redenção, a Igreja oferece aos fiéis as riquezas das obras e merecimentos do seu Senhor, a ponto de os tornar como que presentes a todo o tempo, para que os fiéis, sejam postos em contato com eles, e sejam repletos da graça da salvação.

A Igreja, guiada pelo Espírito Santo, no decorrer dos séculos se organizou para que os fieis celebrassem e vivessem da melhor maneira sua fé no Cristo Ressuscitado. Para isso, criou seu próprio calendário chamado de “Ano Litúrgico” no qual suas celebrações têm um caráter pedagógico e mistagógico. A Igreja vai formando seus fiéis em discípulos de Cristo (pedagógico) e ao mesmo tempo, os introduz, de modo consciente, a participar ativamente no Mistério celebrado (mistagogia).

A liturgia dá sentido ao tempo. Tempo este que, para muitos, pode ser um suceder de dias, horas e minutos (Cronológico), mas que para nós cristãos é um tempo favorável (Kairótico), é tempo de graça em que a Igreja, Corpo Místico de Cristo, faz memória de sua salvação e encontra-se com Deus. 

Origem do Ano Litúrgico

O ano civil começa no dia 1º de janeiro; a liturgia, porém, segue outro calendário e estabelece o início do ano no primeiro domingo do Advento. Parece, de fato, lógico que os acontecimentos da vida de uma pessoa sejam apresentados a partir do dia do seu nascimento, ou, antes até, a partir do momento em que a sua vinda é aguardada.

Mas foi assim desde o começo da Igreja? Não. No século 1 os cristãos não tinham outra festa a não ser a celebração semanal da ressurreição do Senhor. No primeiro dia da semana (que os romanos chamavam “dia do Sol”) costumavam reunir-se para ouvir a Palavra de Deus, para celebrar a Eucaristia, e, nos primeiros anos, também para tomar a refeição em comum. Em seguida, todos voltavam para suas casas, despedindo-se uns dos outros, até  o domingo seguinte. Não tinham outras celebrações, além dessa.

Não passou muito tempo, porém, e a Igreja percebeu a necessidade de dedicar um dia do ano para a comemoração dos acontecimentos culminantes da vida de Jesus e por isso instituiu a Páscoa. No começo do século II essa festa já estava difundida em todas as comunidades cristãs. Sendo porém, que um único dia destinado para celebrar a ressurreição de Cristo parecia muito pouco, pensou-se em prolongar a alegria dessa festa para sete semanas: os 50 dias de Pentecostes, que deviam ser celebrados com grande alegria, porque, — como dizia um famoso bispo daqueles tempos antigos, chamado Irineu — “estes dias são como um único dia de festa, que tem a mesma importância do domingo”.

Passaram-se ainda muitos anos e por volta de 350 d.C. decidiu-se celebrar também o nascimento de Jesus. Mas em que dia nasceu Jesus? Ninguém sabia! Naquele tempo não existia o registro civil, como em nossos dias, e o povo se esquecia facilmente do dia e   até mesmo do ano em que a pessoa tinha nascido.

De que maneira, então, seria possível estabelecer a data do Natal? Naqueles tempos havia urna testa, conhecida como a ‘Festa do nascimento do Sol”; no Egito era celebrada no dia 6 de janeiro e em Roma no dia 25 de dezembro. Os pagãos estavam convencidos de que o Sol era um deus e por esta razão faziam uma festa para comemorar  o seu nascimento. Era uma oportunidade na qual se divertiam, comiam e bebiam até se embriagarem, permitindo-se outras coisas que é melhor não contar.

Quando, por volta de 350 d.C., os cristãos se tornaram numerosos, até mesmo mais                           do que os pagãos, o que decidiram eles? Mudaram o nome e o sentido da festa do “nascimento do Sol”. Estabeleceram esse dia para a celebração do nascimento de Jesus, pois, — assim pensavam — Ele é o verdadeiro Sol, a luz que ilumina todos os homens.

E foi assim que, por muitos anos, o ano litúrgico teve seu início no dia 25 de dezembro. Por volta do ano 600 d.C. os cristãos julgaram que uma festa tão importante deveria ser preparada com muito esmero, e por essa razão decidiram que fosse precedida pelos quatro domingos do Advento e que o Ano Litúrgico deveria começar com o primeiro desses domingos: portanto, no final do mês de novembro ou no começo de dezembro.

 Fernando Armelini.  Adapt.: Pe. Antônio    

Disponível em:<www.buscandonovasaguas.com>

O que é o “Ano Litúrgico”

Segundo A. Bergamini e tantos outros autores o Ano Litúrgico não é uma idéia, um conceito antropológico ou uma simples explicação de uma maneira diferente de viver o ciclo de um ano, estas podem até constituir dimensões do mesmo, mas não defini-lo como tal. O Ano Litúrgico é uma pessoa: Jesus Cristo. O tempo da liturgia é o tempo de hoje onde se torna sagrada a presença de Deus nele, novamente se encarnando sob novas formas e dimensões e o tornado vivo e eficaz no meio da humanidade. O Ano Litúrgico é o mistério de Cristo celebrado e vivido na história da Igreja como ‘memória’, ‘presença’ e ‘profecia’.

O Ano Litúrgico é o mistério de Cristo na vida da Igreja como memória porque atualiza o evento salvador de Jesus no hoje do ser humano. Potencializa a humanidade para experimentar o acontecimento salvador no seu ‘hoje’, relembrando o que Deus fez na história, o que faz no presente e gerando a expectativa boa de futuro.

O Ano Litúrgico é o mistério de Cristo na vida da Igreja como presença de Jesus nos eventos cotidianos das pessoas. Gerando iluminação de fé aos crentes para relerem os fatos, acontecimentos, crises, dores, alegrias, vitórias, derrotas, conquistas e fracassos de cada um. Uma releitura positiva, pois, o mistério presente não é derrotado, mas vitorioso e cheio de força: aquele da vida sobre a morte, da ressurreição sobre a cruz.

O Ano Litúrgico é o mistério de Cristo na vida da Igreja como profecia, porque revela uma dimensão muito importante da Igreja, às vezes esquecida, de anunciar a Boa Nova de Jesus, seu projeto de amor e de denunciar as forças contrárias a este projeto e tudo o que desvincula o ser humano de Deus e de sua proposta de vida. A profecia tem a função de desvelar realidades mortais para o ser humano e de mostrar que não se toma este caminho, pois, o caminho a ser tomado é o da vida.

Essas três dimensões do Ano Litúrgico, memória, presença e profecia do mistério de Cristo, não podem ser vividas separadamente. Se assim acontecer perderá sua unidade e não manifestará sua base fundamental: a História da Salvação e a Unidade em Cristo de todo o plano de Deus.

Pe José Humberto Motta (Pe Beto)

MOTTA, J. H. O que é o “Ano Litúrgico”. in:  Cadernos de Liturgia da Arquidiocese de Ribeirão Preto. Ano I – Número 04 – Novembro/2008.

O domingo

a páscoa semanal dos discípulos missionários

Esta edição dos Cadernos de Liturgia tem como tema o Ano Litúrgico. O domingo encontra suma importância dentro do ciclo litúrgico anual, pois é celebrado 52 vezes a cada ano. Nele se condensa a fonte pascal para todos os cristãos, que a cada semana são chamados a celebrar, a viver e a testemunhar o mistério da páscoa, atualizando-o em suas vidas. No entanto, ainda é preciso redescobrir esta dinâmica da vida cristã, porque esse modo de viver em Cristo, uma vez vivido pelos primeiros cristãos, com o passar do tempo, foi esvaziando o seu sentido de páscoa semanal, de tal modo que participar da missa aos domingos para muitos batizados atualmente não passa de um preceito ou até mesmo uma sentença que precisa ser cumprida.

            Quanto a isso, o Papa João Paulo II, em sua carta apostólica Dies Domini exorta: “o domingo é um dia que está no âmago da vida cristã… `Não tenhais medo! Abri, melhor, escancarai as portas à Cristo… gostaria de convidar vivamente a todos a redescobrirem o domingo: `Não tenhais medo de dar o vosso tempo a Cristo!”.[1]

            Quando se volta o olhar para a realidade é possível perceber inúmeras dificuldades nos dias atuais. O domingo sofreu sérias deturpações impostas pelas injustiças sociais ocorridas no campo do trabalho, pelo consumismo exacerbado, pelo hedonismo e relativismo, novas águas que brotam do espírito secularista e da cultura pós-moderna, que irrigam a vida das pessoas.

            Hoje em dia, muitas pessoas, seja na luta pela sobrevivência seja pela imposição da profissão exercida, são impedidas de celebrar dignamente a eucaristia ou a palavra de Deus dominicalmente, a fim de buscar o sustento de cada dia e, ao mesmo tempo, uma situação social mais digna de ser vivida. Por exemplo, a indústria do riso e do lazer, os serviços de transporte, restaurantes, hotéis, e muitos outros serviços realizados no domingo.

 De fato, o consumismo contribui fortemente para a deformação deste dia reservado à celebração do mistério pascal. As pessoas preferem estar nos shoppings ou reservá-lo para passeios turísticos, teatro, cinema, shows, programas como Domingo Legal e Domingão do Faustão, assistir o time do coração em grandes estádios de futebol, enfim, em tudo que se constituiu em um mero lazer e divertimento, distante dos princípios morais e da fé. O simples ócio vivido aos domingos por muitos enfraquece as razões mais sublimes das festas, dissipam os motivos para a partilha com os mais pobres e a solidariedade para com os enfermos. Tudo isto, acentuado ainda pelo hedonismo, faz com que esse dia também seja vivido sobre os pilares da superficialidade, da vulgaridade e da fugacidade.

 Quando o cristão compreende desta forma o domingo, concatenado a estas características, são revelados os aspectos caricatos do relativismo latente na sociedade; por conseguinte, sua vida afasta-se da luz pascal, da qual brotam das exigências da fé e ele passa a se orientar pela escuridão da cultura pós-moderna.               

 Mediante tal realidade como redescobrir o sentido do domingo e viver o eixo de nossa fé, o mistério pascal? Como romper com essa mentalidade do mundo hodierno e assumir o testemunho, o anúncio do reino e o serviço missionário?

 Como passar de uma vida estagnada na escuridão da cultura pós-moderna e viver o domingo, sobretudo participando da eucaristia como momento privilegiado do encontro com Jesus Cristo, que pela luz irradiada de sua morte-ressurreição nos forma discípulos e nos envia em missão? Como tomar consciência que o domingo é o dia da educação para o discipulado e da preparação para a missão?

Assim, percebe-se que é preciso que cada um de nós descubra o profundo sentido do dia em que celebramos primordialmente a vitória de Cristo sobre a morte. O domingo através dos tempos foi sempre observado pela sua íntima ligação com o núcleo central da vida Cristã, o dia da Ressurreição. Assim compreendido pode ser vivido como páscoa semanal.

            Os testemunhos bíblicos mais antigos sobre o domingo encontram-se na coletânea de escritos neotestamentários. Existem aqueles textos que mostram as aparições do ressuscitado no “primeiro dia da semana” (Mt 28, 1; Mc 16,2; Lc 24,1. 13; Jo 20,1. 19) e aqueles que descrevem reuniões litúrgicas com a proclamação da palavra e celebração da eucaristia. Em 1Cor 16,2 está o relato mais antigo, embora fale de uma reunião para realizar uma coleta; em At 20,7-11 comenta sobre uma reunião para a fração do pão; por fim, em Ap 1,9-10, é usada pela primeira vez a expressão “dia do Senhor” no Segundo Novo Testamento[2].  Logo, para as comunidades que deixaram esses testamentos, o “primeiro dia da semana” era especialmente prezado.

            Outros nomes foram dados ao domingo, que por meio deles, pode-se vasculhar a riqueza desse dia sagrado entre todos, como Dia da Ressurreição, Senhor dos dias, Dia do Sol, Oitavo dia, etc.                         Algumas fontes não bíblicas da Igreja primitiva apontam ricas e variadas noções a respeito do domingo:

É o dia em que a assembléia cristã se reúne (Inácio, Justino, Tertuliano).

Para que a assembléia possa reunir-se, é um dia que tem ao menos um pouco de tempo livre (Tertuliano, Didascália).

É um dia para comemorar o originário primeiro dia da criação (Justino, Clemente), e o primeiro dia da nova criação, isto é, o dia da ressurreição (Ps. Barnabé, Justino, Tertuliano, Cipriano, Origenes) e, ao menos num caso, o dia de Pentecostes (Hipólito).

É um dia para Iniciação Cristã (Justino, Clemente, Hipólito).

É um dia para ouvir a Palavra (Justino, Orígenes, Didascália) e para a Eucaristia (Didaqué, Justino, talvez Plínio, Hipólito, Orígenes, Didascália).

É um dia para Ordenação Episcopal (Hipólito)

É um dia para a reconciliação (Didaqué, Didascália).” [3]

            Contudo, há documentos antigos que mostram que a comunidade primitiva dos cristãos entendeu o sentido e a importância de se reunir no domingo; não existia nenhuma norma ou obrigação para participar das assembléias litúrgicas dominicais. Com a realização do Concílio de Elvira no ano 302, estabeleceu-se uma norma: para aqueles que estivessem em uma cidade e não fossem por três domingos, teriam de ser excomungados por um breve período. O Concílio de Agdes prescreveu que aos domingos dever-se-ia participar da missa inteira. Durante a época Carolíngia, surgiram comentários ainda mais detalhados sobre o domingo.[4]

            A legislação no Código de Direito Canônico de 1917 postulava como lei formal a obrigação de todos os fiéis católicos a ouvirem a missa. Contudo, o Código de 1983, prevê que é obrigação dos fiéis participarem da missa aos domingos e festas, abstendo de toda e qualquer atividade que os impeçam de viver o Dia do Senhor.[5]

             O Concílio Vaticano II, especialmente o Documento Sacrossantum Concilium, que versa sobre a Sagrada Liturgia, diz: “Neste dia, pois, devem os fiéis reunir-se em assembléia para ouvirem a Palavra de Deus e participarem da Eucaristia, e assim recordarem a paixão, ressurreição e glória do Senhor Jesus e darem graças a Deus que ‘os gerou de novo pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos para uma esperança viva’ (1Pd 1,3). O domingo é, pois, o principal dia de festa que deve ser lembrado e inculcado à piedade dos fiéis: seja também o dia de alegria e abstenção do trabalho” [6].

            João Paulo II, ao comentar sobre o preceito dominical, afirma que a comunidade cristã precisa ser o apoio para o crente se convencer da importância de celebrar juntamente com seus irmãos, na graça do batismo, o sacramento da Nova Aliança, a páscoa.[7]

            Portanto, para o cristão, que pelo batismo é sepultado com Cristo na morte, para viver Nele uma vida nova pela sua Ressurreição gloriosa dada pelo Pai[8], é preciso toda semana dedicar-se na escola do discipulado ouvindo e partilhando a palavra, robustecer-se com o dom da eucaristia e a força do Espírito, preparando-se para a missão que novamente é retomada, na vida familiar, no trabalho, para os jovens e as crianças na escola, na relação com os amigos; enfim, na realidade do dia-a-dia, em todos lugares onde haja a convivência humana.

            Ione Buyst explica claramente esta relação ao dizer que a celebração do domingo situa-se na dupla perspectiva: o cristão celebra a Eucaristia na presença do Cristo Ressuscitado e por Ele é enviado em missão para edificação do Reino. A edificação do Reino acontece pelas mãos do discípulo missionário, acompanhado pelo Espírito configurando sua vida ao programa missionário de Jesus (Lc 4,18-19)[9].

            O Documento de Aparecida, que aos poucos precisa ser conhecido pelo povo, reconhece a real importância do preceito dominical e assinala duas considerações: “viver segundo o domingo” e promover a “pastoral do domingo”. A primeira deseja que a vivência do domingo não consista apenas em uma simples tarefa, mas sim uma necessidade interior de todos que fazem parte da família cristã. Com efeito, somente quando a comunidade paroquial participa ativamente da Eucaristia e das festas de preceitos da Igreja, que se transforma em uma fonte geradora de discípulos missionários maduros. A segunda sugere que se promova, a fim de que haja um novo impulso na evangelização, a pastoral do dia do Senhor, conferindo a ela prioridades nos programas pastorais.[10]

            Assim, torna-se urgente que nós, não obstante as dificuldades de hoje, saibamos redescobrir que todo primeiro dia da semana, como o Dia do Senhor, pela celebração do memorial da morte- ressurreição de Cristo, é renovada a graça batismal que nos fez filhos no Filho de Deus[11]. E que a eucaristia, ligada às inúmeras celebrações da Palavra nas comunidades que não tem padre, consiste na celebração primordial do Domingo[12], fonte inesgotável da vocação cristã e fonte inextinguível do impulso para a vida missionária[13]·. Precisamos viver intensamente esta nossa páscoa semanal, que nos oferece gratuitamente a luz da Palavra e a força eucarística para o discipulado e a missão da Igreja, e, além disso, com a nossa vida proclamar: Este é o dia que o Senhor fez para nós: alegremos e nele exultemos.[14]

 Sem. Juliano Gomes

 GOMES, J. O domingo a páscoa semanal dos discípulos missionários. in:  Cadernos de Liturgia da Arquidiocese de Ribeirão Preto. Ano I – Número 04 – Novembro/2008.

 

Advento: Tempo de Esperar com Esperança!

Com o Advento tem início o Ano Litúrgico em nossa Igreja Católica. Vejamos, um pequeno traço de sua história e o seu significado segundo o Dicionário de Liturgia: “As verdadeiras origens do Advento são incertas e as notícias que nos chegaram são escassas. É necessário distinguir elementos relativos a práticas ascéticas de outros de caráter propriamente litúrgico: um Advento como tempo de preparação ao Natal e um Advento que celebra a vinda gloriosa de Cristo (Advento escatológico). O Advento é tempo litúrgico típico do Ocidente; o Oriente tem somente uma breve preparação de poucos dias para o natal. Temos notícias do Advento desde o séc. IV, e este tempo se caracteriza tanto em sentido escatológico quanto como preparação ao Natal. Sobre o significado originário do Advento, por isso, muito se tem discutido, preferindo alguns optar pela tese do Advento natalício, outros pela tese do Advento escatológico. A reforma litúrgico do Vaticano II quis, intencionalmente, conservar ambos os caracteres de preparação para o natal e de espera da segunda vinda de Cristo.[15]

É um tempo de grande esperança que leva à reflexão sobre a origem de vida, onde se aguarda com grande convicção a vinda do Salvador que mudará as trevas em luz e fará transparecer o rosto do Pai aqui na terra. Quem tem esperança, tem vida; e, se tem vida, tem esperança, esperança esta concedida à humanidade por Deus Pai. O Advento é o tempo litúrgico no qual é lembrada a grande verdade da história como lugar da atuação do plano salvífico de Deus. “O tempo do Advento possui dupla característica: sendo um tempo de preparação para as solenidades do Natal, em que se comemora a primeira vinda do Filho de Deus entre os homens, é também um tempo em que, por meio dessa lembrança, voltam-se os corações para a expectativa da segunda vinda de Cristo no fim dos tempos. Por este duplo motivo, o Tempo do Advento se apresenta como um tempo de piedosa e alegre expectativa”.[16]

O tempo atual é marcado pela modernidade e pelo consumismo e, com isso se perde a esperança de esperar quem está para chegar, uma vez que a rotina do dia a dia consome a todos pelo trabalho, comércio, aquisição de bens materiais, etc. Com o tempo do Advento acende-se a chama da vinda do Salvador em nossas casas, comunidades, locais de trabalho e escolas, pois este é um tempo de piedosa e alegre expectativa que dá forças e profunda esperança na vinda do Emanuel. O melhor da festa é esperar por ela, e com o Advento espera e prepara a natividade do Senhor na qual virá transparecer o rosto de Deus na terra. Não precisa ter pressa, mas precisa ter cuidado. Como dito acima, a humanidade vive em um mundo moderno e é bom deixar o Advento ser Advento e o Natal ser Natal; sendo que isso às vezes não acontece nas comunidades e casas, pois, as pessoas têm pressa para enfeitar tais locais com símbolos consumistas e esquece da profunda espiritualidade e mística que o Advento traz. “É preciso tomar o cuidado de não abortar o Advento ou celebrá-lo superficialmente. Este cuidado nos levará a não antecipar o Natal, seja fazendo celebrações natalinas antes do previsto, seja usando ritos próprios da festa. Se cantamos “Noite Feliz” no dia 15 de dezembro, o que iremos cantar na noite do dia 24 para 25? Mas, também não podemos celebrar o Advento como se Cristo ainda não tivesse nascido. A longa noite da espera terminou. O mundo já foi redimido, embora a história continue…”[17]

Como a festa da Páscoa, o Natal recebeu também um tempo de preparação, cujo nome é Advento. Tempo este que transmite expectativa, conversão e esperança: “expectativa – memória da primeira e humilde vinda do Senhor em nossa carne mortal; expectativa-súplica da última vinda de Cristo, Senhor da história e Juiz universal. Conversão, a qual frequentemente a Liturgia deste tempo convida pela voz dos profetas e, sobretudo, de João Batista: “Converti-vos, pois o Reino dos Céus está próximo” (Mt 3,2). Esperança jubilosa de que a salvação já realiza por Cristo (cf. Rm 8,24-25) e as realidades da graça já presentes no mundo cheguem à sua maturidade e plenitude, quando a promessa se transformará em posse, a fé em visão e “nós seremos semelhantes a ele e o veremos assim como ele é” (1Jo 3,2).[18] É bom lembrar que isso não significa que os outros tempos não possuem este espírito de expectativa, conversão e esperança. Cada tempo celebrado tem a sua espiritualidade própria. Se um povo vive em alegre esperança, isso deveria ser fortemente visível no tempo do Advento.

A liturgia deste período foi concebida para despertar em nas pessoas sentimentos de esperança, conversão e jubilosa expectativa. “O conteúdo das leituras, especialmente do evangelho, focaliza para os domingos um tema específico, em cada um dos três ciclos litúrgicos: a vigilância na espera de Cristo (primeiro domingo); um urgente convite à conversão, contido na pregação de João Batista (segundo domingo); o testemunho dado a Jesus pelo seu precursor (terceiro domingo); anúncio do nascimento de Jesus a José e Maria (quarto domingo)”.[19] Com isso, a Igreja convida a viver uma profunda espiritualidade e leva, ao mesmo tempo, a um intenso espírito de expectativa da vinda do Salvador. Não se espera qualquer pessoa, se aguarda o Menino Deus que trará a salvação da humanidade. Por isso, quando se canta nas celebrações “Vem Senhor, vem nos salvar! Com teu povo vem caminhar!, a humanidade confia a sua vida em um Deus que irá caminhar com ela, que lhe trará esperança e libertação. Um Deus simples feito homem como nós, mas de tal poder que dá forças às pessoas para lutar por um novo céu e uma nova terra.

Um dos símbolos que marcam este tempo é a coroa do Advento. É uma expressão visual de esperança e do anseio da Igreja nesse período. “A coroa ou guirlanda do Advento é o primeiro anúncio do Natal, começa a aparecer no início do Advento. A coroa, como o próprio nome indica, é uma guirlanda verde, sinal de esperança e vida, enfeitada com uma fita vermelha, que simboliza o amor de Deus que nos envolve, e também a manifestação do nosso amor, que espera ansioso o nascimento do Filho de Deus”.[20] Composta de quatro velas acensas uma por cada domingo do Advento e o que expressa é o acendimento progressivo da esperança e a vinda paulatina da Luz até o resplendor do Natal. Porque as famílias não preparam uma coroa em suas casas? A família reunida no domingo dia do Senhor envolta da mesma demonstrando sua expectativa e acompanhando junto com a Igreja a chegada do menino Deus. Com esta proposta assumimos a coroa do Advento como sinal do futuro, o futuro que o Menino irá trazer para toda a humanidade. E pensa-se neste tempo também o futuro a ser vivido pelo cristão, pelo grupo de pessoas reunidas na celebração: um futuro feito de amor a Deus e de amor ao próximo.

Ao longo de todo o tempo do Advento também é perceptível a presença da Virgem Maria, seu papel na manifestação do plano de Deus é importantíssimo. A cena mais presente na Igreja durante o Advento é a anunciação, onde Maria dá o seu “sim” a Deus, garantindo a salvação da humanidade. Diante desta cena o ato de fé que Maria teve, dizendo sim à proposta de Deus, acontece uma maternidade divina como fruto de uma fé obediente. Maria está presente durante todo o Advento, de maneira especial no período final que são dos dias 17/12 ao 24/12. Também pode-se chamar este período de “semana santa do Natal”. Nesta semana, aumentamos nossas esperanças e expectativas, aguardando a vinda de seu Filho que irá nos revelar o rosto do Pai. “O Advento é o tempo da esperança, e invocamos Nossa Senhora como Mater spi, mãe da esperança. Ela é a esperança da Igreja e de cada membro da Igreja. No seu presente estado de glória, perfeitamente unida de corpo e alma com o Senhor, vemos a que altura também nós somos chamados. Nas palavras do Vaticano II: ‘Nela a Igreja admira e destaca o fruto mais excelente da redenção e jubilosamente contempla como imagem irrepreensível aquilo que ela mesma deseja e espera ser’. Em outra passagem declara que ‘até que venha o dia do Senhor, ela é certamente o sinal resplandecente de esperança e de conforto para o povo de Deus na sua peregrinação’”[21].

O profeta que mais ressoa neste tempo é Isaías. Ele é um dos profetas messiânicos, precursor do Evangelho que afirma o plano de salvação de Deus e não exclui nenhuma raça ou nação. Em Isaías encontramos paz, segurança, fidelidade e justiça: frutos que se tem com a vinda do Messias. Na liturgia, as palavras deste profeta vem encorajar a humanidade, afirmando que com a vinda do Messias esta encontrará paz e as dores e aflições momentâneas serão superadas com a sua vinda.

São João Batista é muito proeminente no Advento e faz um grande apelo à conversão. Com este apelo, João faz um convite à humanidade para deixar as limitações e a mudar de vida preparaando os caminhos do Senhor. “Já chegou a hora de acordar, pois nossa salvação está mais próxima agora do que quando abraçamos a fé. A noite avançou e o dia se aproxima. Portanto, deixemos as obras das trevas e vistamos a armadura da luz. Como de dia, andemos decentemente; não em orgias e bebedeiras, nem em devassidão e libertinagem, nem em rixas e ciúmes. Mas vesti-vos do Senhor Jesus Cristo e não procureis satisfazer os desejos da carne”. (Rm 13. 11-14).

Advento, um tempo simples que aproxima as mulheres e os homens da perfeição, tempo de compromisso com os mais necessitados.

Uma comunidade em Advento é aquela que está voltada para os pobres, cujos membros são analfabetos, sem teto, desempregados e excluídos da sociedade. Deve-se demonstrar que a Igreja e os cristãos são partes de estruturas políticas e sociais que tem muito a fazer para que o Senhor se manifeste como aquele que há de vir. Pois uma comunidade egoísta não está preparada para a vinda do Senhor. Preparar-se para o Advento é ser capaz de deixar os próprios interesses, negócios, casa, bens, para dedicar-se aos outros como fez Maria com sua prima Isabel.

Espera-se com esperança o Salvador e desde já a humanidade clama : “Vem Senhor Jesus!”

“Pois nossa salvação é objeto de esperança; e ver o que espera, não é esperar. Acaso alguém espera o que vê? E se esperamos o que não vemos, é na perseverança que o aguardamos”. (Rm 8,24-25)

Sem. Alessandro Daniel Tenan

TENAN, A. D. Advento: Tempo de esperar com Esperança. in:  Cadernos de Liturgia da Arquidiocese de Ribeirão Preto. Ano I – Número 04 – Novembro/2008.

Natal: A Luz Resplandeceu e o Verbo Chegou!

“No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus. No princípio, ele estava com Deus.

Tudo foi feito por meio dele e sem ele nada foi feito.

O que foi feito nele era a vida, e a vida era a luz dos homens;

e a luz brilha nas trevas, mas as trevas não a apreenderam.” (Jo 1,1-5)

            O que mais vemos no período do Natal é uma exploração comercial da festa, onde muitos se renderam a um total comércio e aproveitam o máximo para lucrar em cima desta data. Vivemos em uma sociedade de consumo que identifica o Natal com compras e preocupações com presentes, viagens de final do ano, como gastar o 13°salário após trabalhar o ano todo. Não que isso não seja merecido, pois o que possuímos é fruto do nosso esforço e trabalho. Aos poucos percebemos que o Natal tem perdido a sua espiritualidade e a sua importância em nossa sociedade, porque quanto mais temos, mais queremos ter. Diante desta realidade em que vivemos podemos nos perguntar: Que sentido tem o Natal para nós? Como fazer a experiência da sua mistagogia? Qual importância se dá ao celebrar a natividade do Senhor? Estas são perguntas que acompanham a vida cristã, e cabe a nós refletirmos se temos respondido aos propósitos que a Igreja e a Liturgia nos oferecem.

            O tempo do Natal envolve praticamente duas semanas, tem início na noite do dia 24 de dezembro e termina no Domingo da solenidade da Epifania do Senhor.

A celebração do Natal do Senhor prolonga-se por oito dias denominados “Oitava do Natal” (como se fosse um único dia). Dentro deste tempo celebramos algumas festas e solenidades, como: a festa da Sagrada Família, que nos recorda a pessoa de José, de Maria e do Menino Jesus, quando recordamos muitas circunstâncias de nossa vida tomando como exemplo o nosso núcleo familiar contraposto ao modelo da Família de Nazaré. A solenidade da Santa Maria Mãe de Deus, recorda-nos a sua maternidade e virgindade como algo salvífico para a humanidade, pois, por meio dela, recebemos o Autor da vida. Nesta mesma solenidade destacamos o início do Ano Civil e o Dia Mundial da Paz, onde colocamos o nosso “ano novo” sob o Senhorio de Cristo e pedimos a Paz para o nosso novo ano. “Entre as saudações que os homens e mulheres trocam no dia 1º de janeiro emerge a saudação da paz. A saudação da paz tem profundas raízes bíblicas, cristológicas, natalícias; o bem da paz é sumamente invocado pelos homens de todos os tempos, que também atentam contra ele frequentemente, do modo mais violento e destruidor: a guerra.”[22] A solenidade da Epifania do Senhor, Epifania é um termo de origem grega que significa ‘manifestação’. Esta manifestação apresenta Jesus à humanidade como o Messias que trará a salvação oferecida a todos os povos, sendo Ele a Luz do Universo que irá iluminar e guiar os passos da humanidade. Dentro da oitava são incluídos os dias 26, 27 e 28 de dezembro, as festas de Santo Estevão, de São João Evangelista e dos Santos Inocentes.

A festa do Natal do Senhor tem uma profunda e importante ligação com a Páscoa, podendo até dizer que as duas são inseparáveis. Neste pequeno tempo litúrgico se celebra o nascimento de Jesus, sua entrega total até a morte na cruz e sua vitória sobre o mal. Com o Natal, damos início ao ciclo da nossa fé cristã, onde celebramos o nascimento do Senhor e recordamos a sua paixão, morte e  ressurreição.

O Natal não é a celebração do aniversário de Jesus, pois não se sabe a data exata em que Jesus nasceu, neste dia se celebra a encarnação do Verbo de Deus. Alguns pesquisadores afirmam que na parte norte do mundo o dia 24 de dezembro é o dia mais curto do ano e que segundo a tradição antiga, neste dia, ao cair da noite, os romanos celebravam a festa do Sol Invencível que, após um período em que a sua presença no céu vinha diminuindo, passa agora a aumentar gradativamente. Com isso, a Igreja cristã assumiu essa festa e a transformou na celebração do nascimento de Jesus, “Sol nascente que vem do alto para iluminar a todos os que estão nas trevas” (Lc 1,78-79). Colocando a festa do Natal em 25 de dezembro houve a possibilidade de cristianizar a sociedade da época, com esta data a Igreja quis dar um sentido novo a esta festa, apresentando Jesus Cristo como o verdadeiro Sol que ilumina, com a sua luz, o mundo guiando a humanidade.  “(…) 25 de dezembro não é historicamente dia do nascimento de Cristo, apesar da afirmação contrária de alguns autores antigos. Essa data é indicada por antiga tradição, segundo a qual Jesus teria sido concebido no mesmo dia e mês em que depois seria morto, isto é, no dia 25 de março; consequentemente, o seu nascimento teria acontecido em 25 de dezembro. Considera-se, porém, que essa tradição não determinou a origem da festa, mas foi apenas uma tentativa de explicação, fruto de misticismo astrológico, muito em voga na época” [23]

            Alguns símbolos marcam o tempo do Natal: o Presépio, montado por são Francisco de Assis em 1223, destacado no artigo sobre o Espaço Litúrgico deste volume, nos trás e nos faz sentir profundamente a mensagem do Natal, ao mesmo tempo, penetra em nós os ensinamentos que constituem a doutrina de Jesus como: pobreza, simplicidade, fé e humildade sendo para nós um conjunto de ensinamentos para a nossa vida cristã. A Estrela de Natal, com suas 4 pontas representam as quatros direções da terra; Norte, Sul, Leste e Oeste de onde vem os homens para adorar o Filho de Deus. Os Sinos comunicam a alegria e querem significar que estamos felizes com a vinda do Emanuel que nos trás a libertação. Ceia de Natal, nos remete à partilha da nossa vida que é Cristo, o Filho de Deus que estamos festejando.

Em Cristo nós nos reunimos e temos a vida, esta refeição nos lembra a última ceia de Jesus, onde Ele próprio se deu a nós como alimento para ficar conosco através da Eucaristia. A Árvore de Natal é o símbolo da vida, enfeita e prepara o ambiente para receber a verdadeira vida que é Cristo. O Papai Noel, tem a sua origem na veneração muito antiga de São Nicolau que saia à noite para socorrer os mais pobres, a imagem do bom velhinho nos remete à sensibilidade diante do espírito de caridade que nos envolve neste tempo, mostrando o sinal da partilha e o compromisso que se deve ter com os mais necessitados. As Velas que durante todo o Advento aguarda a vinda do Filho de Deus acendendo a coroa, com seu nascimento as velas simbolizam a sua presença no mundo e expressam a nossa fé em Jesus e nosso empenho em viver com Ele na sua luz.

Com a chegada do Verbo, Deus se revela no mundo com simplicidade. Jesus é a revelação viva de Deus. Sendo o Filho do Deus vivo somente Ele conhece o Pai e pode revelá-lo. Pela revelação, Deus rompeu o seu silêncio, manifestou-se e chamou os homens à comunhão com Ele. “O Verbo eterno de Deus criador, subsistindo na condição de Deus, abaixa à condição de um simples ser humano feito servo de todos e, desta maneira, vem nos resgatar a cidadania divina que havíamos perdido… O Verbo eterno se faz nosso irmão e, desta maneira, podemos agora sentir Deus como nosso ‘parente’ mais próximo, ou seja, nosso Pai. Consequentemente, na qualidade de filhos e filhas de Deus, sentimo-nos também ‘parentes’, os mais próximos, uns dos outros, irmãos e irmãs, irmanando-nos todos na busca da paz. E então cantamos: ‘Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens por ele amados’(Lc 2,14)” [24]. Com a vinda de Jesus Cristo, Deus quis revelar o que estava oculto, usando da condição humana para estar no meio da humanidade, gerado e nascido do seio de uma mulher. Jesus Cristo viveu em tudo a condição humana, exceto o pecado.

A manifestação do Senhor nos leva a uma participação na vida divina. A espiritualidade deste tempo é a espiritualidade de adoção da humanidade como filhos e filhas de Deus. A liturgia deste Tempo faz um convite para viver Cristo na humildade, pobreza e obediência, uma vez que a graça do Natal exige uma reposta de comunhão fraterna para viver seu amor. “Deus, em sua bondade e sabedoria, revela-se ao homem. Com ações e palavras revela a si mesmo e a seu desígnio benevolente, que deste toda a eternidade preestabeleceu em Cristo a favor dos homens. Esse desígnio consiste em fazer com que, pela graça do Espírito Santo, todos os homens participem da vida divina, como seus filhos adotivos no seu único Filho” [25].

Não temos ouro, incenso e mirra para oferecer ao Senhor, mas temos a esperança de que com a sua vinda, a nossa vida será mais plena de paz e salvação.

Que este pequeno tempo faça a humanidade enxergar e reconhecer a sua grande importância. Que o Menino Deus traga a luz que vem do alto e dê a todos a capacidade de entender este tão grande mistério da revelação.

Ao contemplar a simplicidade com que o Filho do Homem veio visitar a humanidade, se tome consciência de que Ele está conosco!

Sem. Alessandro Daniel Tenan

TENAN, A. D. Natal: A Luz Resplandeceu e o Verbo Chegou! in:  Cadernos de Liturgia da Arquidiocese de Ribeirão Preto. Ano I – Número 04 – Novembro/2008.

Tempo da Quaresma e da Páscoa

1. TEMPO DA QUARESMA

Ainda que não saibamos exatamente as origens do tempo da Quaresma é certo que no século IV existia um tempo preparatório para a Páscoa que se ligava ao imediato período que a precedia, e que, desde o século II, era marcado pela penitência e pelo jejum.

Esse tempo consistia em uma quarentena (significado bíblico) e ela vai desenvolvendo-se a partir da prática penitencial que preparava os pecadores para a reconciliação na manhã do Sábado Santo e, sobretudo, da necessidade do catecumenato, que preparava os catecúmenos para o Batismo na noite pascal. No início a quaresma foi, portanto, de caráter Batismal e catequético (aprofundamento da Palavra). Mais tarde predomina o caráter penitencial (abstinência, jejum e penitência).

O Vaticano II e sua reforma litúrgica organiza a quaresma fixando-a da Quarta-feira de Cinzas até a Quinta-feira Santa (antes da Missa da Ceia do Senhor).

 Para entender a quaresma é preciso partir do Mistério Pascal de Cristo. Nele, Cristo doa-se plenamente a nós, lavando-nos com seu sangue, purificando-nos com sua graça, santificando-nos com seu amor e tornando-nos agradáveis a Deus, participantes da sua entrega total ao Pai. Nosso jejum, nossa penitência, nossa oração, nossa esmola, são sinais da nossa participação no mistério de Cristo.

A espiritualidade quaresmal está marcada por três elementos fundamentais[26]:

Caridade – se praticamos obras de caridade, se damos esmolas, não é para demonstração exterior da nossa bondade, mas sempre participação sacramental na benignidade de Deus, que sendo rico se fez pobre em Cristo, por amor de cada um, e nos cumulou de graça sobre graça, dando-nos a si próprio (insuperável dom da sua própria vida divina que nos é participado no Mistério Pascal). É entendida fundamentalmente como misericórdia aos necessitados e reconciliação com os irmãos.

Oração – se rezamos é por meio de Cristo que o fazemos. É Ele que reza em nós pelo Espírito Santo. É Ele quem ensina e faz a perfeita oração: fazer a vontade do Pai, oferecer integralmente o coração sem reservas e condicionamentos, cumprir com a liberdade do amor a vontade do Pai, sem dela afastar-se, mesmo quando ela nos leva onde não queremos e onde aparentemente não suportamos.

Penitência (jejum) – se fazemos penitência não é para angariar méritos e comprar a graça, que é impagável, mas sim, para participarmos sacramentalmente do sofrimento daquele que, sendo inocente, se fez pecado, e por isso, foi castigado, punido, e abandonado por Deus, provando a solidão da morte.

Na penitência, que é antes de tudo solidariedade, participamos do sofrimento de Cristo e da paixão do mundo, e experimentamos a doçura escondida e misteriosa do sofrimento de Cristo. Assim somos convidados pela liturgia da Palavra dos domingos, a reviver as grandes etapas da marcha da humanidade até a Páscoa de Cristo. Vejamos uma síntese da liturgia dos domingos segundo Pablo Argárate[27]:

Primeiro domingo: teremos as alianças originais (a queda, a aliança com Noé, a profissão de fé do povo eleito) – tentação de Jesus

Segundo domingo: centrado em Abraão (a vocação de Abraão, o sacrifício de Isaac, a aliança de Deus com Abraão)  –  transfiguração de Jesus

Terceiro domingo: centrado em Moisés (Moisés golpeia a rocha, a Lei dada a Moisés, Deus revela seu nome a Moisés)

Quarto domingo: centrado no povo de Deus que vive na terra santa (Davi, o exílio, e o retorno, a Páscoa da terra prometida) – (A) cura do cego de nascença (B) encontro de Jesus com Nicodemos: Deus enviou seu Filho ao mundo para que o mundo seja salvo por ele;  (C) o Pai espera a volta do filho.

Quinto domingo: centrado nos profetas (Ezequiel, Jeremias e Isaías) – (A) Ressurreição de Lázaro; (B) se o grão de trigo cair na terra e morrer, produzirá muitos frutos;  (C) Quem não tiver pecado atire a primeira pedra.

 Os evangelhos nos convidam à conversão, ao revelar a misericórdia de Deus.

 É importante observar que o Lecionário nos propõe três itinerários: uma quaresma batismal (ano A); uma quaresma cristocêntrica (ano B); uma quaresma penitencial (ano C).[28]

E então chegaremos à Páscoa. Entraremos com Jesus em Jerusalém. Lembraremos dos nossos “hosanas” e dos nossos gritos de “crucifica-o”. Seremos recebidos no aconchego do seu cenáculo e mergulharemos na noite de sua agonia, provaremos seu abandono e recordaremos nossa covardia.

E depois, ao fim do terceiro dia, escavaremos na rocha do sepulcro e beberemos da água da vida e a luz da ressurreição nos recriará “neste dia que o Senhor fez para nós”.

A cor litúrgica deste tempo é o roxo, um convite à conversão, à penitência e a fraternidade. No 4º domingo pode-se usar o rosa por causa da antífona de entrada, que convida: “Alegra-te, Jerusalém…”, é também chamado domingo Laetare (alegria).

2. Semana Santa

A Semana Santa merece ser vivida em clima de oração pessoal, esforço de conversão e maior dedicação fraterna. Do Domingo de Ramos até Quinta-feira Santa, completamos o grande retiro quaresmal, experimentado desde a Quarta-feira de  Cinzas. Com a missa da Ceia do Senhor na Quinta-feira à tarde, iniciamos o Tríduo Pascal da morte e ressurreição de Jesus. O cume de todas as celebrações é a Vigília Pascal na noite do sábado, madrugada do domingo. Esta vigília se desdobra na alegria do Domingo da Ressurreição e nos cinqüenta dias do tempo pascal, o Pentecostes sagrado, que é considerado como que um único e grande domingo.

Também para a comunidade cristã a Quaresma constitui-se em peregrinação a Jerusalém, isto é, à morte e ressurreição de Cristo. A Quaresma, portanto, é um novo êxodo, um retorno do exílio para Jerusalém, ou seja, para a Páscoa de Cristo, que nos edifica como Igreja.

Seguindo este itinerário, chega-se com fé mais iluminada à Semana Santa ou “Grande Semana”. São dias em que a liturgia segue, passo a passo, os últimos acontecimentos da vida terrena de Jesus. Assim nos ensina o Papa Paulo VI: “Se há uma liturgia, deveria encontrar-nos todos juntos, atentos, solícitos e unidos para uma participação plena, digna, piedosa e amorosa, esta é a liturgia da grande semana. Por um motivo claro e profundo: o mistério pascal, que encontra na Semana Santa a sua mais alta e comovida celebração, não é simplesmente um momento do ano litúrgico; ele é a fonte de todas as outras celebrações do próprio ano litúrgico, porque todos se referem ao mistério da nossa redenção, isto é, ao mistério pascal.”[29]

2.1. Domingo de Ramos.

Em Jerusalém, por volta do Séc. IV, pensou-se em reproduzir o mais exatamente possível a entrada de Jesus na Cidade Santa. Assim descreve a peregrina Etéria em seu Itinerarium:

“… Ao aproximar-se a décima primeira hora (dezessete horas), lê-se aquele passo do evangelho onde as crianças vieram ao encontro do Senhor com ramos e palmas, dizendo: Bendito o que vem em nome do Senhor. Imediatamente se levantam o bispo e todo o povo e, depois vai-se dali ao cimo do monte das Oliveiras, todos a pé. De facto, todo o povo vai à frente do bispo, cantando hinos e antífonas e repetindo  sempre: Bendito o que vem em nome do Senhor. (…) Quando se chega,  embora seja tarde, faz-se, contudo, o lucernário; a seguir faz-se de novo uma oração junto à Cruz, e despede-se o povo.”[30]

É interessante notar que inicialmente esta celebração não está ligada à celebração eucarística.  Por um longo período esta celebração foi celebrada a critério do local, pois não era uma celebração oficial.  Passou a ser oficial com o Pontifical romano-germânico do séc. X e a sua introdução em Roma por volta do Séc. XI, tornando-se assim um costume.

Com a renovação trazida pelo Concílio Vaticano II, foi restaurada a ordem dos domingos da quaresma. Na segunda metade do séc. VII, o quinto domingo da quaresma começou a chamar-se primeiro domingo da Paixão, e domingo anterior à Páscoa, segundo domingo da Paixão ou domingo de Ramos. O Concílio Vaticano II recolocou em vigor o quinto domingo da quaresma que se tornou, no ciclo A, o domingo de Lázaro. O domingo antes da Páscoa se chama agora Dominica in Palmis ou De Passione Domini (Domingo da Paixão). Por isso, a cor litúrgica para este dia é o vermelho que lembra a paixão do Senhor.

O Domingo da Paixão, em Roma, era como que uma visão panorâmica de tudo o que iria celebrar em detalhes durante a semana seguinte.

Recordando a entrada de Jesus empunhamos ramos “de oliveira”. É importante lembrar que esses ramos bentos servirão para preparar as cinzas da quarta-feira de Cinzas e eles não são amuletos para serem queimados nos dias de tempestades, mas “sinal do amor infinito de Jesus por nós, e ao mesmo tempo,  um sinal de nosso compromisso com ele”[31].

2.2. De Segunda à Quarta-Feira Santa

A celebração da Segunda à Terça-feira Santa, não remete aos primeiros tempos da Igreja. No entanto, também estes dois dias tiveram seu formulário de missa que se pode ler no Sacramentário Gelasiano.

Na Segunda-feira Santa, a presença de Lázaro a quem Jesus ressuscitara, presença comum às Igrejas do Oriente, marca  forte anúncio da própria Ressurreição do Senhor.

Na Terça-feira Santa: há correntes de estudiosos que acreditam ter sido na terça-feira que Jesus fez a Ceia com seus discípulos. Ainda que na liturgia celebremos este fato na quinta-feira, já na terça-feira o Evangelho nos situa nessa santa ceia e nos confronta com a posição tomada por cada um dos apóstolos diante de Jesus.

A Quarta-feira, porém, foi um dia de celebração, pelo menos da celebração da palavra. Em vários documentos encontram-se para este dia duas celebrações: uma sinaxe (orações solenes) de manhã e uma missa ao anoitecer. 

Antigamente, a Quarta-feira chamava-se “quarta-feira das trevas”, porque, à noite, começava o ofício assim chamado e que a Igreja rezava durante o Tríduo sacro. Atualmente, é dia apropriado para o sacramento da penitência, para a visita e ajuda fraterna aos doentes. A eucaristia e as orações pedem perseverança e firmeza nos momentos difíceis da missão. Em muitos lugares realizam a procissão do encontro, isto é, os homens caminham acompanhando a imagem do Senhor dos Passos, e as mulheres acompanham a imagem de Nossa Senhora das Dores, até um local determinado onde se encontram.

Estes três primeiros dias feriais da Semana Santa são marcados pela preparação mais imediata da Páscoa. A liturgia usa o método vivo e envolvente da quase reconstituição dos acontecimentos que o Senhor viveu nesses dias últimos de sua vida terrena. A cor litúrgica para estes dias é o roxo, lembrando que ainda é tempo de preparação para a celebração da Páscoa.

3. Tríduo Pascal

A festa da Páscoa é o centro da nossa fé e, por conseguinte, é o centro do Ano Litúrgico.  A origem da liturgia pascal é muito remota. Para alguns a própria narração do evangelista João da paixão, morte e ressurreição de Jesus seria um eco da celebração pascal das Igrejas da Ásia Menor. Para outros as narrativas dos três evangelistas sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) seriam também tiradas de celebrações litúrgicas ainda na Idade Apostólica da Igreja.

Há alguns estudiosos da Bíblia que consideram a primeira carta de Pedro uma homilia pascal e batismal. Portanto, desde a aurora da Igreja nós podemos encontrar elementos que nos indicam que os cristãos desde logo começaram celebrando a Páscoa. Entretanto, somente no séc. II é que podemos encontrar documentação da celebração anual da Páscoa.

No início, algumas Igrejas terminavam o jejum da quaresma e celebravam a páscoa precisamente no dia 14 de Nisan (Abril), conforme o antigo calendário judáico, dia em que se deu a morte de Cristo.

A celebração mais antiga é a da Vigília Pascal. Já em Tertuliano e Hipólito de Roma, encontramos documentação de sua celebração. Naquela noite se faziam as leituras, se batizavam os catecúmenos e se celebrava na aurora a eucaristia de páscoa.

Santo Ambrósio falava do triduum sacrum em que Cristo “padeceu, descansou e ressuscitou”; pouco depois, Santo Agostinho fala de um tríduo de Páscoa que foi se criando a partir da celebração da Páscoa Dominical. Somente depois do séc. IV, com a historização dos Evangelhos e de suas narrativas, é que entrou a quinta-feira santa com a instituição da  Eucaristia.

O Tríduo inicial era portanto: Sexta-feira Santa, Sábado Santo e Domingo de Páscoa. A entrada da Quinta-feira Santa rompeu a unidade inicial. Durante a Idade Média foi crescendo sempre mais a Sexta-feira Santa, e extrapolou seu lugar dentro do tríduo. À medida que a sexta-feira cresceu exageradamente de importância, foi desaparecendo a Vigília Pascal, chegando-se até ao absurdo de seus ritos serem celebrados ao sábado de manhã, quase sempre sem a presença de muita gente.

Foi o Papa Pio XII, em 1951, quem restaurou experimentalmente a celebração da Vigília Pascal, e depois, em 1955 recuperou definitivamente a unidade do tríduo pascal. O Concílio Vaticano II (1962-1965) deu unidade, simplicidade e riqueza de conteúdos à Celebração do Tríduo Pascal. Para o Concílio a Quinta-feira Santa representa a dimensão ritual do mistério de nossa salvação expresso no Tríduo, e a Sexta, Sábado e domingo representam a sua dimensão histórica.

2.4. O Significado do Tríduo Pascal

Seu significado é fundado sobre a unidade do mistério Pascal de Jesus Cristo. O mistério é composto da morte e ressurreição de Jesus. Cada um dos dias se abre ao outro, cada um dos dias remete ao outro, e não tem sentido ser celebrado ou vivido sem o outro, assim como a morte e a ressurreição de Jesus estão inscindivelmente unidas. Não há ressurreição sem a  morte e o sofrimento, não há sentido para a morte e o sofrimento sem que haja um futuro de ressurreição.

Assim em poucas palavras, o Tríduo Pascal é a Páscoa celebrada em três dias.

Dentro do Ano Litúrgico estes três dias ocupam a posição de destaque. Eles são o vértice do ano litúrgico, eles são o centro da liturgia da Igreja. Assim como o domingo é o dia mais importante da semana porque é o dia em que se celebra solenemente ao longo do ano a Ressurreição do Senhor, assim também, o tríduo é o tempo mais importante do Ano Litúrgico.

É esse mistério que ilumina toda a liturgia, toda a ação da Igreja vive do mistério destes dias, e só possui sentido enquanto inserida neste mistério. As nossas orações, a celebração dos sacramentos, a caridade praticada, a justiça realizada, a verdade proclamada, o evangelho anunciado, o amor testemunhado, tudo isso deve se nutrir do mistério da morte e ressurreição de Jesus e deve para este mistério convergir.

A Igreja nasce deste mistério, Ela parte sempre dele para sua missão, e Ela deve sempre à ele retornar se quiser ser a Igreja de Cristo.

2.5. Quinta-Feira Santa: a Ceia do Senhor

Até o séc. IV não há esta missa. Na semana santa era celebrada uma única missa, que era aquela do sábado de madrugada. A quinta-feira era o último dia da quaresma, portanto ainda se guardava o jejum quaresmal.

Já no séc. VII, encontramos três missas celebradas neste dia: de manhã uma missa para a reconciliação dos penitentes, ao meio dia a missa do Crisma, onde se benziam os óleos  para os sacramentos e à noite se celebrava a comemoração da Ceia do Senhor. Esta missa que comemora a instituição da Ceia do Senhor é celebrada em tom de festa. Cristo nos deu a sua Páscoa na noite da ceia. Por isso a cor litúrgica é o branco, lembrando a festa, a feliz Ceia.

A vida da Igreja se converge para o cenáculo. Os discípulos de Cristo se reúnem em torno do mestre para receber o dom de sua Páscoa. Unidos à Ele aprendem que páscoa é vida, é caridade, é serviço. Partilham o pão e deverão partilhar a Paixão do Senhor.

Desde Santo Agostinho, encontramos nesta missa o rito do Lava-pés. Antigamente, esse rito era reservado somente ao Bispo na sua Igreja Catedral. Depois, Pio XII permitiu que esse rito tão significativo fosse repetido em todas as Igrejas. Esse rito já era celebrado em Jerusalém nos meados do séc. V e de lá se estendeu para o ocidente e oriente.

O Evangelho de João embora seja reconhecidamente Eucarístico, não nos narra a instituição da eucaristia como fazem Paulo, Mateus, Lucas e Marcos. João narra que Jesus, mestre e Senhor, se inclina sobre seus servos para servi-los. É uma forma de explicar a Eucaristia, é uma forma de mostrar o significado daquilo que ele está doando à humanidade. É uma forma de antecipar profeticamente aquilo que ele realizará na Cruz. De fato, não há nenhum momento onde Deus se inclina mais sobre nós para servi-nos do que na hora da Cruz.

O altar desnudado recorda Jesus que se despoja e é despojado de suas vestes na cruz.

Um outro elemento desta noite é a retirada do Santíssimo Sacramento e sua transferência para outro local para ser adorado. Não se trata de preparar um sepulcro para Jesus. Mas sim de uma solene contemplação amorosa do mistério do amor de Deus, que na Sexta-Feira Santa, dia de jejum do povo de Deus, alimentará a fome dos filhos. O texto de Mateus 26, 37-41, como sugere José Bortolini nos ajuda a encontrar o significado deste momento em que Jesus pede aos discípulos para vigiar com Ele na oração.

A cor litúrgica é o branco e neste dia canta-se o hino de louvor silenciado durante a quaresma.

2.6. A Sexta-Feira Santa

É o primeiro dia do tríduo pascal propriamente. Celebramos o mistério da morte. Dia de jejum. Nunca houve missa neste dia. A liturgia desde o início (desde Justino) foi sempre composta das leituras da Palavra de Deus e da oração universal.  A sexta-feira santa, como é o início do tríduo, era o dia de jejum infrapascal, na espera imediata da ressurreição.

A adoração da Cruz é um gesto que teve origem na Igreja de Jerusalém. No séc. IV encontramos em São Cirilo de Jerusalém, bispo da cidade, o testemunho sobre este gesto de abraçar o lenho do qual pendeu a salvação do mundo, que depois se estendeu a toda a Igreja.

No início todos comungavam da Comunhão reservada da noite precedente; com o Papa Inocêncio III a comunhão foi somente reservada ao padre, e foi somente o Papa Pio XII quem devolveu ao povo a possibilidade de comungar neste dia.

O espírito que se celebra neste dia não é de luto, mas sim de contemplação do mistério do amor de Deus. Não se trata de chorar a morte de Cristo, mas de interiorizar o grande mistério de amor de Deus que nos redimiu e abriu para nós o caminho de retorno à casa paterna, dando-nos exatamente o exemplo e trilhando por primeiro o caminho, sendo fiel e confiando totalmente em seu amor.

O espírito da liturgia é aquele de “Bendita Paixão”: sofrimento e humilhação, alegria e glória estão inscindivelmente interligados.

As leituras bíblicas: Isaías 52 fala do servo do Senhor; Hebreus 4 exatamente o texto sacerdotal, e finalmente a narração da Paixão segundo São João. Todas as leituras falam da Cruz salvífica do Senhor Jesus. Trata-se de uma morte salvífica, livremente assumida por amor.

A oração universal é testemunho da liturgia romana primitiva, e, é o modelo de uma Igreja verdadeiramente católica, aberta à universalidade das necessidades dos homens.

Terminada a oração universal segue a Adoração da Cruz. “A palavra adoração é um tanto imprópria, pois a adoração é dirigida a Jesus. Honramos sua cruz, pois foi nela que ele nos salvou”[32].

A última parte da celebração da Sexta-feira Santa é a Comunhão. Depois de rezar a oração depois da comunhão é invocada a bênção de Deus sobre a assembléia que se retira em silêncio.

Um elemento importante deste dia, que não deve ser menosprezado, é o jejum. Ele é sinal sacramental da nossa participação da Paixão de Jesus. Sobretudo hoje, num tempo em que os homens colocam como absoluto a realização de suas próprias vontades, é muito importante conferir ao jejum e à privação da Sexta-Feira Santa seu verdadeiro lugar, como solidariedade e participação na dor de Cristo e do mundo.

À noite muitas comunidades celebram a procissão do Senhor Morto ou a Via-sacra.

A cor litúrgica desta celebração é o vermelho que como no Domingo da Paixão nos recorda a entrega de Cristo, amor e sacrifício, a Paixão do Senhor.

2.7.  Sábado Santo

Nas comunidades antigas prolongava-se o jejum da sexta-feira e o silêncio. Nunca houve missa neste dia, sempre foi dia em que a Igreja evitava até mesmo as reuniões, para renunciar a alegria de se encontrar com os irmãos. É um dia de expectativa e esperança, onde se contempla o mistério da descida do Senhor à mansão dos mortos.

Tudo deve tender à esperança da Ressurreição, tudo deve convergir para a noite da Páscoa que deverá se abrir com a Vigília Pascal e terminar com a eucaristia de páscoa celebrada ao alvorecer de domingo. Hoje, entende-se como um dia de silêncio, meditação e oração.

2.8. Vigília Pascal

O Domingo é precedido por uma vigília que comemora já nas últimas horas da noite de sábado. Vigiar é esperar. Vigiar é já começar a viver a alegria daquilo que está por vir. Santo Agostinho chama esta Vigília da Páscoa como a mãe de todas as demais vigílias da Igreja, e sua liturgia como a mãe de todas as celebrações litúrgicas da Igreja.

Através de um documento sírio do séc. III, a Didascália dos apóstolos, temos pela primeira vez os detalhes dessa celebração:

“Na sexta-feira e no sábado jejuareis completamente e nada tomareis. Reuni-vos, não durmais, velai a noite toda em orações, súplicas, leitura dos profetas, do evangelho e dos salmos… Até  as três horas da madrugada seguinte ao sábado. Então deixareis de jejuar… Oferecei vossos dons e depois comei, estai alegres, felizes e contentes, pois ressuscitou o Messias, penhor de vossa ressurreição. Será para vós uma lei eterna até o fim do mundo.”[33]

No início havia a vigília e a missa. Já no séc. II encontramos nesta celebração o batizado dos catecúmenos que participavam depois, pela primeira vez, da Eucaristia. Após longa preparação os novos cristãos eram introduzidos no seio da comunidade cristã nesta noite gloriosa. Com o passar dos séculos a liturgia romana desta noite foi sendo enriquecida com novos elementos que não pertenciam originalmente a ela, como por exemplo: o rito da luz, do fogo e do Círio que abrem a vigília na nossa estrutura atual da celebração.

Com o rito da luz e do fogo novo, o povo em procissão acompanha a coluna luminosa (de fogo e luz), como fez o povo de Israel no deserto em busca da Terra prometida.

Depois do precônio pascal, que deve ser cantado ou proclamado com profunda alegria, inicia-se a Liturgia da Palavra, que passa, através de nove leituras, as grandes maravilhas do amor de Deus pelos homens, que todas tendem e são iluminadas pela Ressurreição do Senhor Jesus. Na passagem do Antigo para o Novo Testamento canta-se o Glória, que por excelência é um canto pascal.

            Após a homilia inicia-se a liturgia batismal, que de preferência, deveria incluir um batizado solene. Canta-se a ladainha, realiza-se a renovação das promessas batismais (renovamos na noite solene nossos compromissos batismais, nossa aliança com o Senhor), realiza-se o batizado e em seguida a aspersão de toda a assembléia.

Finalmente chega-se a liturgia eucarística, celebrada nas primeiras horas do domingo de Páscoa.

Não se tratam de partes diferentes e independentes. Trata-se de uma única celebração cuja unidade corresponde ao mistério pascal de Cristo. O mistério Pascal de Jesus vem proclamado na Palavra de Deus e vêm realizado na celebração dos sacramentos: Batismo e Eucaristia.

O espírito da liturgia é aquele da noite que foi vencida pelo dia, passagem das trevas à luz. Mais do que qualquer conceito, os símbolos comunicam muito mais os conteúdos da celebração. 

            A cor litúrgica é o branco, simbolizando a festa, a glória, a alegria nesta noite a “solenidade mãe de todas as solenidades”.

2.9. O Domingo de Páscoa e o Tempo da Páscoa

Desde o início a Igreja considerou este dia como o oitavo dia da criação. Ele abre os cinqüenta dias do tempo pascal, que serão encerrados com a festa de Pentecostes, quando celebramos a efusão do Espírito Santo sobre a Igreja, por causa disso os Padres da Igreja chamavam este tempo de “Beata Pentecostes”.

O clima é de alegria e festa. Alguns propõem não rezar-se de joelhos, pois tudo é festa.

Nestes cinqüentas dias se incluem a oitava da páscoa que é como se fosse um prolongamento do Domingo de Páscoa e que tem um sentido especial como tempo de mistagogia, recordando as aparições do Ressuscitado e a iniciação cristã; e entre eles estão a festa da Ascensão de Jesus ao céu e a festa da descida do Espírito Santo que encerra o tempo pascal.

Durante todo o tempo da Páscoa a cor litúrgica é o branco.

Dentro do tempo da Páscoa, entre a Ascensão e Pentecostes celebra-se a semana de Oração pela unidade dos Cristãos.

A solenidade de Pentecostes encerra o tempo pascal, sendo o qüinquagésimo dia depois da Páscoa. É a solenidade da vinda do Espírito Santo. A cor litúrgica é o vermelho símbolo do amor e que está também associado ao fogo. Esta festa tem sua raiz na festa judaica. Era uma festa agrícola, festa da colheita. Depois foi associada aos cinqüenta dias depois da páscoa judaica, quando Deus entregou no monte Sinai as tábuas da Lei a Moisés. E, os Atos dos Apóstolos fazem coincidir com a vinda do Espírito Santo. Poderíamos dizer que é a festa do impulso missionário.

Referências bibliográficas:

ARGÁRATE, Pablo. A Igreja celebra Jesus Cristo. SP: Paulinas, 1997.

BERGAMINI, Augusto. Cristo, festa da Igreja: o ano litúrgico. SP: Paulinas, 1994.

BORTOLINI, José. Quaresma, Páscoa e Pentecostes, SP: Paulus, 2008.

CORDEIRO, João de Leão (trad. e org.). Antologia litúrgica: textos do primeiro milénio. Fátima: Gráfica de Coimbra, Lda. 2003. (Secretariado Nacional de Liturgia).

MARTÍN, Julián López. A liturgia da Igreja. SP: Paulinas, 2006. (Coleção liturgia fundamental)

OLIVEIRA, Antônio Carlos (et al.). Vivendo a Semana Santa: o mistério Pascal celebrado no Brasil. Aparecida: Editora Santuário, 1996.

Semana Santa: anos A,B, C. 2ª ed. SP: Paulinas, 1989.

Pe Antônio Élcio de Souza (Pe Pitico)

SOUZA, A. E. Tempo da Quaresma e da Páscoa.  in:  Cadernos de Liturgia da Arquidiocese de Ribeirão Preto. Ano I – Número 04 – Novembro/2008.

Tempo Comum

No início da era cristã não havia o que hoje chamamos de Ano Litúrgico organizado como o conhecemos. Havia apenas a celebração do Mistério de Cristo no Domingo, Dia do Senhor. O Ano Litúrgico começou a ser organizado posteriormente, como já vimos em outros artigos deste.

O TC (Tempo Comum) também chamado de ‘tempus per annum’ ou tempo ‘ordinário’[34] é constituído por 33 ou 34 semanas sendo cinco a nove a partir da segunda-feira que segue ao domingo após o dia 06 de janeiro, e o restante a partir da segunda-feira depois do domingo de Pentecostes, quando termina o Tempo Pascal.

O TC é chamado desta ou daquelas formas porque não é constituído por um determinado e específico elemento do mistério de Cristo, mas de sua totalidade a cada Domingo. Aliás, o Domingo é o Dia por excelência durante este tempo. Nele os temas de cada domingo são independentes, apesar de seguir uma determinada leitura da Sagra Escritura: contínua ou semicontínua, mas nada que obrigue esta estrutura, pois, o que se quer é manifestar o mistério de Cristo durante sua caminha e suas obras na terra, seu dia a dia, seus ensinamentos nas mais diversas realidades e culturas das pessoas, os sinais que demonstravam a presença do Reino no mundo. Isso tudo também presente na vida da Igreja pelo anúncio do Evangelho.

A estrutura do TC é muito simples e divide-se basicamente em três partes, a saber: nos domingos os anos A, B e C; nos dias de semana, também chamados de dias feriais, em anos pares e ímpares; e, por fim; as solenidades, festas e comemorações com seu diferencial e suas especificações.

Os domingos do Ano A, B e C – são assim denominados por seguirem um ritmo de celebrações que perpassam conteúdos do mistério de Cristo importantes no decorrer do Lecionário (livro litúrgico em se faz as leituras bíblicas das celebrações litúrgicas).

No Ano A se faz a leitura do Evangelho de Mateus, no Ano B o de Marcos, que depois do 16º domingo comum se faz 5 leituras do capítulo 6 do Evangelho de João (o ‘discurso sobre o pão da vida’) que coincide com a narração da multiplicação dos pães de Marcos e, por fim, o Ano C o de Lucas.

O ritmo que determina sua ordem é a natural do nosso alfabeto retornando ao ciclo A depois do ciclo C. As outras leituras são feitas de acordo com o Evangelho que é o centro determinador da escala das leituras nas celebrações litúrgicas.

 As leituras do Antigo Testamento devem se harmonizar perfeitamente com o Evangelho para evidenciar a unidade entre os dois Testamentos. Os textos são distribuídos sem uma ordem lógica, mas sempre salvaguardando sua relação com o Evangelho; todavia, o tesouro da Palavra de Deus ficará de tal forma aberto que todos os que participam da missa dominical conhecerão quase todas as passagens mais importantes do Antigo Testamento[35]

As leituras do Novo Testamento, nas missas, são semicontínuas retiradas das cartas de São Paulo e de São Tiago (as outras são lidas em outros Tempos Litúrgicos). Os conteúdos destas leituras são relacionados ao Evangelho, mas com um ‘tom’ de aplicabilidade da mesma na vida da comunidade do apóstolo, ou seja, o que resultou da vivência da Palavra na vida das pessoas da comunidade. Por este motivo se torna um importante subsídio para a meditação da Palavra e, principalmente, para a elaboração da homilia e outras atividades da celebração, como: escolha do prefácio, dos cantos, na montagem da motivação inicial e das mensagens gerais e outros.

O ciclo semanal – também chamado de ferial, por abranger os dias de semana (segunda-feira; terça-feira, etc). Este segue outra estrutura de distribuição das leituras da missa em anos pares e ímpares, facilmente percebidos pelo último número do ano corrente, por exemplo: 2008 é ano par.

Os Evangelhos são distribuídos durante um ciclo inteiro de forma que da 1ª à 9ª semana se lê o Evangelho de São Marcos, da 10ª à 21ª semana o de São Mateus, e da 22ª à 34ª semana o de São Lucas. O Evangelho de São João fica limitado a algumas festas ou necessidades do decorrer do ano. Os Evangelhos não mudam entre os anos pares e ímpares como as Primeiras Leituras (Leitura e Salmo), mas se repetem igualmente todos os anos.

As outras leituras são distribuídas alternadamente entre o Primeiro e o Segundo Testamento, de forma que nos dias feriais próprios do Tempo Comum entram quase todos os livros do Primeiro Testamento, exceto os livros muito breves como Abdias e Sofonias; um livro poético: o Cântico dos Cânticos; e dois narrativos: Ester e Judite. As celebrações eucarísticas nos dias feriais comportam apenas três leituras (1ª leitura, Salmo e Evangelho) por serem mais simples e não solenes e também por manifestarem a continuidade do tema visto no Domingo anterior, como se fosse um grande Dia do Senhor, um prolongamento do Dia Escatológico, até que chegue o Domingo seguinte.

As orações do Dia, sobre as oferendas e após a comunhão são as mesmas do Domingo anterior, exceto no Tempo do Advento, nas Memórias, Festas, Solenidades, quarta-feira de Cinzas e em alguns outros dias como a Semana Santa.

As solenidades, festas, memórias e comemorações – é bom saber o que significa cada uma delas separadamente.

As ‘Solenidades’ é o grau mais alto de festa litúrgica, se antecipa ao dia anterior com a I Véspera ou com a preparação através de uma vigília, como por exemplo: o Tríduo Pascal, o Natal do Senhor, a Epifania, a Ascensão, o Pentecostes e outras.

As ‘Festas’ são importantes e obrigatórias na Igreja, mas em um grau menor que a Solenidade, não tem preparação através da vigília, portanto, é celebrada somente no dia próprio.

As ‘Memórias’ indicam a celebração comemorativa (obrigatória ou facultativa) de um santo e é celerado somente no dia próprio, sem vigília e solenidade.

As ‘Comemorações’ são motivações comemorativas ou rogativas que não estão relacionadas diretamente ao Cristo (mas pedidos feitos para o Cristo) nem aos santos, mas são rogações da Igreja por necessidades ou comemorações humanas, como a Comemoração dos fiéis defuntos (finados), missa de bênção dos agricultores ou da plantação, etc.

As ‘Solenidades’ quando caem no Domingo são substitutas do mesmo, e quando é grande sua importância ou relevância ela chega a ser transferida para o Domingo, como a Solenidade da Epifania do dia 06 de janeiro para o Domingo seguinte. Têm leituras bíblicas próprias e insubstituíveis que não seguem o ritmo do ciclo do Ano Litúrgico, com exceção das solenidades que integram o ciclo.

As ‘Festas’ quando caem no domingo são celebradas em sua totalidade, mas não podem ser transferidas do dia ferial para o Domingo, com algumas exceções por motivos pastorais e de relevância teológica definidos pela Conferência Episcopal Territorial (Nacional) ou pelo Ordinário local (o bispo em seu território diocesano).

As ‘Memórias’ trazem sempre a informação se são obrigatórias ou facultativas, se são obrigatórias seguem a mesma orientação para as Festas, mas se são facultativas devem ficar a critério do ordinário local (seja o bispo ou o sacerdote) celebrar ou não a mesma.

As ‘Comemorações’ seguem basicamente a mesma orientação que as ‘Memórias’, mas deve ser observado o calendário civil, cultural e pastoral da Nação, Estado, Cidade ou Comunidade em que se vive. Um exemplo é o caso da Comemoração de finados que se sobrepõe, inclusive, ao domingo quando nele cai, mas quando cair em dia ferial não pode ser transferido para o domingo.

O TC termina com o 34º Domingo Comum onde o mesmo dá lugar à Solenidade de Cristo Rei do Universo, exatamente cinco domingos antes do dia 24 de dezembro, pois, às vésperas do sábado seguinte já tem início o Novo Ano Litúrgico, com as Vésperas do primeiro Domingo do Advento.

Pe José Humberto Motta (Pe Beto)

MOTTA, J. H. Tempo Comum.  in:  Cadernos de Liturgia da Arquidiocese de Ribeirão Preto. Ano I – Número 04 – Novembro/2008.

Prof. Thiago Ap. Faccini Paro

[1] JOÃO PAULO II. Carta Apostólica Dies Domini. São Paulo: Paulinas, 1998. p. 9

[2] AUGÈ, Matias. Liturgia: história, celebração, teologia, espiritualidade. 2 ed. São Paulo: Ave Maria, 1998. p. 288

[3]  Cf. AUGÉ. Matias. NOCENT, Adrien. et al.. O ano litúrgico: história, teologia e celebração. São Paulo: Paulinas,  p. 81

[4] AUGÈ, Matias. Liturgia: história, celebração, teologia, espiritualidade. p. 289-290

[5] CÓDIGO DE DIREITO CANÔNICO. São Paulo: Loyola, 1983. cân. n. 1247

[6] CONCÍLIO VATICANO II. Sacrossanctum Concilium.  n.106

[7] JOÃO PAULO II. Carta Apostólica Dies Domini. p.55

[8] Rm 6,4

[9] BUYST, Ione. Discípulos e discípulas de Jesus, missionários e missionárias do Reino. In: Liturgia de Mutirão: subsídios para a formação. Brasília: Ed. CNBB, 2007. p. 26-27.

[10] Documento de Aparecida, n. 252.

[11] Gl 3,26

[12] CNBB. Animação da vida litúrgica no Brasil, n. 114

[13] Documento de Aparecida, n. 251.

[14] Sl.118.24

[15] DICIONÁRIO DE LITURGIA. São Paulo: Paulinas, 1992. p. 12.

[16] ADAM. Adolf. O Ano Litúrgico. São Paulo: Paulinas, 1982. p.131-132.

[17] CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Liturgia em Mutirão, subsídios para a formação. Brasília: Edições CNBB, 2007. p. 51-52.

[18] CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO E A DISCIPLINA DOS SACRAMENTOS. Diretório Sobre Piedade Popular e Liturgia, Princípios e Orientações. 2ªed.  São Paulo: Paulinas, 2005. p. 92-93.

[19] BERGAMINI, Augusto. Cristo, Festa da Igreja, o Ano Litúrgico. São Paulo: Paulinas,1994. p.180.

[20] MACARI. O Natal e seus Símbolos. São Paulo: Paulinas, 1981. p. 4-5.

[21] RYAN, Vincent. Do Advento à Epifania. São Paulo: Paulinas, 1992. p. 30-31.

[22] CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO E A DISCIPLINA DOS SACRAMENTOS. Diretório Sobre Piedade Popular e Liturgia, Princípios e Orientações. 2ªed.  São Paulo: Paulinas, 2005. p. 106-107.

[23] BERGAMINI, Augusto. Cristo, Festa da Igreja, o Ano Litúrgico. São Paulo: Paulinas,1994. p.196.

[24] CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Liturgia em Mutirão, subsídios para a formação. Brasília: Edições CNBB, 2007. p. 57.

 

[25] COMPÊNDIO DO CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. São Paulo: Edições Loyola, 2005. p.22.

[26] Cf. Augusto BERGAMINI. Cristo, festa da Igreja: o ano litúrgico, p. 282-283.

[27] Cf. A Igreja celebra Jesus Cristo, p.173-174.

[28] Cf. Augusto BERGAMINI. Cristo, festa da Igreja: o ano litúrgico, p. 268.

[29] Paulo VI, “Sermão da quarta-feira”, in Encicliche e discorsi, Edizioni Paoline, Roma, 1996, vol. IX, p. 368.

[30] Cf. Etéria. Peregrinação. In: Antologia litúrgica: textos do primeiro milénio. p. 454.

[31] José BORTOLINI. Quaresma, Páscoa e Pentecostes, p.21.

[32] José BORTOLINI. Quaresma, Páscoa e Pentecostes, p.26.

[33] Pablo ARGÁRATE. A Igreja celebra Jesus Cristo,  p.151.

[34] AUGÉ. M., O Ano Litúrgico : história e celebração. São Paulo: 1991. (anamnesis). p. 217.

[35] Introdução ao Lecionário da Missa, nº 106.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s