01 – Dar um sentido à vida inteira

Enfermos1Fundamentos antropológicos e teológicos da atenção espiritual aos doentes terminais

UMA ESPERANÇA MAIS FORTE DO QUE A MORTE

Importa dizer, antes de mais, que o olhar para uma pessoa que se aproxima da morte não é nunca antropologicamente inocente ou indiferente, nem simplesmente técnico, mas tributário de uma visão mais vasta do mundo e do homem, que nesse olhar atinge, porém, uma expressão particularmente decisiva e relevante.

Segundo a visão cristã, a iminência da morte não é somente um momento dramático e normalmente muito doloroso, do ponto de vista físico, moral e espiritual, mas pode ser também – não digo que necessariamente o seja – uma ocasião única e inigualável para atribuir, ou deixar que seja atribuído, um sentido definitivo à vida inteira.

 Um exemplo particularmente expressivo dessa capacidade de «salvar» a vida – falo aqui em termos antropológicos e também teológicos – no instante derradeiro antes da morte, é o que encontramos num texto muito conhecido do Novo Testamento, do Evangelho de são Lucas, em que um homem condenado à morte e crucificado, se dirige a Jesus Cristo, crucificado como ele, e Lhe faz este pedido: «Jesus, lembra-te de mim, quando vieres com o teu reino». Pedido espantoso, de um condenado a um outro condenado, nenhum dos quais terá mais do que breves momentos de vida, e a que Jesus responde, de modo não menos espantoso: «Em verdade, Eu te asseguro: hoje estarás comigo no Paraíso» (Lc. 23,42 – 43). A afirmação fundamental desta resposta é que Jesus quer receber o bom ladrão em comunhão consigo imediatamente depois da morte [1]. E assim, uma vida cheia de crimes, que ele próprio reconhece ter praticado (Lc.23,41), ganha no último momento um novo sentido, tal como antes nunca tivera, e acede a uma vida nova, mais forte do que a morte.

 Um sentido novo para o sofrimento

 No entanto, não se trata de um caso idêntico ao que agora nos ocupa, este homem não estava doente, era um condenado à morte, a quem a vida foi violentamente retirada pela justiça dos homens, mas que conseguiu ultrapassar o supremo desespero dessa situação limite por um ato de fé em Jesus, imprevisível e humanamente inexplicável.

 A situação dos doentes que se encaminham para a morte em sua casa ou numa instituição hospitalar é, evidentemente, muito diferente. Julgo que não haverá um só que aceite que o seu sofrimento é uma simples questão de justiça, ou um castigo por erros do passado, e com razão, porque o próprio Jesus rejeita essa interpretação do sofrimento como um castigo de pecados antigos, próprios ou alheios. Um passo do Evangelho de são João conta que um dia, «ao passar, Jesus viu um homem, cego de nascença. Os seus discípulos perguntaram-Lhe: ‘Rabi, quem pecou, ele ou os seus pais, para que nascesse cego?’ Jesus respondeu: ‘Nem ele nem seus pais pecaram, mas é para que nele sejam manifestadas as obras de Deus’» (Jo 9,2 – 3).

A fé cristã não tem uma resposta simples ou acadêmica para a pergunta: «Porquê o sofrimento?». Nem para a pergunta: «Porquê a morte?» Se alguém me perguntar, terei de responder que não sei, tal como a mãe dele não sabe, por que razão é que a doença de um rapaz da minha paróquia, o Francisco, que estava razoavelmente controlada, e nem o tinha impedido de entrar na universidade, nem de ir a Paris, para participar na Jornada Mundial dos Jovens, se agravou subitamente, e ele morreu um ano depois, com vinte anos.

Então é assim? A fé cala-se, quando, mais que nunca, era preciso que falasse? Não, a fé não se cala. A fé faz silêncio para escutar e para ver melhor. A fé cristã não dá uma resposta fácil à questão do sofrimento, mas convida a ver uma presença, misteriosa mas real, ao lado daquele que sofre, ou daquele que morre. Ao lado de um homem ou de uma mulher que sofre, e ainda mais quando a sua vida está a ponto de se extinguir, a fé cristã reconhece uma presença, que é humana e divina ao mesmo tempo, que não é portadora de uma consolação imediata ou sensível, mas sim de um sentido novo e definitivo para esse sofrimento intenso, para essa vida que se esgota, exatamente como aconteceu, afinal, com o «bom ladrão», crucificado ao lado de Jesus.

 Esta presença vence até a solidão da morte, que, de fato, é inacessível, para quem está de fora. A morte dos outros é uma fronteira que nunca transpomos. É uma experiência absolutamente impenetrável, porque cada homem morre sozinho, como homem privado, sem intermediários nem companheiros de viagem, porventura assistido, mas nunca substituído. Ninguém poderia tomar o seu lugar: nem viver a sua vida, nem viver a sua morte [2]. Como escreveu um filósofo russo, Nicolaj Berdiaef, «os vivos podem acompanhar o moribundo até ao último umbral, e ele pode sentir-se acompanhado por eles, principalmente se é a comunhão dos santos que o acompanha pela fé em Cristo. Mas só como solitário pode atravessar a porta estreita» [3].

 Há, no entanto, um passo do Apocalipse, que é um livro considerado difícil mas cheio de beleza e serenidade, que diz: «Felizes os mortos, os que desde agora morrem no Senhor» (Ap.14,13), o que significa que, ao contrário das aparências, aqueles que morrem, não morrem sozinhos, mergulhados na mais profunda solidão, morrem «no Senhor», unidos a Ele, acompanhados por Ele, acolhidos por Ele.

 Num outro texto, de uma carta de são Paulo, lê-se o seguinte: «Nenhum de nós vive para si mesmo, e nenhum de nós morre para si mesmo. Se vivemos, vivemos para o Senhor, e, se morremos, morremos para o Senhor. Portanto, quer vivamos, quer morramos, pertencemos ao Senhor. Na verdade, Cristo morreu e ressuscitou, para ser o Senhor dos vivos e dos mortos» (Rm. 14,7 – 9). Há aqui um sentido de pertença, que supera teologicamente a solidão ontológica, física ou psicológica.

 O mistério de uma presença

 Esta convicção de que existe uma presença no próprio terreno da definitiva ausência ou da derradeira solidão, é manifestada e significada em alguns gestos ou sinais, que, segundo a fé cristã, não apenas simbolizam, mas realizam aquilo que significam, e a que se dá o nome de «sacramentos». Trata-se, em especial, da penitência ou reconciliação (ou confissão), da unção dos enfermos e da eucaristia.

 É sumamente desejável que um doente em estado grave ou terminal os possa receber. Em muitos casos, a recepção desses sacramentos, livremente pedida ou pelo menos desejada pelo doente (o que se pode presumir, se houver motivos sérios para o fazer), trará consigo o dom gratuito desse sentido, talvez longamente procurado, mas nunca encontrado, senão nesse momento. Noutros casos, será o selo de um encontro já vivido desde há muito, mas que ganha então uma dimensão nova e definitiva, que a morte em breve virá confirmar.

 A recepção destes sacramentos nunca é banal, sobretudo quando é previsível a iminência da morte. Há cerca de um ano, fui visitar uma senhora idosa que tinha sido internada na véspera num hospital, devido a uma doença que já tinha há muito, mas que se agravara subitamente. Era previsível que não tivesse mais do que algumas semanas de vida, como de fato aconteceu. Costumava visitar essa senhora com uma certa freqüência, para a confessar, e sempre fui recebido com alegria e sincera amizade.

 Nesse dia, porém, quando entrei no quarto onde estava, notei, por um breve instante, um olhar diferente, a princípio de surpresa e logo em seguida de aceitação. A senhora, de quem também era muito amigo, compreendeu que eu tinha vindo porque o seu estado era grave. Deve ter entendido que podia estar perto a hora da sua morte. Mas o espanto do início tornou-se logo aceitação serena. Recordei-lhe que os sacramentos que ia receber lhe traziam a força e a graça de Deus para aquele momento de doença e de sofrimento em que estava. Nunca falei de morte. Também não era necessário, porque, de certo modo,  estes sacramentos relativizam a morte, que deixa de ser um absoluto, um fim inelutável, mas, integrada no mistério de uma presença, passa a ser o que sempre devia ter sido: uma simples fronteira, por onde se passa para uma vida plena e eterna.

 Uma ponte para o futuro absoluto

 Ao doente, que muitas vezes já não fala, e por vezes não vê nem ouve, cujas funções vitais se reduziram drasticamente e cuja vida se aproxima do termo, é dada a suprema graça não só de ser interlocutor de Cristo, de se dirigir a Ele, como o «bom ladrão», mas de se identificar com Ele. De certo modo, também aqui se torna «outro Cristo», «o próprio Cristo».

 É o que se reflete no relato escrito, já há algumas décadas, por um conhecido teólogo suíço, o cardeal Charles Journet, da visita que fez a um padre dominicano seu amigo, judeu convertido, chamado Jean de Menasce, personalidade muito rica e forte, mas que estava nesse momento como que «reduzido a nada»: «Estou a vê-lo, escreve o Cardeal Journet, imobilizado na cama do hospital, depois da traqueotomia, quando já não nos podia dirigir nenhum sinal, de olhos muito abertos, profundamente fixados no teto da sala, a respiração marcada pelo vaivém da agulha no motor da máquina. Um único indício asseverava que ainda tinha consciência: uma lágrima que despontava, como uma pérola, nos bordos da pálpebra, no momento em que se murmuravam junto dele as orações luminosas da Igreja que lhe eram tão caras. Pura e doce imagem do Cordeiro imolado desde o princípio do mundo…»[4].

 É possível que em muitos outros casos não haja nenhum indício, nenhum sinal de consciência. Mas também então, mesmo reduzido «a nada», o doente continua a ser «alguém», uma pessoa, e por isso também então a oração e os sacramentos têm sentido, não só como portadores de uma graça sobrenatural, mas como expressão de uma comunhão entre os crentes que partilham a mesma fé e a mesma esperança.

 Estes gestos religiosos podem, do ponto de vista formal, ser entendidos como o exercício de um direito legítimo, que ninguém teria a capacidade de negar, e felizmente são reconhecidos a esse nível nos diversos ordenamentos jurídicos e nos regulamentos das instituições hospitalares, mas são sobretudo a expressão de uma sintonia, de uma solidariedade, de um respeito profundo e de uma amizade muito forte que, sem deixar de ser sobrenatural, é também profundamente humana.

 Quando se pretende atenuar o sofrimento e dignificar a condição dos doentes terminais, tem todo o cabimento, mais ainda, é importante, é premente facilitar e até promover estes momentos, de acordo com a consciência e as convicções dos próprios interessados, e das suas famílias, os quais não são apenas atos isolados, mas gestos que dão sentido a uma vida inteira, uma vez que, na luz da fé, assumem o passado, unificam o presente e lançam uma ponte para o futuro absoluto, para lá da fronteira da morte, no próprio coração de Deus.

 José Manuel Santos Ferreira

Revista Celebração litúrgica – outubro/novembro de 2002

[1] COMISSÃO TEOLÓGICA INTERNACIONAL, Algumas questões actuais de escatologia, Roma, 1991, n. 3.

[2] Cf. J. M. SANTOS FERREIRA, Jesus Cristo, luz e sentido da solidão do homem, Lisboa, Rei dos Livros, 1989, p. 100-101.

[3] N. BERDIAEF, “Le Moi, la Solitude, la Société”, in: Cinq méditations sur l’existence, Paris, 1936, p. 110.

[4] Cf. J. M. SANTOS FERREIRA, Jesus Cristo, luz e sentido da solidão do homem, p. 283

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