05 – Unção dos enfermos ou Extrema Unção ?

UNÇÃO DOS ENFERMOS OU EXTREMA UNÇÃO ?

 Nestes dias estamos novamente envolvidos com a questão da extrema unção ou unção dos enfermos. São os casos da Kerri Schiavo e do papa João Paulo II. Foi-lhe dada a extrema unção, diz Carlos Nascimento no noticiário da TV Bandeirantes, o sacramento reservado pela Igreja católica para os agonizantes. Conclusão: vai morrer mesmo. No dia de sua morte, conforme o noticiário, foi-lhe administrada mais uma vez a extrema unção.

 Há tempos persegue-me o desejo de escrever algo sobre este assunto. Isso, porque na morte de confrades na província, ouvem-se, com freqüência, colocações como esta: “O frade tal morreu, mas o guardião ou outro frade, ainda lhe deu a unção”. Ele já recebeu a unção dos enfermos, sinal de que está às portas da morte. Ora, a primeira preocupação na hora da morte não é a de dar-lhe a unção, mas a eucaristia, como viático, penhor de vida eterna.

 Para Francisco a profissão da fé católica e a vida sacramental são condições para alguém ser admitido à Ordem dos frades menores:

 “Os ministros, porém, os examinem diligentemente sobre a fé católica e os sacramentos da Igreja. E se crerem todas estas coisas e as quiserem professar … a eles digam os ministros a palavra do santo Evangelho … ” (Regra, Cap. II).

 Entre os sacramentos na vida dos frades menores podemos situar sobretudo a eucaristia, a penitência e a unção dos enfermos. Os outros ele os viverá em comunhão com toda a Igreja.

Não foi sem razão que o Concílio Vaticano II mudou o nome desse sacramento: “A ‘extrema-unção’, que também e melhor pode ser chamada ‘unção dos enfermos’ não é um sacramento só daqueles que estão na última agonia.

 Portanto, tempo oportuno para receber a Unção dos Enfermos é certamente o momento em que o fiel começa a correr perigo de morte, por motivo de doença ou de idade avançada” (SC 73). Na expressão latina se diz: “tempus iam certe habetur”. “Certe” ou “certo”, em latim, significa: certamente, seguramente, sem dúvida. Com estas palavras o Concílio quis resgatar o sentido original deste sacramento, como sacramento dos enfermos, em vista da saúde, conforme a carta de são Tiago, onde se vê que a iniciativa de chamar os presbíteros da Igreja é do enfermo e não de um agonizante ou de outra pessoa da comunidade.

 A Introdução geral do Ritual da unção dos enfermos e sua assistência pastoral, reformado por decreto do Concílio, tem a seguinte colocação sobre o sentido e a importância do sacramento:“Este sacramento confere ao enfermo a graça do Espírito Santo, que contribui para o bem do homem todo, reanimado pela confiança em Deus e fortalecido contra as tentações do maligno e as aflições da morte, de modo que possa não somente suportar, mas combater o mal, e conseguir se for conveniente à sua salvação espiritual, a própria cura.

 Este sacramento proporciona também, em caso de necessidade, o perdão dos pecados e a consumação da penitência cristã. Na sagrada unção, unida à oração da fé (cf. Tg 5,15), esta fé se exprime, e por isso deve ser despertada tanto no ministro do sacramento como sobretudo naquele que o recebe; o doente, com efeito, será salvo pela sua fé e pela fé da Igreja, que contemplam a morte e a ressurreição do Cristo de onde provém a eficácia do sacramento (cf. Tg 5,15), ao mesmo tempo que se voltam para o reino que há de vir, cujo penhor é dado pelos sacramentos”(Rit. n. 6 – 7).

 Por isso, o novo Ritual recomenda: “Na catequese comum ou familiar os fiéis sejam instruídos a pedir eles próprios a unção, de modo que possam, sendo-lhes dada sem demora e em tempo oportuno, recebê-la com toda a fé e devoção, sem descambar no péssimo costume de protelar o sacramento. Todos aqueles que prestam assistência a doentes devem também ser instruídos sobre a natureza da Unção dos Enfermos” (Rit. n. 13).

O cuidado pelos enfermos e toda a pastoral dos enfermos que se distingue da pastoral da saúde em geral, é chamado ‘ministério da consolação’ (cf. Rit., n. 32). Para tanto teremos que mudar também nossa linguagem. Não se trata em primeiro lugar de receber a unção e dar a unção, mas de celebrar o sacramento dos enfermos, celebrar o mistério de Cristo que passou confortando, curando e perdoando os enfermos. Como diz a Instrução: contemplar a morte e a Ressurreição do Senhor.

 O Espírito é dado aos enfermos para que sejam primeiramente bons doentes, para que na força do Espírito possam viver, na condição de enfermos, sua vocação e missão de batizados, dar testemunho do Senhor morto e ressuscitado. Trata-se do Espírito do conforto e do alívio, o Espírito da vida e da saúde, o Espírito do perdão. A unção com óleo sempre tem a ver com o Espírito Santo. Na unção dos enfermos, o óleo tem significado medicinal, de alívio e de cura. Toda esta orientação foi colocada no Devocionário da família franciscana, p. 423 – 425. Importa que cada fraternidade possua à mão o Ritual renovado.

O sacramento dos agonizantes é a eucaristia, na forma de viático. Tanto assim que a Introdução geral do novo ritual insiste que na hora da morte a comunhão eucarística tem preferência sobre a unção:

 “Para atender mais facilmente aos casos particulares, em que os fiéis, por doença repentina ou qualquer outro motivo, se vejam de repente em perigo de morte, recorra-se ao Rito contínuo, pelo qual o enfermo recebe sucessivamente os sacramentos da penitência, da unção e da eucaristia sob forma de viático. Porém, se há perigo de morte iminente e não houver tempo para ministrar todos os sacramentos do modo que foi estabelecido, dê-se primeiro ao doente a oportunidade de uma confissão sacramental, ainda que realizada genericamente em caso de necessidade; em seguida seja-lhe dado o viático, que todos os fiéis em perigo de morte têm a obrigação de receber. Finalmente, se ainda houver tempo, seja-lhe ministrada a sagrada unção. Se, por motivo de enfermidade, não puder receber a sagrada comunhão, seja-lhe conferida a unção dos enfermos” (Rit., n. 30).

 Aqui se supõe que o sacramento dos enfermos já tenha sido celebrado anteriormente, mesmo várias vezes. Claro que o sacramento da unção dos enfermos também é de grande significado, quando se celebra a páscoa definitiva, para que o enfermo possa viver a passagem para o Pai, na força do Espírito Santo, possa unir-se a Cristo também na morte para com ele participar da glória na páscoa definitiva.

 Portanto, na hora da morte, não está em primeiro lugar a unção dos enfermos, mas a reconciliação e o viático. A unção dos enfermos situa-se em outro lugar no cuidado ou na pastoral dos enfermos que inclui a visita ao enfermo, a reconciliação e a unção.

 Para que esta nova compreensão do sacramento dos enfermos apresentada pelo Concílio e o novo Ritual se torne realidade temos que mudar de mentalidade e superar um longo tabu de mais de mil anos. Importante é que o enfermo, também o frade, tome a iniciativa de pedir a presença dos irmãos para juntos celebrarem o mistério da Páscoa, o Cristo médico da humanidade, o Cristo que confortava os doentes, os curava e perdoava, na experiência da enfermidade, na esperança da saúde. Será de grande proveito realizar de vez em quando uma celebração comunitária fora do contexto da morte iminente, em que participe toda a Fraternidade com os confrades enfermos e idosos, como já se tem feito em algumas Fraternidades. Que apareça o caráter celebrativo do sacramento, fugindo de uma compreensão meio mágica de receber e administrar os sacramentos, pois somos chamados a celebrar e a viver os sacramentos.

frei Alberto Beckhäuser, OFM

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