03 – A Eucaristia, fonte das vocações

eucaristia2A EUCARISTIA FONTE DAS VOCAÇÕES

Por ocasião da Quinta-Feira Santa deste ano, o papa João Paulo II enviou para toda a Igreja uma belíssima carta encíclica sobre a Eucaristia, apresentando uma síntese da doutrina católica sobre o “dom por excelência” que ela recebeu de Jesus, sublinhando a sua centralidade para a vida e a missão do Povo de Deus.

O papa focaliza no primeiro capítulo alguns aspectos dogmáticos do “admirável Mistério”, que não podem ser diluídos nem no diálogo ecumênico, nem na tentativa de buscar soluções precipitadas a uma carência de ministros ordenados, que asseguram a celebração da Eucaristia sobretudo naquelas regiões onde a falta das vocações constitui um sério problema para a Igreja local.

Eucaristia: sacrifício, ceia e prenúncio da eternidade

A Eucaristia é, em primeiro lugar, sacrifício em sentido próprio (EE. n. 13), que vem representado sacramentalmente na celebração memorial do único sacrifício de Cristo e que implica na sua presença real, a qual não exclui outros tipos de “presença”, sendo, contudo, presença “por excelência, porque é substancial” (EE. n. 15).

A eficácia salvífica deste Sacramento se recebe através da comunhão com o Corpo e Sangue de Jesus, porque a Eucaristia é o verdadeiro banquete (EE. n. 16) no qual Cristo oferece a si mesmo como nutrimento (cfr Jo 6,25).

A aclamação dos fiéis às palavras da consagração propõe a sua dimensão escatológica, enquanto “exprime e consolida a comunhão com a Igreja celeste” (EE. n. 19), mas não tira a responsabilidade dos fiéis do dever de serem atentos ao caminho histórico da humanidade, assumindo e trabalhando seriamente com os problemas urgentes que hoje caracterizam o “mundo globalizado”, sobretudo a fome e a miséria.

 No segundo capítulo João Paulo II nos convida a olharmos aquele influxo causal da Eucaristia na origem da Igreja. Ela nasceu dos apóstolos que viveram, com Cristo, a primeira experiência eucarística na ceia e no sacrifício. Isto se renova na celebração do dia-a-dia e dá sentido à frase: “A eucaristia edifica a Igreja”. Esta verdade está contida no próprio título da encíclica: “A Igreja vive da Eucaristia” (EE. n.1). E pouco mais adiante afirma ainda: “do mistério pascal nasce a Igreja” (EE. n.3).

Mas é verdade também que “a Igreja faz a eucaristia” (EE. n. 26) e isto implica conseqüências para o apostolado da Igreja enquanto esta missão foi entregue por Jesus aos apóstolos e aos seus legítimos sucessores, uma vez que a Igreja “guarda e transmite” o bom depósito da fé com ajuda do Espírito, e também porque esta é “instituída, santificada e guiada” pelos apóstolos e seus sucessores até a segunda vinda de Cristo. (EE. n.28)

Vocação sacerdotal e eucaristia

Somente ao sacerdote ministerial compete à presidência eucarística enquanto age in persona Christi (EE. n. 29) e como a eucaristia é centro e vértice da vida da Igreja, assim também ela o é para próprio ministro ordenado (EE. n. 31).

O papa sublinha que a eucaristia “é a principal e central razão de ser do sacramento do Sacerdócio” e portanto “centro e raiz de toda a vida do presbítero”. E prossegue: “da centralidade da eucaristia na vida e no ministério dos sacerdotes deriva também sua centralidade na pastoral em prol das vocações sacerdotais”. (EE. n. 31)

Um sacerdote que celebra bem, que adora e contempla Cristo Eucarístico é com certeza um ministro que cresce na caridade pastoral, e o seu testemunho faz fecundar no coração dos jovens a semente do chamado ao sacerdócio (EE. n.32).

Disso nasce a responsabilidade dos presbíteros de favorecer celebrações autenticamente participativas e ainda de saber dobrar os joelhos diante da presença real do Senhor, dignamente e cuidadosamente conservada no tabernáculo.

O papa nos dá testemunho disso, quando escreve: “é bom demorar-se com Ele e, inclinado sobre o seu peito como o discípulo predileto, deixar-se tocar pelo amor infinito de seu coração … como não sentir de novo a necessidade de permanecer longamente em diálogo espiritual, adoração silenciosa, atitude de amor, diante de Cristo presente no Santíssimo Sacramento? Quantas vezes, meus queridos irmãos e irmãs, fiz esta experiência, e recebi dela força, consolação, apoio!” (EE. n.25)

Certamente a fecundidade pastoral do ministério papal de João Paulo II tem as suas raízes escondidas neste reclinar da sua cabeça sobre o corpo Eucarístico de Jesus. Estas reflexões e este testemunho devem constituir um motivo para interrogarmos com seriedade se atual crise das vocações não está vinculada a uma certa perda da capacidade contemplativa que, infelizmente, atinge a alguns  sacerdotes. Na verdade se pode constatar hoje um certo ativismo que leva a crer que quanto mais nos agitamos, tanto mais obtemos resultados práticos, enquanto a autêntica fecundidade apostólica não se baseia tanto na multiplicidade das iniciativas, mas na qualidade destas enquanto façam transparecer o agir salvífico de Deus em benefício de seu povo. O sacerdócio assim vivido suscita em outras pessoas o desejo de doar toda vida a Deus no serviço da sua Igreja, constituindo, sem dúvida, a mais forte motivação vocacional.

Há também a necessidade de ajudar aquelas paróquias que não têm ministro ordenado, que sofrem pela falta da celebração eucarística, a entender que a forma mais eficaz de pedir ao Pai trabalhadores para a messe consiste em cultivar uma verdadeira “fome” de Eucaristia e fazer desta a raiz e o alicerce da vida espiritual deles. (EE. n. 32)

O papa sublinha que a Eucaristia “cria comunhão e educa para a comunhão” (EE. n. 40). Isso implica que cada comunidade deve cuidar para não cair no isolamento, no ensimesmamento, mas procurará viver em plena comunhão com o seu Bispo, sucessor dos apóstolos, e com o Santo Padre,  Sucessor de Pedro, na busca da plena comunhão com as outras Igrejas e comunidades eclesiais.

Eucaristia e a vocação de Maria

Enfim, o Papa nos propõe o ícone da “Mulher eucarística”, ou seja, Maria, que viveu a sua fé eucarística ainda antes da instituição da Eucaristia, como Mãe do Verbo Encarnado e que, aos pés da cruz, viveu uma “comunhão espiritual de desejo e de entrega“ junto com o Filho (EE. n. 57). Ela, modelo de vocação e resposta, interceda junto do Pai, para que a Igreja tenha sempre muitas vocações sacerdotais, a fim de que não falte o alimento eucarístico para  nenhuma comunidade, e que cada leigo(a) descubra na eucaristia a fonte de sua própria vocação, pois a Igreja vive da eucaristia.

Dom Gil Antônio Moreira

bispo auxiliar- Região episcopal Ipiranga

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